)Contos(

O mal de Sepúlveda /

George dos Santos Pacheco

As coisas não iam nada bem em Abaruna, pequena cidade encravada na serra fluminense. Um lugar aprazível, de clima ameno, com rios e cachoeiras onde muitos mergulhavam a fim de restabelecer suas forças. Com essas qualidades, tinha ganhado o apelido de “Pedaço do Céu”, exibido no pórtico da cidade. Sua economia girava em torno da criação de bois, porém, os mais pobres criavam cabras. Sepúlveda era um deles. Havia se mudado para lá há um ano com sua esposa, buscando uma vida melhor.

Levantava todos os dias às cinco da manhã. Ordenhava algumas cabras, depois soltava todo o rebanho para pastar, recolhendo-os à tardinha. Com o leite, sua dedicada esposa fabricava queijos que eram vendidos na cidade. À noite costumava ir à venda tomar uma pinga, e jogar sinuca, enquanto Margarete ficava em casa rezando. O assunto da vez era o aparecimento de uma onça na região. Dezenas de animais estavam aparecendo mortos nos sítios, com os corpos dilacerados. Não sobrava quase nada.

— Bota mais uma, Chico! — disse ele, segurando o taco em uma das mãos.

— Então compadre, devemos formar um grupo para caçar essa onça. — disse Sebastião dando uma golada na cachaça, deixando escorrer pelo canto da boca, que ele eventualmente limpava com a manga da camisa.

— De acordo compadre! — disse o Dr. Nunes, o único fazendeiro presente. Falava como se também fosse integrar o grupo. Não iria. Com certeza seria um empregado seu...

— Devemos ter cuidado senhores... Afinal, ninguém viu ainda a tal onça... — disse Zaqueu, que era filho de Sebastião.

— Não entendo o porquê dessa sua insegurança... O compadre Moura viu a onça devorando uma de suas cabras, não foi Moura? — disse o pai de Zaqueu.

— Na verdade... não tenho certeza se era uma onça... — disse Moura abaixando a cabeça. — Apesar da lua cheia, o bicho estava longe e eu não pude ver mais que seus olhos vermelhos. Mas era grande, do tamanho de uma onça ou maior.

— Você disse Lua Cheia? — perguntou Dr. Nunes.

— Sim doutor... — respondeu Moura.

— Temo estarmos lidando com uma criatura do mal... — disse ele limpando o suor da testa. — Isso que o compadre Moura viu, realmente não era uma onça. Era um lobisomem...

— Mas não é possível! Nunca tivemos isso por aqui... — reclamou Sepúlveda.

— Também nunca tivemos onças... — disse Zaqueu, um pouco desconfiado.

— Isso não existe gente! Vocês estão malucos? — disse Chico, o dono da venda.

— Se não fizermos nada, um dia pode ser um de nós que amanhecerá morto pela criatura, seja ela onça ou lobisomem... — disse Dr. Nunes seriamente. Era o único que parecia acreditar plenamente na existência das tais criaturas.

— Para mim chega! Vocês estão todos bêbados, a começar pelo doutorzinho! — disse Sepúlveda, ao sair do bar, cambaleante.

— Me respeite, Sepúlveda! Volte aqui seu borra botas! — disse ele levantando-se. Cuspia ao falar, e seu rosto havia corado.

— Acalme-se homem... — disse Chico.

— Façamos o seguinte: iremos todos para casa hoje e pensaremos no assunto. Amanhã nos reuniremos mais uma vez e decidiremos o que fazer... — disse Dr. Nunes, com uma autoridade que nenhum outro tinha.

Os homens saíram um a um da venda, calados e preocupados. Suas casas ficavam a léguas dali e a noite ia alta. Por mais que não acreditassem na história, os sons dos animais noturnos e o vento que sibilava nas árvores assustavam. Mas eles fingiam não se abater...

— Então pai... Acredita no doutor? — perguntou Zaqueu enquanto caminhavam pela estrada empoeirada.

— Olha filho, seu avô contava essas histórias desde que eu era moleque. Mas eu só vou acreditar no dia em que eu vir um... — disse ele pegando uma pequena trilha que dava em sua casa.

Caminharam em silêncio até que ouviram um animal rosnando, que parecia enorme. Pararam de caminhar, mas continuavam a ouvir o rosnado. Ambos sentiram um arrepio percorrer a espinha. A morte parecia iminente. Ousaram dar mais passos, mas a criatura rosnava mais. Não tiveram coragem de olhar para trás.

Decidiram correr. As passadas do bicho batiam pesadas no chão, atrás deles, e o mais velho foi alcançado. A criatura de quase dois metros, pelos marrons e olhos vermelhos, que estava ofegante e babando, deu-lhe um violento golpe, derrubando-o ao chão. Sebastião lançou um olhar suplicante para o filho que não pôde fazer nada.

O lobisomem lançou-se sobre ele, que gritava desesperadamente, mordendo-o diretamente no pescoço. Seu sangue jorrava e a criatura parecia se divertir com seu corpo, arrancando-lhe pedaços de carne, uivando e rugindo.

— O Senhor é meu pastor, nada me faltará... — recitava o rapaz correndo e chorando.

Sepúlveda cambaleava a caminho de casa, com a roupa suja e rasgada por causa de um tombo. Não temia nada. Não era bravura; era apenas o efeito da bebida. Alguns ficam corajosos com poucos goles.

Abriu sua porta, que rangia sombriamente, quebrando o silêncio que insistia em permanecer ali. Descalçou-se e entrou lentamente, temendo acordar a mulher, que estava no quartinho. Uma semana por mês ela dormia separada do marido. Coisas de mulher...

Pelo caminho vinha pensando na história do Dr. Nunes. Era melhor se precaver. Conferiu as janelas e trancou a porta de seu quarto, pegando uma espingarda que havia atrás dela. Colocou-a ao seu lado na cama e dormiu.

No dia seguinte, Sepúlveda chegou da venda com o pão debaixo do braço e com os olhos arregalados.

— Que cara é essa, bem? — perguntou Margarete. Tinha por volta de um metro e sessenta, pele pálida e olhos lânguidos.

— O compadre Sebastião morreu! — disse ele com a voz baixa. Nem ele mesmo conseguia acreditar no que dizia.

— Ara! Mas morreu de quê? — perguntou ela, tomando o pão de suas mãos.

— Ah mulher... Um bicho atacou ele e o filho no caminho de casa ontem à noite. O Zaqueu disse que foi lobisomem...

— Mas que absurdo! — disse ela, levando as mãos ao rosto. — Não acho que isso exista...

— Mas agora a coisa é séria... O compadre Moura já havia visto a criatura, mas ninguém tinha morrido ainda. E eu mesmo não acreditava, mas depois dessa... — disse ele saindo de casa. Voltou minutos depois com algumas tábuas debaixo do braço, um martelo e pregos.

— O que vai fazer? — perguntou ela, confusa.

— Você não me abra as portas nem as janelas desta casa por nada esta noite! — disse ele enquanto pregava as tábuas nas janelas. — Hoje vamos caçar a criatura!

Depois de reforçar as janelas e portas, limpou a espingarda, que não podia falhar quando fosse necessária. O sol já estava no horizonte e Sepúlveda precisava estar pronto para a caçada. Aproximou-se da mulher, deu-lhe um beijo e a abraçou.

— Eu te amo! Se algo me acontecer, saiba que sempre te amei e para sempre te amarei! — disse ele com os olhos marejados.

— Eu também te amo querido! Não há de te acontecer nada! — disse ela com ar tristonho.

O grupo reuniu-se na venda, como combinado, e saiu com armas em punho. Inclusive Zaqueu, que havia perdido o pai recentemente, estava lá, prometendo vingança. Dr. Nunes mandou avisar que tinha um sério compromisso e que infelizmente não poderia ir, mas mandou um de seus capatazes...

Caminharam mata adentro, tendo somente a lua como farol. Preparavam uma armadilha para o monstro. Prenderam uma cabra numa estaca fincada ao chão, ficando à espreita. Puderam perceber o movimento brusco dos arbustos, a respiração ofegante e suas passadas que ficavam cada vez mais fortes e próximas. Finalmente ele saltou sobre a cabra, mordendo ferozmente seu pescoço. Mal podiam acreditar no que viam...

— Desgraçado! — gritou Zaqueu saindo da tocaia atirando na criatura, que deu um forte rugido e se embrenhou na mata novamente.

— Não Zaqueu! — gritaram eles. A atitude do moço estava pondo tudo a perder.

O monstro agitava as folhas ao redor do rapaz e toda a equipe se aproximou. Temiam pelo pior. A criatura parecia estar se preparando para o ataque.

— Volte aqui seu desgraçado! — disse ele disparando um tiro na direção da mata. Não ouviram mais som nenhum. De repente, os outros, que estavam a uma distância considerável de Zaqueu, avistaram o monstro que caminhava lentamente e silencioso.

— Não! — gritou Chico, mas era tarde. Zaqueu teve tempo apenas de virar-se e desferir-lhe um tiro, mas a criatura o mutilou assim como fez com seu pai. Os homens atiraram nela, mas o monstro fugiu para a mata.

— Minha casa fica para lá! — disse Sepúlveda preocupado com a mulher. Ela podia estar correndo perigo!

Correram atrás do bicho. Avistaram-no caído já no quintal da casa de Sepúlveda e o primeiro a se aproximar foi ele, que logo viu a janela do quarto de sua mulher completamente destruída. Ele estava ofegante e ferido, parecendo se arrastar para a casa. Seus olhos lacrimejavam e ele rugia baixinho, como um filhote na presença da mãe.

— O que fez com minha mulher? — esbravejou — Volte para as trevas, monstro! — disse Sepúlveda atirando no lobisomem. Ele deu um grande grito e ficou encarando-o, com a respiração rápida e curta. Aquele olhar lhe era familiar...

A criatura foi perdendo tamanho. Seus pelos sumiam rapidamente. As feições femininas não demoraram a surgir e o corpo esguio de Margarete jazia moribundo em frente a seu marido. Tudo então começou a fazer sentido. As noites… que ela preferia… passar sozinha...

— Não! Margarete! — disse ele, jogando a arma ao chão e abraçando o corpo nu da esposa, chorando copiosamente.

— Me perdoe... — disse ela, expirando em seus braços.

— O que estão esperando? — esbravejou ele com o rosto banhado em lágrimas. - Terminem logo com isso! — disse ele, abraçando ainda mais o corpo flácido da esposa. Sua vida agora não fazia mais sentido.

O capataz de Dr. Nunes tentou detê-lo, mas Chico e Moura o impediram, pois entenderam a súplica do amigo. Sepúlveda não queria que sua mulher ficasse conhecida como o monstro. Entregou então a sua vida, para que salvasse ao menos a reputação dela. Seus amigos, com as armas, o livraram do martírio e ele tomou o lugar de Margarete. Ficou conhecido como o terrível lobisomem de Abaruna, morto enquanto mutilava a própria mulher.

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Ilustração de STÊNIO SANTOS

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GEORGE DOS SANTOS PACHECO nasceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 07 de outubro de 1981. Desde a adolescência rascunha histórias em cadernos, mas só tomou coragem de escrever depois de assistir a uma entrevista da escritora Sônia Belloto, em que a autora afirmava que, se quisesse, qualquer um poderia escrever. Assim surgiu O fantasma do Mare Dei, publicado pela Multifoco, do Rio de Janeiro. É graduado em Pedagogia e um dos autores da Coletânea Assassinos S/A Vol. II, também da Multifoco. Tem participado de Desafios Literários propostos em sites, o que lhe rendeu a participação no e-book Contos sombrios de Natal, do fórum literário Fórum Câmara dos Tormentos (atual A Irmandade). Publicou também um conto na edição do 3º trimestre de 2011 da Revista Marítima Brasileira. Recebeu Menção Especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, tema lírico-filosófico. Blogueiro desde 2009, publica textos na Revista Pacheco e nos sites A Irmandade, Tertúlia, As Crônicas do Edifício Cinza, dentre outros. A partir de janeiro de 2014, passou a compor o quadro de colunistas da Revista Êxito Rio. No Facebook: Revista Pacheco.

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STÊNIO SANTOS nasceu em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Desenha desde que se conhece por gente. Ainda não é formado em Design, mas pretende ganhar a vida com isso. Gosta de quadrinhos (principalmente os escritos pelos autores Alan Moore e Neil Gaiman) e mangás, de filmes e de literatura.

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