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Maldita literatura / "Todo maldito santo dia"; Paulino Júnior

Haron Gamal

Embora as grandes editoras não priorizem a publicação de livros de contos, nossos melhores escritores jamais menosprezaram a narrativa curta, e o mais célebre deles foi nada mais nada menos que Machado de Assis.

Com vinte textos curtos e ácidos, cujo formato fica entre a crônica e o conto, Paulino Júnior nos apresenta em Todo maldito santo dia o cotidiano às avessas, isto é, o mundo de pernas para o ar. Suas histórias retratam não apenas o insólito, mas aquilo que muitas vezes nos recusamos a ver. Hoje, fala-se muito da necessidade de determinados gêneros serem reinventados. Se isso é verdade, o escritor nascido em Presidente Prudente acaba de reinventar o conto e até mesmo o conto-crônica, além de nos mostrar uma literatura que não deve nada a ninguém.

Sua temática transita entre o mundo do trabalho, incluindo todas as consequências de um tempo em que o ser humano se tornou mercadoria e precisa ser vendável, e as relações afetivas, que também não deixam de apresentar sequelas em virtude de tudo se ter tornado um grande negócio. Ao utilizar muita ironia, o autor faz verdadeiras revelações, principalmente a de que existe vida fora do capitalismo.

Um conto que se destaca é “Presas”, onde um rapaz encontra na rua uma ex-namorada. A moça, vestindo jaleco branco, distribui anúncios de uma clínica odontológica. Toda opressão urbana se faz presente na narrativa: “o sol era mais uma merda para carregar. Outra porcaria lá em cima que a gente tem que aturar”. Ele para, não com a intenção de receber o panfleto publicitário, mas porque ouve a moça chamá-lo de soldado. Era a senha. No tempo em que conviveram, o rapaz tinha como um dos seus objetivos seguir a carreira militar. Sobre o passeio, em meio ao caos urbano, eles conversam e, de certa forma, falam sobre tempos passados. O rapaz sente nostalgia e tenta cativar novamente o coração da moça. Mas ela é mais forte, precisa deixá-lo de lado e continuar a distribuição dos panfletos, que lhe renderão pequena comissão caso alguém decida subir ao consultório. Os sentimentos estão soterrados, a necessidade fala mais alto, e a vida arde, como o sol do conto a provocar incêndios.

“Coisa de criança” é interessante devido à brincadeira em que mostra meninos e meninas capazes de identificar muitas marcas de empresas de alcance mundial. Conforme a letra, as crianças precisam acertar os nomes e tomar cuidado para não repeti-los. Os pequenos mostram-se muito espertos nisso. Enfim, chegamos à conclusão de que os publicitários e empresários trabalharam muito bem.

Outra boa sátira, agora em relação às terapias que se multiplicam na vida pós-moderna, é o conto “Atividade terapêutica”. A pequena narrativa é centrada num terapeuta que recomenda a seu paciente recomeçar a vida, mas esse recomeço consiste em criar ligação com uma prostituta através da frequência aos bordéis da cidade. A vida dupla e a concretização de fantasias acabam tornando-se a solução de todos os problemas.

Em “Conto desentranhado de uma notícia de jornal”, constatamos a habilidade de Paulino em transformar determinadas histórias do dia a dia em questões. Trata-se de um juiz que atropela um ciclista e o filho. No final do conto, quando a esposa do juiz diz que não se muda para a capital “porque lá tem muita violência”, perguntamos: afinal, o que é a violência?

Outra narrativa muito interessante é “Rock pesado”. Um homem maduro, jornalista bem sucedido, após encontrar uma foto tirada vinte cinco anos atrás, resolve retornar por alguns dias à sua cidade natal. Trata-se de uma foto dos tempos em que fazia parte de uma banda de rock local. Ali reencontra um velho amigo, também roqueiro, num show da mesma banda, que completa os mesmos vinte e cinco anos da foto. O então jornalista é reconhecido pelo roqueiro. Mas este já não lhe dá importância alguma. Assim como se firmara como um cronista respeitável longe dali, desfrutando no presente certa fama e estabilidade, o amigo roqueiro mantivera, pelo menos até certo ponto, os sonhos de juventude. Da narrativa se deduz que, na maioria das vezes, é preciso adaptar-se à realidade. Como diz o protagonista no final: “a gente dança conforme a música”. A respeito de outros amigos e amigas dos velhos tempos, recebe a informação de que um enlouqueceu, outro foi encontrado morto e uma ex-namorada suicidou-se. Talvez tenham levado o sonho demasiadamente a sério.

No final, em “Prisão do aplauso”, há um executivo que acorda ouvindo aplausos e não mais consegue se livrar desta (des)agradável companhia.

Os contos de Paulino nos apontam, na verdade, a loucura, o suicídio e a morte violenta como sintomas de uma sociedade que, quanto mais tenta manipular o homem e transformar tudo e todos em lucro, mais se autodestrói.  Como conclusão, pode-se dizer que o papel do escritor num mundo desse tipo é não só manter-se vivo, mas também lembrar a nós todos que a literatura pode ser um caminho em busca da humanidade perdida.

O AUTOR:

Paulino Júnior é ficcionista. Graduou-se em Letras e concluiu mestrado em Teoria Literária pela UNESP. Seus contos foram publicados em diversos periódicos – com destaque para a revista Coyote nº 24 (inverno de 2012) e Ô Catarina (nº 81, 2014) – e em antologias de concursos literários – os mais recentes foram Histórias de Trabalho 2013 (Coordenação do Livro e Literatura de Porto Alegre) e 8º Concurso de Conto e Poesia (Sinergia/SC). Ademais, teve um conto escolhido como epígrafe para a coletânea de artigos científicos Jovens, trabalho e educação: A conexão subalterna de formação para o capital (Mercado de Letras, 2012). Contemplado pelo edital Elisabete Anderle 2013, da Fundação Catarinense de Cultura, acaba de publicar seu livro de contos Todo maldito santo dia (Nave, 2014). Vive em Florianópolis desde 2005. (Foto de Patrícia Galelli)

LEIA:

Todo maldito santo dia
Paulino Júnior
Nave Editora, 119 páginas

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Ilustrações de HELTON SOUTO e UBIRAJARA GONÇALVES FILHO

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HARON GAMAL é autor de Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (2013), publicado pela Ibis Libris, e de Magalhães de Azeredo (2012), edições da ABL (Academia Brasileira de Letras), série essencial. Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro. Leciona português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho, onde esta resenha foi originalmente publicada. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

 

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

UBIRAJARA GONÇALVES FILHO, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte. Perfil no Facebook (Ubirajara Gonçalves Filho).

11/07/2014