)Contos(

Olhos que veem /

André Carretoni

Ele acordou, e a escura realidade seus pensamentos retornaram. Despertar de manhã e não sentir a diferença entre abrir os olhos e deixá-los fechados. Limitou-se a tocar com a ponta dos dedos os ponteiros de seu relógio de pulso e recordar-se de que era domingo. Ele e sua esposa teriam todo o dia para aproveitar, se a meteorologia tivesse acertado.

Procurando-a, passou a mão no lençol de seda e lembrou-se dela na noite anterior. Uma alma que sempre procurava o mesmo busto, assim funcionava a sua cabeça. O tilintar dos pratos, neste ínterim, e o cheiro de café indicaram-lhe onde estava seu regaço.

Sentou-se na beirada da cama e enfiou os pés nos seus pantufos. Eles não tinham ido a lugar algum. E, a esticar os braços, ouviu estalo.

Nascera assim. Só conhecia uma cor. Se bem que o agradava falar sobre elas. Relacionava-as com sentimentos, recordações e até pessoas. O branco quando sentia paz, o azul era sua infância, sua esposa portava o vermelho, e o preto, bem, o preto era a cor.

Levantou-se e ajeitou o pijama na cintura. Virou-se para a direita, deu dois passos, tocou com a mão esquerda o armário, direcionou-se à direita, deu mais três passos – a mão harpeando a madeira – e tomou à esquerda. Deu três passos, saiu do quarto, ergueu a mão à direita, tocou a maçaneta do banheiro e girou-a, abrindo a porta do banheiro. Fechou-a atrás de si e procurou o vaso ainda um passo à frente. Abaixou a calça e sentou-se para urinar. Pensou em uma chuveirada, mas almejava um café. Sacudiu seu corpo e levantou-se junto das calças. Voltou-se para o lavatório, tratou dos dentes e das mãos – não nessa ordem –, lavou a cara, passou a mão nos cabelos para trás, pegou a toalha de mão, enxugou-se e saiu do aposento, fechando novamente a porta.

Volveu à direita, continuou no corredor por dois passos e pisou na cauda do gato. O miado foi tão estridente que o bípede sentiu mais dor que o felino. Sua mulher veio até eles por causa do rumor, e do tamborim não havia mais sinal. “O que houve?”, ela disse, “Você pisou de novo no gato?”, e ele, com uma mão no peito e a respirar forte, lamentava. “Pisei..." Adorava aquele gato, mas, às vezes, pensava que o animal estava a mais dentro daquelas paredes.

“Venha.”

Ela continuou com bom humor.

“O café está pronto."

“Espere.”, ele interrompeu-a. Ele esticou os braços na direção de sua amada e aproximou-se dela até tocá-la. Ele tocou primeiro suas mãos e seguiu pelos seus braços e por sua silhueta, como uma trilha que havia sido deixada havia tempos para que ele encontrasse o seu pescoço e sua face. Ele percebeu que os cabelos dela estavam presos e explorou os contornos de suas bochechas e de seu queixo. E de seus lábios. Ela estava sorrindo. Para ele, aquela era uma experiência que ele sempre fazia como se a estivesse vivendo pela primeira vez.

“Bom dia, princesa.”, ele disse. “Você está linda.”

Jamais havia conhecido mulher mais bonita. Ele sentira-se o maior dos afortunados no dia que havia descoberto que ela também o amava.

“Você acha?”, ela disse, e ele era capaz de ver sua cor. Um beijo marcou o momento.

Ela puxou-o pela mão, levou-o até a mesa da cozinha e, depois, procurou novamente a pia. “Eu fiz um bolo”. Ele agradeceu e fingiu surpresa, pois tinha sentido o odor de chocolate assim que havia entrado na cozinha. “Você é incrível.”, ele disse, e ela lhe lançou um beijo.

Ela procurou com as mãos o lugar onde tinha deixado o bolo e o levou até a mesa. Voltou para pegar a cafeteira e foi sentar-se junto dele.

“Meu amor...”, ele disse, “eu não sei o que seria de mim sem você”.

“Nem eu”. Ela apalpou a mesa até encontrar a mão dele.

Enquanto isto, o gato olhava a luz a partir da porta.

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Ilustração de STÊNIO SANTOS

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance, Piedade Moderna, e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nova fonte de inspiração.

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STÊNIO SANTOS nasceu em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Desenha desde que se conhece por gente. Ainda não é formado em Design, mas pretende ganhar a vida com isso. Gosta de quadrinhos (principalmente os escritos pelos autores Alan Moore e Neil Gaiman) e mangás, de filmes e de literatura.

 

 

  • 01 Long Old Life

23/02/2014