)Contos(

A fábula do buraco /

André Carretoni

O escritor encostou sua caneta na folha em branco. Decidiu, por fim, escrever a história de um amigo, de um amigo a quem não via havia muito tempo. Ele, então, começou assim:

Era triste ver um antigo companheiro naquela posição engraçada, agachado e sujo de terra. Ver que, depois de tudo o que haviam vivido juntos, ele agora se resumia àquilo: um louco a cavar um buraco com suas próprias mãos.

Começara aquele espetáculo havia três dias. Informou o empregado da quitanda, e, por causa do tipo de terreno que era, por causa da chuva que havia caído durante a noite, ele havia avançando ainda muito pouco.

Carlos, cuja presença não fora notada, sentiu um sentimento de culpa pelo que estava acontecendo.

Ah, meu irmão. Por que eu lhe abandonei à sua própria sorte?!

E, pela amizade que continuava sentindo, pela memória de tantos bons momentos, ele resolveu tentar ajudar o amigo. Se existisse alguém capaz de trazer-lhe de volta à realidade, mesmo a custo dessa mesma amizade, esse alguém seria ele.

Amigo!

Carlos! Quanto tempo!

Então?! Você está querendo chegar ao Japão?!

Que isso, meu irmão?! Você está pensando que eu fiquei louco?! Todo mundo sabe que o interior da Terra é cheio de magma e que, se eu fizesse isso, eu iria queimar-me! Eu estou indo mais é para a Itália! Primeiro, eu vou cavar para baixo e, depois, quando as coisas começarem a aquecer, eu vou mudar de direção e ir direto para a Europa, cruzando por debaixo de todo o oceano Atlântico.

Alguém bateu na porta do escritório e interrompeu seus pensamentos.

Entre! disse o escritor.

Era sua esposa. Viera avisá-lo que o jantar estava pronto.

Meu anjo, eu já vou. Deixe-me apenas terminar um pensamento.

E, com a compreensão típica daqueles que amam um artista, ela sorriu e retirou-se.

Onde eu estava? murmurou Ah, sim...

Para a Itália?!

Exatamente, caríssimo! Algum problema?

Amigo, chegue aqui.

Ele subiu até à beirada do buraco e sentou-se ao lado de Carlos. Não faria mal algum se ele fizesse uma pausa.

Diga lá.

Isso é impossível, rapaz! Você nunca conseguirá realizar tal projeto! Mesmo que você nunca parasse de cavar, você morreria antes de ter alcançado sequer um quilômetro! E você nem está usando uma pá, por Deus! Venha comigo e esqueça isso! Vamos dar um pulo até minha casa, você irá tomar um banho, a gente irá achar um rumo pra sua vida e pronto! Não desperdice a sua existência numa loucura dessas! Eu sei que eu não tenho estado muito presente nos últimos tempos, mas eu prometo que isso não irá acontecer novamente.

Um silêncio profundo formou-se entre eles. Carlos poderia ter suas razões, mas nenhuma amizade é mais forte do que um sonho.

Carlos, eu percebo o que você está tentando fazer por mim e agradeço-lhe do fundo de meu coração, mas, se você me permite, eu vou continuar com a minha tarefa. Obrigado por estar tentando dizer-me o que você pensa ser o melhor para mim, mas o melhor para você não é, necessariamente, o melhor para todas as pessoas. Ele fez uma pequena pausa e continuou Eu sei que esse buraco é uma tarefa difícil, Carlos, mas foi assim que eu encontrei um objetivo para a minha vida.

Você conseguirá ser feliz mesmo sabendo que você não irá à parte alguma?

A felicidade não está numa realização, mas no prazer de poder acordar todas as manhãs e sentir um amor por aquilo que está fazendo. Eu amo esse buraco, Carlos! Ele é minha vida! E não se preocupe! Você nunca será responsável pelas minhas opções!

...

Mas ele continuou a ideia da pá não é de toda má!

O escritor parou de escrever e encostou-se em sua cadeira. Bastava, por enquanto. Poderia ficar ali durante horas, mas não queria deixar que sua esposa jantasse sozinha. Ele, afinal, também a amava.

E pensar que ele, o próprio Carlos, um dia iria morar na sonhada Itália de seu amigo.

Ele levantou-se e deixou sua caneta sobre o seu texto. Saiu do cômodo e portou consigo a sensação que sentia quando encontrava algum texto que lhe inspirasse vontade de continuar.

A noite caiu na pequena vila toscana.

Eram três horas da madrugada quando um rumor passou a ecoar nos aposentos daquela casa. Iniciou como um grilo a distância, soando entre pausas, porém, mais tarde, começou a lembrar o arrastar de um móvel, insistente, com o mesmo ritmo de um pêndulo, para surgir, após mais alguns minutos, o som inconfundível de terra sendo escavada.

TOC. TOC. O som surdo de ferro batendo no piso de madeira daquele escritório teria sido escutado se alguém ainda estivesse acordado.

Quem é que estivesse ali embaixo começou a bater diversas vezes e com mais força com o que seria, talvez, uma caneta, até que, após ceder e ceder, a madeira quebrou e explodiu em mil e uma lascas. CRASH.

Do buraco surgiu uma cabeça suja de terra, mas não tão suja a ponto de esconder o sorriso de sua face.

Seu amigo havia chegado à Itália.

O escritor parou de escrever e encostou-se em sua cadeira. Bastava, por enquanto. Poderia ficar ali durante horas, mas não queria deixar que sua esposa jantasse sozinha. Ele, afinal, também a amava.

E pensar que ele, o próprio Carlos, um dia iria morar na sonhada Itália de seu amigo. Ele levantou-se e deixou sua caneta sobre o seu texto. Saiu do cômodo e portou consigo a sensação que sentia quando encontrava algum texto que lhe inspirasse vontade de continuar.

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Ilustração de VANESSA LIRA

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance Piedade Moderna e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nove fonte de inspiração.

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VANESSA LIRA é artista plástica e utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão. Escreve desde os 10 anos. É mãe de Theo de 2 anos. Esposa, amiga e companheira de Anderson Lira, que lhe cedeu o nome, há quase 8 anos. Trabalha com gestão educacional no terceiro setor. Blog: http://macroolhar.wordpress.com/.

  • 01 Speak to Me-Breathe

  • 02 On the Run

08/12/2013