)Work In Progress(

Sonhos de alta definição /

Renato Alessandro dos Santos

Fim de tarde. O alambrado separa a rua do imenso conjunto de prédios que formam o conglomerado do sensacionalista Jornal do Dia. Converso com alguém que, do lado de fora, parece ver algo se aproximando. Os olhos dele se alargam, e o sujeito se afasta, a princípio lentamente, para em seguida começar a correr. Quando olho na mesma direção que ele, um animal, que meus olhos não conseguem definir muito bem o que é, vem na minha direção. Parece um lagarto do tamanho de um ônibus, apoiado por quatro patas gigantes, mas não é um lagarto. Verdes olhos raivosos e dentes que rasgam com voracidade as pessoas -- que vão ficando esfareladas pelo caminho. Parece uma colheitadeira mutante. Num átimo, ele está perto do prédio e, ao tentar pular o alambrado, me alcança. Logo que pousa as garras em mim, parece perder o interesse em sua vítima, porque mais pessoas o viram e, agora, estão correndo de um lado a outro. Ele mira a cabeça em direção aos gritos, como uma rosa dos ventos, e vai de encontro ao pânico. Não sem antes quebrar uma ou duas costelas minhas. Mas a dor nem é tão grande. Duas costelas não são nada. Começo a perder os sentidos, não sem antes notar que o lagarto para, como se tivesse esquecido alguma coisa, vira a cabeça para mim e co-me-ça-a-cor-rer. Na minha direção.

*

É noite. Estamos na rua. Somos quatro: eu, minha garota e outro casal. Saímos do carro porque as pessoas estão andando diante de nós. Por algum motivo, o trânsito está impedido. Quando dobramos a esquina, o que vejo é tão anormal quanto assustador: a passos miúdos, como se estivesse em câmera lenta, uma criatura gigante caminha. A dez metros do chão, seus olhos revelam que ela parece mais assustada do que todas as pessoas que vão passando ao seu lado. Seus olhos são dois imensos espelhos d'água e o medo parece imperar dentro daqueles lagos. Ela nos vê, como um a um que, agora, corre de lado a outro, como formigas alarmadas de repente por olhos humanos. Parece um bichinho de pelúcia de quase dois andares de altura, um gremlin pré-Mr. Hyde. Ela caminha. Sempre em frente. Como um carro alegórico. Na nossa direção. Mas não conseguimos nos mex…

*

Estou no telhado de minha casa. Ela está diferente. Parece uma laje de vista paradisíaca no Rio. Sem mais nem menos, noto que há cabos de aço que se estendem em direção ao céu. Atrás de mim, em outra casa, outro cabo é montado e vejo que meu vizinho está se preparando para escalar o céu triste de azul. Os olhos nunca conseguem chegar ao fim do cabo. Onde eles estão presos? A impressão é que estão ligados às nuvens, como âncoras. O cabo da laje de minha casa tem um sujeito igual a mim pendurado nele.

Ilustração de HELTON SOUTO

RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor do Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook:Renato dos Santos Santos.

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 01. human behaviour

  • Sonhos de alta definição

12/01/2014