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Onde está o anjo exterminador? / O anjo exterminador; Luis Buñuel; Julio Cortázar; "Casa tomada"

Renato Alessandro dos Santos

Não é difícil parar de assistir a O anjo exterminador (El ángel exterminador, México, 1962) um pouco antes da metade do filme. Mas você insiste. Como não enfrentar a sentinela? Ainda mais com o argumento pra lá de estranho do enredo: após uma ópera, um jantar é oferecido por um casal, que convida vários amigos à sua casa. Mesa posta, jantar servido, cafezinho, conversa jogada fora. Já é madrugada, mas ninguém quer, ou consegue, ir embora. Estranho é ver aquela dúzia de gente começando a tirar os sapatos, gravatas, vestidos e preparando-se para dormir. Na sala mesmo. De onde ninguém conseguirá sair. Por dias. Por semanas.  

Mesmo com os quartos à disposição, meio sem entender o que está acontecendo, ninguém consegue transpor o limite da sala. Nos dias e noites seguintes continuarão dormindo e convivendo no mesmo lugar. Mudam os móveis. Não tomam banho. O único batente de porta que conseguem atravessar é o de um closet, que serve de banheiro ao grupo. Por essa altura, fica difícil imaginar o que Buñuel quis mostrar com essa história. O Google está aí, e assim é fácil. Então, por que não assistir ao filme, sem muito dever de casa, forçando as sinapses preguiçosas a trabalhar? É uma tentativa um pouco inútil entender o porquê desse confinamento inesperado de pessoas que têm tudo o que querem, mas que são incapazes de se mexer, de agir e de sair da casa. Lembra o Cortázar de “Casa tomada”, mas aqui, nas mãos de Buñuel, todos já estão dentro da sala, comprimindo-se na ambientação sufocante do espaço fechado. Angustiante. Essa situação deixa em chamas o cocoruto do espectador.

Exílio?

Pense em exílio, num primeiro momento; nessas pessoas que, mesmo com um país ali, à disposição, não conseguem voltar a ele ou, no sentido contrário, pessoas que, com a liberdade arrancada, de uma hora para outra, são obrigadas a viver a miséria da prisão, enquanto o tempo, em slow motion, arrasta-se, derretendo, como os ponteiros de Dali. Vai saber. Talvez Buñuel quisesse mostrar como as pessoas perdem demãos de verniz, depois que o respeito entre elas vai embora, e as máscaras começam a cair. Devagar. Como carapuças. Tire de alguém seu direito de ir e vir e você terá algo parecido aqui. O lamento é um só: como não se decepcionar com tanta gente dissimulada  ao redor? No filme, pessoas esclarecidas, elegantes, agem de maneira estúpida, sem arestas, quase no limiar que as separa dos bichos. O exílio. A solidão. A convivência forçada. A falta de respostas, na ausência de perguntas certas. O nonsense que se instaura no esqueleto que mantém o filme em pé. As pessoas, no fundo, não agem; deixam-se levar. Talvez a película queira mostrar que muita gente não é capaz de se levantar e pôr a vida nos trilhos. Apatia. Falta de coragem. Procrastinação: mañana.

O anjo exterminador é capaz de sugerir que, por baixo do gesto calculado, escondem-se o egoísmo à flor da pele e a dificuldade que muitos têm de ser altivos em situações em que o caráter é levado mais em conta do que gestos abruptos e mesquinhos vindos de gente que presta pouco.

Vale ver esse filme, na tentativa de desvendá-lo. Sem o Google. Sem fortuna crítica. Primeiro, o cérebro em exercício; depois, o alastrar da opinião alheia.

Ah, sim, Buñuel dá mais um passo adiante, na cena dentro da igreja. Veja e, mais uma vez, faça as contas, somando e subtraindo, tentando compreender o que o diretor espanhol faz com você em O anjo exterminador.

Ah, sim, e não se esqueça de se perguntar onde está o anjo.

 

Ilustração de HELTON SOUTO

 

RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor do Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

 

 

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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16/03/2014