)Literatura(

50 flexões de cinza / literatura russa; Tchékhov; Púchkin; Tolstói; Dostoiévski; Gógol

Renato Alessandro dos Santos

Um cartaz mostra Tchekhov de tênis, vestindo roupa de ginástica e segurando um cronômetro na mão direita. Ao fundo, vê-se que ele está em um campo de treinamento, enquanto refletores iluminam um dos maiores escritores de todos os tempos.  Ele olha para nós e parece querer dizer o que o cartaz afirma: “3 sets daily of 7 pages and you will notice the result in a week” (algo como: “3 sessões diárias de 7 páginas e você irá notar o resultado em uma semana”). 

Puchkin também veste um abrigo de ginástica, enquanto se mantém em pé, com um apito entre os lábios e com o corpo expressando a mesma altivez que seu olhar lança adiante. Ele está em uma quadra fechada. A cesta de basquete está em silêncio, enquanto luminárias reafirmam a determinação do escritor. Em letras de tipografia moderna, lemos: “Start with light texts; gradually increase the load” (algo como: “Comece com textos leves; gradualmente, aumente a carga”).

Tolstói também veste roupas de ginástica. Lemos em sua blusa, entreaberta por um zíper, as palavras “War” e “Peace”. Ele segura uma bola na mão esquerda, enquanto a outra é um punho cerrado em seu quadril. Não só o tamanho de sua barba chama a atenção, mas o tamanho de seu nariz também. Luzes esparsas iluminam armários de ferro ao fundo, todo o vestiário e o autor de Guerra e paz, que está em pé, enquanto lança seu olhar resoluto em direção a alguém que, certamente, fez alguma coisa errada. Lemos: “Don’t give up. You’ll get a second wind at page 500” (“Não desista. Você recobrará o fôlego quando chegar à página 500").

A pergunta é: por que os russos estão deixando de ler seus clássicos? A coisa anda feia por lá. Séculos e séculos de civilização tornaram a região um dos berços da literatura universal, mas, veja você, a nova geração de russos não quer mais saber de sua literatura clássica. Nada de Tchekhov, nada de Puchkin, nada de Tolstói.

É uma situação bizarra — ainda mais quando, recentemente, o Pisa, exame internacional de educação básica, que avalia a molecada em matemática, leitura e ciências, registrou que a educação anda muito bem na Coreia do Sul, na Finlândia e na Polônia, países que ocuparam as primeiras colocações no último certame, enquanto outros lugares agonizam. O Brasil, sem alarde algum, ocupou a parte Z da tabela: 58ª posição em Matemática; 55ª em leitura; 59ª em ciências. Surpresa mesmo foram as posições que o Vietnã ocupou, respectivamente: 17ª, 19ª, 9ª. Bem melhor que os EUA (36ª, 20ª, 23ª). E a Rússia? Bem, a Rússia anda vacilando com seus escritores da velha guarda.

Agora, cá entre nós, não é de uma criatividade hidratante a campanha que a Rospetchat, agência federal russa de comunicação, criou utilizando Tchekhov, Puchkin e Tolstói? A ideia deveria ser copiada no Brasil. Imagine Machado de moletom. Sugerir uma campanha que parece tratar de esporte quando, na verdade, trata de educação foi um belo insight dos russos. Quer dizer: não basta ter um corpo sarado, se a cabeça está bichada.

Não é de um truísmo fantástico a frase “3 sessões diárias de 7 páginas e você irá notar o resultado em uma semana”?! Em uma semana serão 147 páginas. É que Tchekhov não deixa por menos, mas, se for o caso, à brasileira, fique com uma sessão diária de 7 páginas. Serão 49 páginas por semana. Até que não estaria mal.

O que acha?

Pense nisso, enquanto anda.

Audiobook nos headphones? Nada disso. Não há método mais eficiente de aprendizado do que a leitura. Sem contar que a época é excelente para tal resolução. Não estamos mais no começo do ano, mas sempre é hora de pôr em prática sua lista (negra) de regras para o ano. E se for mesmo insistir neste novo leitor que você irá se tornar, lembre-se: nada de mexer os lábios enquanto lê. Repita a frase: nada de mexer os lábios enquanto lê. Ótimo. Sabe por quê? É que lendo em silêncio você lê mais rápido e aprende mais. Lendo dessa forma, não irá soletrar cada sílaba de uma frase como quem lê oralmente um texto que deveria ser lido silenciosamente. É o que dizem os especialistas. E quem são os especialistas? Especialistas são todos aqueles que, sem se conter, têm algo a dizer em horas como esta, não é? Tony Parsons, autor de Disparos do front da cultura pop, diz: “O fim dos anos 70 era a época ideal para se trabalhar num semanário de música. […] Era um lugar excelente para um jovem jornalista aprender a profissão porque parecia que todos os jovens do país que conseguiam ler sem mover os lábios compravam o jornal”. O jornal em si era o NME (New Music Express), eterno baluarte indie inglês. Você também pode consultar um professor ou seu escritor predileto pelo Facebook, se for o caso. Mas faça melhor: leia. Leia livros. Lembre-se: 147 páginas por semana! (ou 49, se você for muito preguiçoso). O que está esperando?

MC Gógol e DJ Dostoiévski

Em artigo na Gazeta Russa, suplemento enfeixado na Folha de S. Paulo, Aliona Tverítina conta sobre a vertiginosa queda de leitura dos russos. “Em meados de 2013, o instituto de pesquisas Fundo Opinião Pública divulgou um estudo revelando que 44% dos russos não tinham lido um único livro no último ano”, diz. Pior: os russos gastam em média 8 horas por dia consumindo notícias, mas apenas 9 minutos, ou seja, 1,8% desse tempo, para ler livros.

A coisa não é recente. Desde 2006, o governo russo lançou um programa nacional para o desenvolvimento da leitura. “Por esse programa”, diz Tverítina, “o projeto da Rospechat ‘Ocupe-se com Leitura’ era dirigido diretamente a adolescentes, e os grandes escritores clássicos russos como Tolstói, Tchekhov e Púchkin figuraram em cartazes vestindo roupas esportivas e cantando músicas em estilo rap com seus pares Nikolai Gógol e Fiódor Dostoévski" (sic). Provavelmente, Gógol e Dostoiévski devem estar de cara feia dentro do ataúde, mas não porque estão cantando rap e, sim, por causa da baixa popularidade que andam tendo entre os adolescentes russos. Onde já se viu trocar Gógol pelo Facebook? Curtiu a frase?

Reportagem policial

A campanha é de uma criatividade sem limites. Lê: “Ambientalistas alertam: programadores ameaçam bosque intacto”; “Homem atira em amigo por causa de cantada”; “Esposa de alto funcionário se suicida após briga com amante”; “Zelador se revela cruel caçador de cachorros”. Manchetes como essas, em 2013, surgiam nos sites russos de notícias, e, ao ler cada reportagem, o internauta se deparava com temas da literatura clássica russa: O jardim das cerejeiras, de AntonTchekhov; Evguêni Onéguin, de Aleksandr Puchkin, Anna Karenina, de Lev Tostói; Mumu, de Ivan Turguênev. “Mas os leitores que não sacaram a brincadeira”, diz Tverítina, “não ficaram de lado, e puderam acessar e baixar as obras originais por meio de links nos textos”. E você acha que, mesmo assim, os russos baixaram os livros?

Em 2008, a editora Slova za knigu (Palavra por livro) espalhou cartazes com escritores russos explicando por que ler é importante. Já a editora Eksmo pôs artistas, jogadores e treinadores para versar, também, sobre o mesmo assunto. Há encontros com escritores em parques, como o lendário Parque Górki (lembra do filme?), publicidade nos metrôs com fragmentos de obras literárias, biografias de autores, ilustrações e reproduções com a grafia original dos escritores e poetas. Nos parques, quiosques “Módulos Gógol” vendem livros pelo menor preço possível. Legal, né? Pena que, infelizmente, o que fica para trás é a leitura dos livros. 

Incrível imaginar que, em uma época em que a informação circula com tanta liberdade, os leitores russos, e não apenas eles, estão longe dos livros para ficar, preguiçosamente, cochilando na rede.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor de Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

 

 

 

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • a telegram from the future

08/02/2014