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Robert Frost no âmago do modernismo americano / Poesia; poesia moderna; Robert Frost;

Alex Rios

“Never again would birds’ song be the same”, “Stopping by woods on a snowy evening”, “The road not taken”, esses, entre tantos outros, são alguns dos preciosos poemas do escritor americano Robert Frost (1874-1963). Mesmo tendo nascido nos Estados Unidos, Frost teve seu primeiro livro de poemas, A boy’s will, publicado na Inglaterra, somente em 1913, pouco tempo após ter deixado os EUA com a sua família.

A boy’s will (disponível no Projeto Gutenberg) recebeu críticas positivas; uma em especial foi escrita por nada mais nada menos que Ezra Pound, na edição inglesa do livro de 1913. Em sua crítica, Pound disse que “esse homem [Frost] tem o bom senso de falar naturalmente e de dar cores a objetos, o objeto como ele o vê” (“This man has the good sense to speak naturally and to paint the thing, the thing as he sees it.” – Poetry Foundation).

 

Wind and window flower

Lovers, forget your love,

And list to the love of these,

She a window flower,

And he a winter breeze.

 

When the frosty window veil

Was melted down at noon,

And the caged yellow bird

Hung over her in tune,

 

He marked her though the pane,

He could not help but mark,

And only passed her by

To come again at dark.

 

He was a winter wind,

Concerned with ice and snow,

Dead weeds and unmated birds,

And little of love could know.

 

But he signed upon the sill,

He gave the sash a shake,

As witness all within

Who lay that night awake.

 

Perchange he half prevailed

To win her for the flight

From the firelight looking-glass

And warm stove-window light.

 

But the flower leaned aside

And thought of naught to say,

And morning found the breeze

A hundred miles away.

(FROST, 1913)

Desde o princípio, Frost adotou uma linguagem voltada aos símbolos do ambiente rural — o próprio escritor foi também fazendeiro durante aproximadamente dez anos de sua vida, em New England, EUA. Como pode ser visto no poema “Wind and Window Flower”, imagens sobre a fugacidade de momentos únicos da vida, ou sobre a solidão e a saudade que esses momentos deixam no homem, estão presentes na história breve, porém intensa, de uma flor que repousa à janela e se encontra com uma brisa de inverno.

Com o uso dessas imagens, Frost traduz o sentimento de solidão, nostalgia e complexidade da vida do homem. Para o poeta, seus insights iniciam-se como “algo preso em sua garganta” (The poetry foundation) e vão além: ele nunca considerou seus poemas como obras completas, aspecto que reflete a influência romântica em sua carreira. Por outro lado, o objetivismo foi sempre marcante e colocou Frost entre os grandes poetas do modernismo americano. Mesmo utilizando recursos tradicionais da poesia, como a rima e a metrificação, abolidas por poetas contemporâneos do século XX, Frost criou algo novo e marcante com base em tais formas da poesia.

“Um extraordinário fenômeno americano: um grande poeta que foi imensamente popular”, disse o crítico Harold Bloom em The Best Poems of the English Language, de 2004. A popularidade do poeta sempre esteve tão em alta que, em 1961, o presidente Kennedy concedeu a Frost a honra de recitar um de seus poemas na cerimônia de posse de seu mandato. O poema escolhido inicialmente pelo autor foi “Dedication”, contudo “The gift outright”, originalmente escolhido pelo presidente, é que foi declamado, uma vez que, neste poema, pode ser visto o saudosismo à pátria americana por sua luta à independência.

The gift outright

The land was ours before we were the land’s.

She was our land more than a hundred years

Before we were her people. She was ours

In Massachusetts, in Virginia,

But we were England’s, still colonials,

Possessing what we still were unpossessed by,

Possessed by what we now no more possessed.

Something we were withholding made us weak

Until we found out that it was ourselves

We were withholding from our land of living,

And forthwith found salvation in surrender.

Such as we were we gave ourselves outright

(The deed of gift was many deeds of war)

To the land vaguely realizing westward,

But still unstoried, artless, unenhanced,

Such as she was, such as she would become.

Há muito a ser comentado a respeito de Robert Frost, homem que sofreu muito ao longo da vida pela perda da mulher e dos filhos, mas que soube inserir em memoráveis poemas a complexidade da vida num mundo repleto de dúvidas, escolhas e caminhos, como nos comemorados “The road not taken” e “Stopped by woods in a snowy evening”. Não deixe de ouvi-los, na voz do próprio poeta, aqui e aquiTraduções dos poemas de Frost para o português ainda não são tão simples de serem encontradas, contudo, logo a seguir encontra-se a tradução de Dirlen Loyolla para o poema “Stopped by Woods in a Snowy Evening:

The road not taken

Two roads diverged in a yellow wood,

And sorry I could not travel both

And be one traveler, long I stood

And looked down one as far as I could

To where it bent in the undergrowth;

 

Then took the other, as just as fair,

And having perhaps the better claim,

Because it was grassy and wanted wear;

Though as for that the passing there

Had worn them really about the same,

 

And both that morning equally lay

In leaves no step had trodden black.

Oh, I kept the first for another day!

Yet knowing how way leads on to way,

I doubted if I should ever come back.

 

I shall be telling this with a sigh

Somewhere ages and ages hence:

Two roads diverged in a wood, and I—

I took the one less traveled by,

And that has made all the difference.

(FROST, 1916)

(Veja também aqui: https://www.youtube.com/watch?v=KUaQgRiJukA)

Stopped by woods in a snowy evening

Whose woods these are I think I know.   

His house is in the village though;   

He will not see me stopping here   

To watch his woods fill up with snow.   

 

My little horse must think it queer   

To stop without a farmhouse near   

Between the woods and frozen lake   

The darkest evening of the year.   

 

He gives his harness bells a shake   

To ask if there is some mistake.   

The only other sound’s the sweep   

Of easy wind and downy flake.   

 

The woods are lovely, dark and deep.   

But I have promises to keep,   

And miles to go before I sleep,   

And miles to go before I sleep.

(FROST, 1923)

 

À beira da mata numa noite de inverno

Sei quem é o dono dessa mata, por certo

Mora na cidade e não aqui por perto;

Não terá então como me ver neste lugar

A olhar seu bosque totalmente coberto.

 

O meu cavalo começa a estranhar

Assim, parado, no meio do mato ficar

Entre as árvores nevadas e o lago gelado

Na noite mais densa do ano a findar.

 

Ele chacoalha os sinos dos arreios, agitado

Como se a mim perguntasse se há algo errado.

O outro único som que conseguimos ouvir

É o dos flocos caindo e do vento soprado.

 

O bosque é imenso, adorável, treva a sorrir.

Mas ainda tenho promessas a cumprir,

E muito chão para correr antes de dormir,

E muito chão para correr antes de dormir

(Tradução de Dirlen Loyolla)

PARA SABER MAIS:

THE POETRY FOUNDATION. Robert Frost.

BLOOM, H. The best poems of the English language: from Chaucer through Frost. New York: 2004. ISBN 0-06-054041-9

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A ilustração de HELTON SOUTO faz parte de seu livro de artista Observatório. 

A autoria das duas últimas fotos é de ALEX RIOS.

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ALEX RIOS é chato, cabeçudo, gordinho e baixinho, adjetivos incontestáveis. Lê poesia – mas isso não significa que a entende. É formado em Letras pela UNESP Araraquara. É professor de inglês, mas trabalha também. Atualmente é guitarrista, mas um dia já foi baixista, tecladista, flautista, gaitista, ciclista, mas na verdade queria ser surfista, ensaísta, artista, marxista, sofista e jogador de futebol. Contato: alexsrios@gmail.com. No Facebook: Alex Rios.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 02 Neal

29/12/2013