)Contos(

Carta bomba /

André Carretoni

Equiparo meu trabalho com o de desmantelar bombas. Devo aprender tudo sobre nitroglicerina e explosivos plásticos. Tenho de saber qual fio não cortar e não explodo um engenho desde os tempos da Academia, quando tive de fazer uma grande faxina no laboratório.

Ao escrever sobre a alegria, procuro dar direção à prosa, sem me entusiasmar. Não devo pensar pelo leitor, e exagerar nos adjetivos ou nos advérbios pode ser perigoso.

Ao escrever sobre a tristeza, são meus deveres transportar as palavras com atenção e motivo e procurar um desfecho saudável. Tenho outras histórias na cabeça onde tudo explode, mas ainda não chegou o momento de escrevê-las, ou talvez nunca o faça.

Perdi amigos mais incautos e tenho fotos de certos exemplos penduradas na parede. Sei que não é um trabalho sensato. Contudo, pode ser uma profissão digna.

Recordo-me de que tive a minha primeira experiência significativa ainda jovem. Fechei uma redação da escola, que ironia, com uma bomba atômica caindo em cima de mim e, como se tratava de um sonho, com o meu despertar. Recebi um elogio e gostei.

Minha segunda experiência aconteceu algum tempo depois. Outra professora pediu para que nós escrevessemos uma redação sobre o que pensavávamos sobre a instituição onde estudávamos. Ela jurou que seria a única pessoa a ler as redações, e eu acreditei. Descobri dois meses mais tarde que eu estava sendo expulso da escola por ter exagerado nos adjetivos.

Minha terceira experiência aconteceu anos mais tarde. Escrevi uma poesia para meu pai, e ele saiu correndo para mostrá-la aos seus colegas. Na poesia, eu dizia que o amava e pedia-lhe para que parasse de querer morrer. Não adiantou muito, e ele morreu, e eu continuei amando-o. É uma das raras exceções na qual espero não ter economizado nos adjetivos.

Enfim, cada frase que escrevemos deve ser manipulada com o devido respeito, pois todas as palavras têm o poder de marcar de forma definitiva o passado.

Escrevi bilhetes de amor para mulheres que amei mais do que a própria vida, e quase todos esses amores não sobreviveram. Alguns bilhetes sobreviveram mais do que as relações que os originaram.

Tenho relações sobre as quais ainda não escrevi o suficiente e espero ter uma longa vida para poder fazê-lo.

Escrevi cartas para pessoas queridas quando a distância se fez presente, e cada uma dessas cartas ajudou-me a acreditar na alegria do reencontro.

Escrevi bilhetes cheios de mentiras e bobagens e espero que não os tenham guardado.

Escrevi preces na forma de poesia e fui atendido ou confortado.

E, assim, continuarei executando meu trabalho, entre horas alegres e desgraçadas, esperando, quando estas linhas pararem, o momento de cortar o fio do meu epitáfio. Não. Não lhes direi qual é, pois isso seria como contar o final da história. Se eu o conheço? Claro que sim! Eu sou um escritor e já tenho alguma experiência na área. Eu o vi no dia em que eu tive a certeza do título que eu daria ao romance de minha vida.

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Ilustração de HELTON SOUTO

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance Piedade Moderna e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nove fonte de inspiração.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • 04 Zissou's Letter to Ned

17/11/2013