)Contos(

A praia /

Alexandre Nobre

— Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

— O que eu vejo é o beco.

            Manuel Bandeira

A chuva diminuía, e fazia frio. Deitado na areia gelada, o corpo apoiado de lado, a cabeça pendendo para baixo, eu via as ondas ressacadas rebentarem à minha frente com sombria e fingida ansiedade. Desilusão. Nem as ondas, nem os ventos daquele final de outono frustrado poderiam me salvar: Era minha vida que rebentava!  Luíza, tão fria, certamente me diria: você tem propensão para o drama. E para a angústia desmedida. (Além de fazer versos horríveis, como este: Luiza, tão fria, certamente me diria.) Também foi Luíza quem disse: todo mundo tem algum talento na vida. Basta você descobrir no que é bom de verdade e investir todo o seu coração. Jamais pude me esquecer.  Luíza, para mim, não dizia: decretava!  Só agora descobri no que eu sou bom de fato, Luíza: eu sou bom para o fracasso.

Tristeza não tem cor de nada. Solidão também não. E as nuvens carregadas, o silêncio parado e pesado, mesmo o vento desta tarde incerta, anunciam apenas a próxima tempestade.  Verei? Quem poderá saber o desfecho desta hora definitiva e trágica se não eu? Que trago na boca este gosto ácido do grito sufocado? Talvez, é claro, aquela criança ali. Com seus trapinhos imundos, sua cara miserável, desbotada pela fome e, provavelmente, pelo desânimo de quem, ainda menina, já sente a vida longa demais. É inútil este tempo. Para que prolongar tanto este tormento? Esta menina, esta criancinha, tem motivos para a amargura.  Eu não. Eu sei. Luíza, mesmo fria, certamente me diria: olha esta menina, ela pode sofrer. Você não. E quem saberá o que já passou esta criança para trazer os olhos assim neste transe? Olhando o mar como se visse o deserto. Olhando para mim como se não me enxergasse.

Talvez ela esteja apenas vendo o urubu. Este que pousou agora à minha frente. E posou, parece, para me confrontar. Afirmar de vez a minha ruína. Fosse eu realmente poeta, e ele agora me diria: “Never more”. Mas não diz, pois é urubu, não corvo. Simplesmente me olha com este olhar de indiferença. De fingido desinteresse. Já, já, vai, urubu. Antes, eu quero ver de novo esta menina. Uma vez mais encarar nossa cumplicidade miserável. Esta criança que tem motivos para a amargura. Não eu. Ela olha a água como se visse o deserto. Por que será? Talvez o deserto a liberte. Talvez o inferno, para ela, realmente sejam os outros. Provavelmente o urubu está certo em ficar calado. Já me é difícil dizer o que julgo saber. Desisto de uma vez. Cheguei até ela e apontei para o mar. Era um espelho cinza, lento e profundo, refletindo seu olhar vazado. Eu lhe falei de um lugar onde nos sentiríamos bem. Ela me sorriu, agradecida. Partimos em silêncio. Ao passarmos, o urubu baixou a cabeça. Ainda pude adivinhar o seu cantar funesto: “Never more, never more”. Já, já, vai, urubu.

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Ilustrações de HELTON SOUTO que fazem parte de um tríptico: "O mar", "A menina" e "O urubu".

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ALEXANDRE NOBRE é paulistano, mas reside em Ribeirão Preto, interior do estado. Durante os anos 90 atuou como compositor e guitarrista em bandas de blues e rock e, paralelamente, publicou alguns poemas e contos em jornais e revistas da cidade e região. A partir de 2007 passou a dedicar-se à literatura, sendo premiado em diversos concursos literários do país, como: Concurso Nacional Luiz Vilela 2008, de Minas Gerais, com “A mangueira da nossa infância”; Newton Sampaio 2009, do estado do Paraná, com “Aila”, Maximiano Campos 2007, de Recife, com “A praia” e Prêmio Ignácio de Loyola Brandão 2011, com o conto “Fazendo Nova América”, dentre outros. A mangueira da nossa infância é o seu primeiro livro publicado. Foto do autor: Matheus Urenha. Facebook: Alexandre Nobre.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 06 - A praia do mar

23/03/2014