)Cinema(

Vendaval / "O assalto ao trem pagador"

Renato Alessandro dos Santos

Não queria gastar seu tempo, querid@, fazendo você espremer seus olhinhos para ler este texto sobre O assalto ao trem pagador, filme dirigido por Roberto Farias e que, livremente, reconstrói não só um roubo histórico cometido por um grupo de amigos no interior do Rio de Janeiro, mas também o mais difícil: a tentativa inútil dos assaltantes de guardar o dinheiro, uma vez que devem gastar apenas 10% do que coube a cada um.

Não queria gastar seu tempo, querid@, porque o que queria mesmo era falar de outros filmes que passaram por aqui. Você já viu Blow-up – depois daquele beijo (1966), Era uma vez em Tóquio (1953), A noite dos desesperados (They shoot horses, don’t they?, 1969)? Sem contar Breaking Bad, série que não deixa a gente ver, por dias, nenhuma outra coisa. Hoje, o melhor é esperar que uma série tenha ao menos umas duas temporadas — e Breaking Bad tem cinco! — e, então, você vai lá e a baixa para o seu computador — e a casa não está mais vazia.

Não queria gastar seu tempo, querid@, mas agora já estamos no terceiro parágrafo e talvez seja melhor seguir adiante, não acha? Por que este texto? A culpa é de Grande Otelo. Estava eu imitando Ferris Bueller no chuveiro e, de repente, lembrei de Grande Otelo, bêbado, cantando “Eu quero essa mulher assim mesmo”, que ouvi pela primeira vez não em sua gravação original, com Sabe Lá Deus Quem, mas com Virna Lisi, banda mineira que não existe mais e… cá estamos, nós dois. Grande Otelo, hein? Quem diria? Se você só lembra dele escapulindo pernas abaixo, por ocasião do nascimento de Macunaíma, veja O assalto ao trem pagador não só porque Grande Otelo canta “Eu quero essa mulher assim mesmo”, mas porque estará diante de um grande artista em ação. Em ação. Parece o Grande Otelo de Macunaíma, mas não é não; aqui, ele é Cachaça, um dos assaltantes. Traz uma garrafa de pinga como extensão da mão direita e é um personagem-tipo: o boteco não fecha nunca. Nunca. Aquela vozinha estridente está lá. A figura franzina está lá também. O deboche. A interpretação segura — seja cantando amarrado a um foguete, seja denunciando a vida seca de quem mora em casinhas com o esgoto correndo, a céu aberto, como uma criança descalça e barrigudinha. Não sabia o porquê do apelido Grande Otelo, mas observando a participação do ator, mesmo neste papel secundário no filme de Farias, pude imaginar o porquê. Fui pesquisar e, lendo sobre sua vida, lamentei as tragédias por que passou. Difícil entender por que Deus acabou se zangando com alguém tão cheio de graça e engenho como Grande Otelo. Não é mesmo?

Não queria gastar seu tempo, querid@, mas uma vez que fomos mais longe do que imaginei, por culpa de Grande Otelo, o que acha de seguir adiante sem muitos spoilers que botem tudo a perder? Hein, o que acha? Se ainda estiver aí, saiba que o filme começa muito bem. De tocaia, a quadrilha espera a chegada do trem. Você já viu essa cena em alguns desses filmes de faroeste em que uma quadrilha tenta parar um trem, não é? Pois o início de O assalto ao trem pagador reúne todos esses elementos, jogando com eles a seu favor. O trem é como uma arca de desenho animado cheia de moedinhas douradas que, sobre os trilhos, vai se movendo, com o X dos mapas de tesouro chegando, chegando, chegando cada vez mais perto dos bandidos. Pronto: chegou. Eles forçam o trem a parar, rendem todo mundo e, em seguida, fogem de lá, saltitantes como bolhas de refrigerante: cada um deles está com a vida ganha, por assim dizer. O assalto é muito bem-sucedido. Mas o que fazer para não deixar ninguém perceber que o pessoal está com o pé-de-meia feito? E vem 90% do filme para mostrar o quão difícil é manter um segredo em segredo. Assaltar o trem foi fácil; difícil é gastar só 10% da mesada. Lembra do acordo que há entre eles, querid@? Quem gastar mais do que i$$o pagará com a vida. Nada de concessões ou tapinhas nas costas. Um dos assaltantes é Grilo Peru (Reginaldo Farias): olhos azuis, racista, morador num muquifo no centro da cidade; ele parece esquecer-se do acordo, depois que conhece uma dessas garotas que, por dinheiro, anexam-se a uma pessoa como uma tatuagem, um marca-passo ou um hábito ruim. Por causa dela, Reginaldo Grilo Galante compra um carro, um terno novo e lastima ter de viver a vida barata que tem. A garota, no muquifo de seu Homem de Olhos Azuis, vai ao banheiro e volta de lá com um lampejo a fervilhar a cuca (ainda não existia o Instagram): Amor, não dá pra viver mais aqui! Por que você, que é um cara montado na grana, tem de morar neste pardieiro?! Por quê?! Reginaldo Olhos Azuis, sem conseguir mais ignorar o canto de sereia que o dinheiro vem sussurrando em seus ouvidos, dá razão à moça. Quanto você imagina, querid@, que Reginaldo Blue Eyes irá pagar por isso? Quanto? Enquanto isso, do lado de fora do Batmuquifo, a polícia ainda desconhece o paradeiro dos assaltantes. Denúncias chegam de todo lugar, e como tontas baratinhas os policiais vão pra lá e pra cá, sem nada encontrar. Parabéns, rapazes! Chega a eles a informação de que um sujeito chamado Tião Medonho está a distribuir água e brinquedos à revelia na favela. De graça, onde já se viu...

Não queria gastar seu tempo, querid@, ainda mais sabendo que tempo é dinheiro, e dinheiro é vendaval, mas cá entre nós: você não acha Tião Medonho um ótimo nome para uma banda? Não acha? Não mesmo? Okay. Bem, a polícia vai atrás do Tião, mas invade outro barraco, deixando Tião Medonho & A Quadrilha dos Corações Solitários para lá. Sorte deles. Mas Tião e Reginaldo já não se entendem mais. Então, Reginaldo Sangue Bom tenta botar uma pedra no meio do caminho de Tião e da quadrilha, sugerindo um assalto-armação a uma agência de banco. Mas ninguém cai nessa história, querid@. Uma pergunta: você acha que Reginaldo Paletó Azul pagará o preço de chumbo da sede ao pote? Acha? Por essa altura, a quadrilha tem de lidar com desconfiança, perseguição, insegurança, policiais, mortes, tiros-que-já-cheiram-a-sangue, enfim, todos esses penduricalhos que, em um filme como este, são ingredientes que não podem ficar de fora.

Não queria gastar seu tempo, querid@, mas no final, mesmo sem perceber, acho que descobrimos uma coisa juntos. Você não acha?

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Ilustração de HELTON SOUTO

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RENATO ALESSANDRO DOS SANTOS, 41, é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor do Tertúlia. Contato: realess72@gmail.com. Facebook: Renato dos Santos Santos.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

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01/12/2013