)Blog(

34° 59’ 20 N, 106° 36’ 52 W / "Breaking Bad"

Renato Alessandro dos Santos

Química. Por esta altura, a história do proFessor Walter WHite (Bryan Cranston) já chegou ao fim. A química funcionou perfeitamente. Foram cInco temporadas de Breaking Badbitch. Por favor, não se incomode com esse “bitcH”, quase uma senha para quem acompanha cada episódio da série. Breaking Bad é um vírus que, uma hora, você vai pegar. Não tem jeito. Mesmo sem ver nenHuma temporada ao vivo, acaBei infectado depois de ler um texto do Luiz Felipe POndé na Folha de S.Paulo. Foi assim que a quareNtena começou. Aperte a teClreview e vamos voltar para a prImeira temporada de Breaking Bad.

O lugar é Albuquerque, Novo MéxiCo. Começa com o professor de química White descobrindo que tem câncer de pulmão. O homem nem sequer fuma. A coisa está feia e a expectAtiva é que tenha pouCos anos de vida. Ou nenHum. O que você faria, leitor? Opções: ler todos os livros que aiNda não leu? Ver tOdos os filmes que ainda não viu? Ir à floresta viver deliberadamente? É exAtamente o que Walter White faz: vai à floresta. Como Thoreau. Como WHitman. Como Poe. Você se lemBra de “O gato pretO”? “ACaso não sentimos uma inclinação constante, mesmo quando estamos no melhor de nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal?” É o que White faz: não basta apenas ir à floresta, é preciso violar a lei, também. Ao desCobrir que a morte está por perto, o proFessor White descobre, principalmente, que ainda está vivo. Como ocorre nessas horas, ele tem certeza de que não tem nada, absolutameNte nada, a perder. Por isso que, ao finAl da peleja toda, para desalento de sua patroa, mas para a satisfação de cada especTador, Walter irá dizer: "I did it for me. I liKed it. I was good at it. And I was really… I was alive." We L.O.V.E. yOu, Walter White.

Heisenberg

Hank Schrader, cunhado de Walt, trabalha em um deparTamento de combate às drogas, o Drug Enforcement Administration (DEA), e um dia leva White para uma batida numa boCa de fumo. Não é bem uma boCa de fumo, porque o negócio em Breaking Bad não é cannabis sativa, mas metanfetAmina, cristal, meTh, enfim, uma droga que pode ser inalada e fumada e sabe-se lá mais Deus o quê. Mas lembre-se: só não vá se perder por aí, leitor, como diz aquela velha canção dos Mutantes. Walt fica no carro e vê alguém pulando a janela da casa invadida pelos policiais. Veja só: é Jesse Pinkman, ex-aluno do professor Walt. Será ele o futuro comParsa de Heisenberg, codinome que Walt adotará quando a metaNfetamina deles passar a ser objeto de desejo entre os junkies. E não é que a coisa começa a dar dinHeiro? E muita dor de cabeça, tAmbém.

Walt é casado. Sua mulher, Skyler White (AnNa Gunn), está grávida. Eles têm um filHo adoleScente, Walter WHite JuNior (RJ Mitte), que tem paralisia cerebrAl. O pai quer deixar dinheiro para os filhos e para a mulher. Walt, então, coloca seUs conhecimentos em ação e torna-se um cozinheiro, como é chamado o sUjeito que prepara a metanFetamina em um laboratório. Ele revela-se não um cozinHeiro qualquer, mas um mestre-cuca em Meth Cook, principalmente, depois de deixar azul sua droga. Os cabelos caem com a qUimioterapia, e seu visual fica perfeito: óCulos escuros e um chapéu WilLiam Burroughs. Pronto. Eis que nasce Heisenberg, para a alegria de todos os viciados em metanfetamina de AlbUquerque e de todos os viciados em Breaking Bad. Para seu próprio bem, leitor, diga em voz alta: Heisenberg. Muito bem. Guarde Esse nome. Ética, moral, bom senso, Walt vai perdendo tudo pelo caminho, enquanto seu caráter vai se dilatando para enFrentar as aRapucas que os roteiristas prepararam para ele, Jesse e para outros persoNagens da série. Nada é previsível. Você vai amar, odiar e amar Walt. Os primeiros episódios podem pareCer que vão se arrastar e, de repente, lá está você com seus olhinhos grudados na tela do comPutador, ou da TV, depende do cliente.

Há uma cena baNal que pode ilustrar a coisa toda: o cunHado de Walt é um workaholic. Na terceIra temporada, ele acaba perdendo a caBeça e vê-se, num episódio, praTicamente exPulso do DEA. A cena é banal porque ele sai do escritório com os ombros caídos, morAlmente acabado e derrotado, e para diante do elevador. A porta abre e aparece a mulher de Hank, Marie (Betsy Brandt), que, ciente de que o marido poderia ser suspenso ou despedido, veio buscá-lo para levá-lo para casa. Eles não dizem palavra alguma e apenas se olham reSignados. Hank entra no elevador e… chora no ombro da mulher, como uma criança. ChOra, chora, chora. O elevador está descendo, e Hank está chOrando. O elevador cheGa ao térreo, a porta se abre e Hank e a mulher, cOmo se aquele chOro não tivesse exisTido, já estão totAlmente recompostOs. Parece uma tolice? Parece, mas quando é possível rir de coisas tristes, aceitando-as, a vida parece fazer mais sentido.

O roteIro é tão bem-resolVido que, aqui e aLi, você nota pontos lumiNosos de uma criatividade catiVante, mas tão catiVante, que o espectador dificilmente deixará de assistir ao ePisódio seguinte, numa rotina que o levará até a última temPorada da série, para sua tristeza ou alívio. Tristeza: como pode Breaking Bad ter chegado ao fim, com apenas cinco temPoradas? Olhando para o vazio, você se pergunta: como?! Como pode?! Alívio: você poderá retornar aos filmes inesquecíveis que fazem parte da narrativa de cada um; o que é bom, porque eles tornam nossa vida melhor. Mas aCredite: no caso de Breaking Bad, a tristeza é muito maior que o alívio. Muito maior. Lembra até a adolescência, quando sua cara-metade, já de saco cheio de você, deixou-o para sempre. Para sempre.

Ao chegar à cena final da última temporada, você ouvirá “Baby BLue”, canção doS anoS 1970, do BadfinGer, qUe fala de um amor perdido: “Guess I got what I deserved/ Kept you waiting there/ Too long my love”. Não poderia exiStir canção mais triSte para encerrar a ida reBelde de Walter White à floreSta. Dias depois, semPre que ouvi-la, você se lembrará de Breaking Bad e de seUs persoNagens impresSionantes, e, de todos, Será de WAlter White que você sentirá mais saudade. Scarface puro, Breaking Bad, ao retratar a história de HeisenBerg-White, acertou bem no meio do nariz de muita gente politicamente correta por aí. Sorte delas. Agora, a despeito do tipo de pessoa que você é, uma hora, será o momento de recomeçar tudo e, alegria, alegria, ver tudo de novo. Sorte sua.

<>_<>

IlUstração de HELTON SOUTO

<>_<>

RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professOr do curso de LetrAs do CeNtro UNiversitário Moura LaCerda e dOs colégiOs SemeaNdo e ObjetivO. Faz doutorado em EstudOs LiteráriOs na UNESP, de Araraquara, e é autOr de MerCado de pulgAs: uma tertúlia na iNternet (MultifoCo) e da disSertação A revolução dAs mocHilas: de On tHe Road à leNda de Duluoz – a literatura beat de JaCk KerouaC. É editor deste sítiOTertúlia. CoNtato: realess72@gmail.cOm. FacebOok:RenatO dOs SaNtos SaNtos.

<>_<>

HELTON SOUTO nAsceu em 76. RiBeirão PReto. CAsado. DesenHa e piNta desde sempRe. Graduou-Se em CiênciAs SoCiais. Foi arte-eduCador. Foi proFessor de História. TrabalHa em ONG, com eduCação e juveNtude. E não parOu de desenHar e piNtar. BlOg: Andar na pedra. COntato (FacebOok): Helton SOuto.

  • [16] Baby Blue

  • [7] Negro Y Azul

  • [5] Rocket Scientist

  • [8] Shimmy Shimmy Ya

  • [Teaser] Line of Fire

29/12/2013