)Sarau(

O homem que desistiu de perguntar /

André Carretoni

— Onde ele estará?

— Quem?

— Ora quem... Ele!

— Shhh... Que isso?! Tá maluco?!

— Covarde!

— Não é uma questão de covardia, é uma questão de respeito!

— Respeito?! Respeito pelo quê?

— Ora... Respeito! Respeito por... por... Sei lá! Respeito!

— Então a covardia mudou de nome.

— Quem é covarde aqui?

— Eu!

— Não seja irônico!

— Vai me dizer que você não está com medo?

— Medo?! Não... Eu apenas acho que a gente não tem de fazer certas perguntas.

— Por quê?

— Porque está tudo bem assim! Porque certas perguntas não deveriam nem mesmo existir.

— Covarde!

— Eu não sou covarde!

— Então por que você não se questiona também?!

— Porque eu sou feliz assim! Porque eu não quero esquentar a cabeça!

— Meu amigo, existe uma grande diferença entre alcançar a felicidade e aceitar as coisas.

— E quem é que disse que eu não posso ser feliz assim?

— Porque você aceitou as coisas para ser feliz e não o contrário.

— Quer saber? Deixe-me em paz!

— Oi, oi, oi! Desculpe! Longe de mim querer ser chato. Eu só estava querendo conversar.

— Conversar ou perturbar?

— Bem, aí, os dois. Eu detesto conversas fúteis.

— Você deveria ser preso por causa desses pensamentos anarquistas.

— E quem é que teria o direito de me prender?

— Eu!

— Tudo bem, mas onde estará ele?!

— Shhhh... Assim eu vou me retirar.

— Retire-se, então! Onde estará ele?! Onde será que ele estará?!

— Polícia! Polícia!

— Onde estará ele?! Lalalá... Onde estará ele?!

— Polícia! Droga! Onde está a polícia quando precisamos dela!

— Você estava mesmo chamando a polícia?!

— Claro que estava!

— Covarde!

— EU NÃO SOU COVARDE!

— Então vá chamar a polícia, vá, seu covardolas!

— Olhe! Escute aqui! Eu não sou covarde!

— Não?! Então por que é que você tem tanto medo das minhas perguntas?

— Por quê?! Por quê?! Porque eu estou cansado!

— Cansado de quê?

— Cansado! Cansado de fazer essas perguntas e não obter nenhuma resposta.

— Uma informação nova!

— É isso mesmo! Eu costumava fazer essas mesmas perguntas, até que, um dia, eu cansei. Não existe “ele”, não existe “onde ele estará”! Não existe nada! Pronto! Agora você pode me deixar em paz!

— Puxa...

— Compreende agora por que eu quero que você pare com isso?

— Compreendo... Mas...

— Mas o quê?!

— Mas eu acho que você está enganado.

— Por quê?

— Não é por não pensarmos em algo que esse algo deixa de existir.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance Piedade Moderna e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nove fonte de inspiração.

 

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

 

  • 05 Interrogation

26/01/2014