)Livros(

“Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu” / Opisanie Swiata; Verôncia Stigger;

Haron Gamal

Opisanie Swiata, que em polonês quer dizer descrição do mundo, é quase um livro de viagens. Mas depois se percebe que a volta ao Brasil empreendida pelo protagonista para uma breve visita ao filho, que ele não conhecia, é quase que definitiva. Se há possibilidade de retorno à Polônia, ela é bastante remota. Começara a Segunda Guerra Mundial.

O romance se inicia com uma carta de Natanael ao pai. Dentro do envelope vai também a passagem. O filho vive na Amazônia. Na carta, Natanael insiste para que o pai venha, pois deseja conhecê-lo. Revela que está doente, que não demore, não sabe se viverá até o dia de seu regresso. A medicina ainda não encontrou os meios de detectar a sua doença. Ainda dita ao pai algumas recomendações que deve observar durante a viagem, e diz que o espera ansiosamente. Daí em diante, podemos perceber as questões que o romance apresenta.

A primeira delas é a saudade. Pois Opalka, o polonês, deixa sua cidade para trás, e o leitor começa a desconfiar de que ele dificilmente a verá de novo. Em segundo: por causa da guerra – e sem saber dela –, ele está prestes a se tornar um imigrante, um dos elementos fundadores da cultura brasileira. Em terceiro, ainda há outros sentimentos, como o amor e uma espécie de nostalgia, mas agora pelo filho que ele não conhece e pela precariedade da saúde dele.

Para completar, num dos primeiros momentos da viagem, enquanto aguarda o trem que o levará ao porto, Opalka se depara com um personagem inusitado, homem divertido e atrapalhado, cheio de malas e bugigangas, alguém que vive viajando pelo mundo. Trata-se de Bopp, um brasileiro. Quando descobre que Opalka fala português e toma conhecimento do motivo de sua viagem, abre-se em sorrisos, faz mais um amigo e deseja acompanhá-lo no seu retorno ao Brasil, mais propriamente à Amazônia, onde Bopp diz já ter vivido.

A narrativa, ao abordar esses dois personagens, apresenta tipos que a princípio seriam antagônicos, mas depois se percebe que um é quase o complemento do outro. Enquanto Opaka viaja a partir da Polônia, o brasileiro apresenta-se como alguém em constante trânsito, conhece ambas as Américas, a Ásia, e acaba de chegar de Vladivostok, na Rússia. O polonês deseja sossego para ler o jornal. Bopp fala constantemente e o atrapalha na leitura. Opalka já estivera na região norte do Brasil nos primeiros anos do século 20. Bopp nessa época mal havia nascido. No final, o leitor perceberá que a influência de Bopp perdurará sobre o seu taciturno e recente amigo polonês.

Tanto na viagem de trem, como na de navio, ocorrem fatos que flertam com o fantástico. Isto talvez revele o objetivo da autora em reiterar que tudo é literatura. Tais momentos se concretizam com a chegada da italiana Priscila e o desaparecimento de sua aranha Maria Antonieta; depois, no navio, com o sádico batismo executado pelo comandante àqueles que ainda não haviam cruzado à linha do Equador; e no momento em que todos a bordo acenam a outro transatlântico, El Durazno, que navega continuamente proporcionando a seus passageiros uma vida fora do mundo, liberada de todos os preceitos e preconceitos morais (é a época da guerra, há de se convir), é para ele que fogem as irmãs andaluzas Olivinhas.

A narrativa não possui apenas uma voz. Ela se dá ora em primeira ora em terceira pessoa, e também há várias cartas que contribuem para o avançar da trama. Um poema próximo ao fim do romance contribui para mesclar os vários gêneros que compõem a narrativa, fazendo o livro beirar o experimental. Gravuras anunciando produtos ou serviços, todos eles da primeira metade do século XX, ilustram a narrativa e propiciam ao leitor conhecimentos da publicidade à época, além de ainda servirem como suporte para a narrativa. Há também recomendações para o desconfiado viajante europeu que se aventura pela América Latina de então.

O microcosmo étnico, formado por pessoas de várias nacionalidades, representa bem a humanidade do período do entreguerras, sublinhando os aspectos mais marcantes de cada personalidade, confere a jovem italiana, o russo, os alemães, os ingleses e, por fim, o próprio brasileiro.

Na chegada à Amazônia, Opalka se vê diante de uma situação pungente. E sempre incentivado pelo amigo, resolve escrever “opisanie swiata”, isto é, a sua descrição do mundo. Na verdade é o brasileiro que revela a ele: “– Tome – disse Bopp, estendendo-lhe um caderninho preto. – É um presente. Serve para fazer anotações. Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu. Bopp se calou e, depois de um tempo, acrescentou: – Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”

Procurar uma filiação literária para Verônica Stigger é algo problemático. Opsanie Swiata, ao transitar na direção oposta, isto é, do exterior para o Brasil, trazendo no enredo o retorno de dois personagens (um à sua terra natal; outro à terra onde deixara um filho) nos soa como algo antropofágico. Pois não se trata apenas de a cultura brasileira absorver o que vem de fora, mas também uma cultura brasileira que já transitou por outros países e agora retorna mais robusta e feliz ao seu país de origem, pois também se tornara alimento a completar e deixar marcas em outras culturas. Portanto, filiar este livro à ideologia modernista seria torná-lo menor. O que há aqui é um trânsito entre culturas, deixando no mesmo patamar de tantas outras a cultura brasileira, algo talvez impensável à época dos dois Andrades.

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Verôncia Stigger nasceu em !973, é gaúcha radicada em São Paulo desde 2001. Doutora em história da arte, crítica de arte e professora universitária, defendeu tese sobre a relação entre arte, mito e modernidade, enfatizando as obras de Kurt Schwitters, Marcel Duchamp, Piet Mondrian e Kasimir Malevitch. Em seu pós-doutorado estudou, entre outros, os artistas brasileiros Maria Martins e Flávio de Carvalho. Seu primeiro livro, O trágico e outras comédias, foi publicado pela editora portuguesa Angelus Novus, em 2003 e, no Brasil, pela 7Letras, em 2004. Pela Cosac Naify, publicou Gran cabaret demenzial (2007) e Os anões (2010). Alguns de seus contos foram traduzidos para o catalão, o espanhol, o francês e o italiano.

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Este texto foi originalmente publicado no jornal Rascunho e reproduzido aqui, no Tertúlia, com a autorização do autor.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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HARON GAMAL é autor de Estrangeiros: o anfíbio cultural na prosa brasileira de ficção (2013), publicado pela Ibis Libris, e de Magalhães de Azeredo (2012), edições da ABL (Academia Brasileira de Letras), série essencial. Tem doutorado em literatura brasileira pela UFRJ. É professor de literatura da Fafima (Faculdade de Ciências e Letras de Macaé) e professor de português do Estado do Rio de Janeiro. Leciona português e literatura para o Ensino Médio. Colabora no JB online, no Globo e no Rascunho, onde esta resenha foi originalmente publicada. Tem um blog (harongamal.blogspot.com).

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 02 My Culture

20/04/2014