)Contos(

A água da vida /

André Carretoni

— Meu filho — meu pai disse enquanto amarrava a ponta da corda no gargalo de uma garrafa — aqui dentro você encontrará aquilo de que você precisa.

— Eu...

— Deixe-me terminar.

Abaixei o braço e segui seus movimentos, com a esperança de que aquilo fosse alguma brincadeira. Não era.

— Aqui dentro está o antes, o agora e o depois. Aqui dentro está a sua paz.

— Eu... — era impossível resistir. Meus lábios estavam secos.

— Escute.

Meu pai puxou a corda com força, enquanto segurava a garrafa com a outra mão, e ela permaneceu atacada.

— Sei que isto pode estar-lhe parecendo incompreensível, mas confie em mim. Você é a pessoa mais valiosa que eu tenho, e eu apenas desejo o seu bem.

Meu pai levantou-se, e eu dei um passo para trás. Ele era o homem mais alto que eu conhecia. O mais alto e... o mais injusto!

— Mas...

Senti vontade de avançar em sua direção e arrancar a garrafa de suas mãos, de me lançar sobre ele e de gritar. Senti vontade de sair dali correndo, de mudar de nome e de amaldiçoar a vida. Senti até mesmo vontade de puxar a corda de suas mãos e de estraçalhar aquela transparência no chão, esparramando tudo o que eu queria em vão. Se eu não o podia ter naquele momento, não o desejaria mais! Senti vontade de muito, senti vontade de tudo! Contudo, fiz pouco.

Meu pai passou a ponta livre da corda por cima de uma estrela e puxou-a, levantando a garrafa acima de nossas cabeças. Depois, ele amarrou a mesma ponta também no gargalo e deu-me a certeza de que ele havia calculado o mínimo de corda necessário para fazê-lo.

Ele afastou-se, orgulhoso, e sorriu para o pingente. Sentiu que tinha feito um bom trabalho. Ele olhou para mim e também sorriu, mas seu segundo sorriso significava outro sentimento.

Eu olhei para a garrafa pendurada e coloquei-me embaixo dela. A luz da lua tocava-a e criava luzes coloridas por todo o deserto. Eu estiquei o braço e tentei alcançá-la, mas nada consegui. Coloquei-me nas pontas dos pés e tentei de novo alcançá-la, mas ainda não consegui alcançá-la. Olhei para o meu pai e vi que ele não estava mais sorrindo.

Ele começou a afastar-se, mas, antes de sumir, ele ainda sorriu mais uma vez e disse:

— Tudo o que você precisa fazer é esperar. Apenas esperar.

E partiu.

Eu olhei de novo para a garrafa e recuei. O universo pareceu-me grande demais. Muito tempo. Teria de esperar muito tempo. Mas eu iria esperar.

— Eu hei de crescer!

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Ilustração de VANESSA LIRA

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, ANDRÉ CARRETONI cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance Piedade Moderna e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nove fonte de inspiração.

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VANESSA LIRA é artista plástica e utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão. Escreve desde os 10 anos. É mãe de Theo de 2 anos. Esposa, amiga e companheira de Anderson Lira, que lhe cedeu o nome, há quase 8 anos. Trabalha com gestão educacional no terceiro setor. Blog: http://macroolhar.wordpress.com/

  • 06 -Tahquamenon Falls

20/10/2013