)Entrevistas(

A poesia e o girassol / Gregorio Duvivier; poesia;

Renato Alessandro dos Santos

Funciona incrivelmente bem a abertura de cada sessão com os autores que vêm à feira do livro de Ribeirão Preto: crianças apresentam cada um deles, enquanto o público aguarda ansiosamente pelo início do bate-papo com os escritores. A garotinha que apresentou Gregorio Duvivier no abarrotado teatro Pedro II não devia ter mais de 11 anos, e sua voz líquida percorreu cada balcão, galeria e corredor com a mesma alegria que as palavras, dedilhando suas cordas vocais, formaram a biografia de um dos criadores do avissareiro Porta dos Fundos - cujo canal, no YouTube, tem impressionantes 8.333.464 inscritos que veem, semanalmente, seus vídeos. O pessoal do Porta dos Fundos já ultrapassou seus 10 + 5 minutos que levam uma pessoa da fama ao ostracismo num átimo e, agora, eles prometem ir mais longe: vem um filme da trupe a ser lançado na segunda metade de 2015; seus vídeos - sem qualquer alteração - serão vistos em intervalos da programação da nada indie Fox e por aí vai...

há pedras que se escondem sob a selva
cerrada — tímidas; há pedras que cobrem
suas vergonhas com neve, mesmo no verão;
há pedras, urbanas, que põem prédios sobre
as suas espáduas, protegendo-as do olhar alheio;
as quatro grandes pedras do rio (gávea, corcovado,
os morros da urca e os dois irmãos) na verdade são seis
ossos de granito e gnaisse que emergiram de uma deusa
subterrânea da qual só nos é permitido adorar as omoplatas.*
 
Gregorio Duvivier pisa o palco do teatro Pedro II, enquanto uma turba o saúda com a mesma alegria com que fãs de uma banda de rock'n'roll ensolarado recebem suas estrelas. Garotas não chegaram a desmaiar, mas dezenas de aparelhos celulares capturaram imagens daquele rapaz que, a despeito do calor californiano prometido a cada tarde ribeirão-pretana, vestia uma camisa de manga comprida, calças jeans e tênis. O poeta, ator e roteirista estava gripado, o que não o impediu, instantaneamente, de criar uma empatia enorme com a plateia.  O jogo estava ganho, mesmo antes de começar. Bastaria ao ator jogar beijinhos e tchauzinhos para o público, mas ele foi mais longe e falou bastante durante pouco mais de uma hora de conversa. Falou do Porta dos Fundos, claro; de Copa do Mundo; de legalização da maconha; do pessoal do Parafernalha; de poesia.
 
na rua mena barreto passa uma avó
que nunca teve netos por um feirante
que não se casou e dá olá de longe
para um apontador do jogo do bicho
que perdeu a mãe de trombose e todos
seguem carregando suas tristezas
dentro de sacolas de plástico.*

 

Ao meu lado, Théo ouvia a tudo atento, mesmo que, atrás de nós, três marmanjos engraçadinhos coaxassem sem parar, celular na mão, numa tentativa de capturar a atenção das garotas ao redor. Não estava dando certo. Certa hora, olhei para trás, com meu devastador, desafiador e musculoso franzir de cenho, o que gelou a alma deles e os fez silenciar por alguns minutos - e só. Para ir à feira do livro em Ribeirão, meu filho teve de faltar da escola para ir cedo comigo ao Moura Lacerda, onde leciono, e de manhã, no auditório da faculdade, os alunos de Letras fizeram adaptações de Macunaíma, A escrava Isaura e O navio negreiro. Théo adorou. É que acontecia a XXV Semana de Letras. Em seguida, discutindo direitos humanos, meus alunos falaram sobre maioridade penal. Pude falar de filmes que tratam da violência contra a criança e o adolescente, o que significou falar de Pixote, a lei do mais fraco e de outros filmes que mantêm a faca entre os dentes. Os alunos do primeiro ano ainda compraram um bolo de aniversário para este rapaz, porque há 42 anos, em 18 de maio de 1972, em Araraquara, nascia Costinha.

a avenida niemeyer
se esgueira
na beira do abismo atlântico
como o chile se espreme
entre o mar e a américa
do sul, macérrima (qualquer dia
desses pode ser que ela
afunde, sempre à mercê
das montanhas
e dos acidentes de carro às quatro
da manhã), outro dia mesmo,
disseram-me, um ford ka
descendo o vidigal
tropeçou
na mureta e decolou
em direção ao atlântico,
mergulhando
de barriga
no oceano
como
um
martim-pescador
obeso.*

 

Em seguida, fomos ao Mercado Municipal comer yakisoba, de onde saímos rolando, como Violet Beauregard, para a Feira do Livro. Achei que meu carro havia sido roubado, mas simplesmente o estacionei em um lugar e, depois, o procurei em outro. Às duas horas da tarde estávamos, Marley, Théo & eu, dentro do Pedro II, sentados no segundo andar. Uma hora e alguns minutos depois, atendendo à insistência de Théo para entrevistar Gregorio Duvivier, aponto minha credencial de imprensa para o segurança da Feira, que nos deixa passar para ir ao encontro do poeta, que, por essa altura, já se dirigia à sala de entrevistas adaptada na biblioteca Altino Arantes, logo ali, ao lado do Pedro II. Foi curioso seguir aquele grupo de jornalistas, enquanto Duvivier ia adiante, mochila nas costas, lembrando muito o personagem que interpretou no admirável Apenas o fim (2008), filme gravado na PUC, no Rio de Janeiro, onde ele cursou Letras. Quando saímos dali, no minuto seguinte ao término da entrevista para o Tertúlia, que você lê e ouve (sem cortes) a seguir, a felicidade de Théo ultrapassava os limites de seus 13 anos: não bastasse ter visto de tão perto o ator do Porta dos Fundos, ainda tirou uma foto com ele, e era essa fotografia que fazia seu rosto acender-se como um girassol repleto de contentamento. 

posto nove e meio
açaí açaí — você conhece o waldo — olha o mate — waldo 
que waldo — é o melhor musse do rio de janeiro — agora 
joga um spray nas minhas costas — conheço um waldo que 
morreu — meu musse é o melhor — o waldo não morreu quem 
morreu foi o walter — foi o waldo — empada praiana — foi o 
walter — sabe que — açaí — no fundo — açaí — eu acho que 
o nome dele era — olha — waldo mesmo — o mate — porra 
tu — guaraplus — tacou spray — guaraplus — no meu olho 
— o waldo — mate — ele mesmo — então, morreu — olha o 
mate — para morrer, meu amigo — mate — basta estar vivo.*
 

A entrevista: é de poesia que falamos.    

TERTÚLIA - Você publicou seu primeiro livro, A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, em 2008. Você tinha 22 anos. Qual foi sua expectativa em relação a ele e qual a repercussão que o livro causou?
Foi uma repercussão muito legal, mas a distribuição era muito ruim. Então, fui às livrarias, à casa dos autores que eu admirava e deixava o livro na casa deles. Comecei a receber uma resposta muito legal deles. Millôr Fernandes publicou alguma coisa. Ferreira Gullar falou, publicamente, que tinha gostado do livro. Foi muito bom, porque eu tive uma resposta muito preciosa pra mim, e dos autores que eu mais admirava. Millôr e Gullar são pra mim meus (autores) preferidos. Fiquei muito feliz e satisfeito com aquela repercussão.

 

TERTÚLIA - E sua expectativa em relação ao segundo livro, Ligue os pontos: poemas de amor e big bang, publicado em 2013?
Esse segundo livro está com outra pegada, porque, agora, há o Porta dos Fundos e é da Cia. das Letras, que é uma editora maior, e o livro está indo super bem. Já está na segunda reimpressão e estou muito feliz por meu livro encontrar uma nova geração de leitores que não costumava ler poesia antes. Fico muito feliz ao pensar que ele possa ser o primeiro livro de poesia de muita gente.

TERTÚLIA - Você acha que seu livro tem a marca da oralidade de hoje? Você acha que sua poesia foge da formalidade e do vocabulário hermético, inserindo-se numa modernidade que facilita seu trabalho como poeta, justamente, por conta dessa oralidade?
Facilita. A oralidade é um traço fundamental da poesia que eu escrevo, e eu tento fazer com que ela seja a mais ancorada e relacionada com a vida que a gente vive no mundo. A poesia não pode ficar restrita aos salões de poesia e à academia. Ela é feita pra ser dita, pra ser lida, pra ser copiada na agenda das pessoas. Sabe aquela poesia que desperta as pessoas? O Vinicius conseguiu isso. Poucos poetas conseguiram... Bandeira também... Meu sonho é que ela penetre no dia a dia das pessoas. Em diários, se ainda existem diários... É por aí.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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* Poemas de Ligue os pontos: poemas de amor e big bang (2013), de Gregorio Duvivier.

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor do Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • entrevista com gregorio duvivier - feira do livro de ribeirão preto - 22 maio 2014

25/05/2014