)Livros(

Nos cantos da memória / O escaravelho do diabo; Lúcia Machado de Almeida; Coleção Vagalume;

Renato Alessandro dos Santos

Se você é da mesma geração que a minha, dificilmente não leu O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida (1910-2005). O livro não foi publicado em 1981, quando eu tinha nove anos, nem mesmo em 1972, ou em 1963, como muitos sites informam; na verdade, O escaravelho do diabo, de acordo com a editora Ática, foi publicado pela primeira vez, em folhetim, em 1955.

Deu tempo de alcançar o Escaravelho ali por volta dos doze anos, em 1984, quando li esse e outros livros da Coleção Vagalume, como A ilha perdida, A montanha encantada, O mistério do cinco estrelas etc., que caíram nestas mãos de alface por culpa de D. Benta, ou de D. Maria, ou de D. Conceição, minhas professoras na Escola Estadual de 1º Grau Dr. João Pires de Camargo. Obrigado, divas, pelo Escaravelho e outros livros que passaram por mim nessas horas estranhas entre a infância e a adolescência, quando a voz começa a encorpar como o tinto vinho seco que, com o tempo, chega para embaraçar as cordas vocais.

Passados quase 30 anos desde o imediato contato com O escaravelho do diabo, impelido por um debate com alunos do primeiro ano de Letras, que cursavam literatura infanto-juvenil comigo em 2013, retornei à adolescência arredia para reencontrar velhos amigos. Todos estavam lá, me esperando: Alberto; o inspetor Pimentel; Verônica; a ruiva Rachel Saturnino; Mr. Graz; Mr. Gedeon; Cora O’Shea. Embora todos estivessem com a mesma aparência daqueles tempos, não foi tarefa fácil perseguir o serial killer seminal que envia besouros às suas vítimas, todas ruivas. Não foi uma tarefa fácil (o livro pareceu envelhecer para mim), mas nem por isso ingrata (aliciando uma infinidade de leitores desde sua primeira edição, a história, nesses anos todos, não perdeu seu encanto); enquanto as horas voavam, a ação transcorria interrompida aqui e ali (provas para corrigir, outros livros para ler, facebook etc.), mas a satisfação não era igual à que leitores infantis experimentam ao se deparar com a narrativa de O Escaravelho do diabo pela primeira vez. Ainda bem.

Besouros

Um dia, Alberto encontra o quarto de seu irmão fechado. Nenhum barulho lá dentro. Ele arromba a porta e encontra o corpo sem vida de Hugo, que está violentamente trespassado por uma espada. A polícia não tem resposta. Alberto encontra um pequeno besouro no quarto, mas não diz nada aos policiais. Quando outro assassinato ocorre, curiosamente, outro besouro é encontrado por ele, que, por essa altura, vem ajudando a polícia na solução dos crimes, na condição de irmão de uma das vítimas. O assassino comete outro crime. E outro. A polícia não tem resposta para nada. Eis então que…

Mas se a história envolve o leitor juvenil, contra ela, há coisas que incomodam: por que Alberto sequer demonstra luto pela perda do irmão? Em vez de cursar as aulas da faculdade de medicina, por que ele fica à disposição do inspetor, que acaba se tornando seu amigo? E que história é essa de alguém tomar “banhos de mar” para melhorar a saúde? Poderia ser só implicância mesmo, porque sabemos da importância que o mar tem, especialmente, na vida de uma pessoa enferma, mas, se vier a ler o livro, talvez você concorde comigo. “Recebi uma carta de D. Lia dizendo que os banhos de mar estão fazendo muito bem à sobrinha”. Estamos na página 96, da 18ª edição do livro. “[Ela] já está quase em estado normal.” Como assim?! Será implicância minha? Acredito que hoje nenhum psiquiatra recomende “banhos de mar” a alguém que quase teve a jugular cortada por um assassino. Não seria melhor éter?

E o enredo, ainda continua em forma? Gostei da sugestão por trás do nome científico de cada coleóptero. “Que mundo de sugestões naquele pequeno inseto, meu Deus!” — nos diz, em discurso indireto livre, narrador e personagem — “Seco, embalsamado, transmitindo, em sua muda linguagem, uma mensagem de morte… de uma determinada morte”. Também gostei de uma definição para ópera: “A gente se aborrece durante duas horas para ouvir três ou quatro árias bonitas”, diz Alberto. “Além de tudo é ou não é ridículo uma pessoa pedir um copo de água cantando?”. E gostei das referências que o narrador vai deixando pelo caminho: Jean-Christophe, Chopin, Greta Garbo, Chagall, George Sand e vai por aí.

Meus alunos de Letras, que concordaram em ler O escaravelho do diabo para um debate, não têm mais idade para livros como esse, mas acharam tempo para lê-lo. Na sala de aula, discutimos literatura infanto-juvenil, buscando encontrar espaço para O Escaravelho do diabo como uma possível leitura futura para os alunos de meus alunos. O enredo faz uso das técnicas do romance policial, mas não sei se sua “agilidade” narrativa ainda será capaz de aliciar novos leitores, uma vez que a concorrência é grande. Potter, vampiros & zumbis que o digam.

De qualquer forma, é bem fácil criticar a narrativa de Lúcia Machado de Almeida quando se tem quatro décadas de experiência presas ao tornozelo, como uma âncora. Mas quando se tem dez, onze, doze anos, bem, aí a história é outra e, nesse sentido, vale e muito a pena perseguir o serial killer desse clássico tupiniquim da Coleção Vagalume. O escaravelho do diabo deve ser lido enquanto adolescemos. Mais tarde, nossas narrativas serão outras: todas irão se acumular nos cantos da memória, mas não como dentes perdidos, dos quais deixamos de ter notícia.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor do Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

 

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 01-Psycho Killer

13/04/2014