)Contos(

Um anjo redentor /

George dos Santos Pacheco

Sirenes ligadas. Homens, mulheres e crianças chorando, gemendo de dor. Um cheiro forte de éter. Em um hospital vê-se o que quer e o que não quer. Se ao menos houvesse muitos médicos para atendê-los... Não, não havia.

Adametropos trabalhava há quase vinte anos como enfermeiro. Muitos pacientes já haviam sido cuidados por ele. Suas mãos precisas efetuaram uma centena de curativos, aplicaram injeções mais ainda. Não era casado, não tinha filhos. Quase uma vida inteira dedicada a pessoas desconhecidas.

Sirenes ligadas, gente chorando... Já estava acostumado com isso. Essa profissão não é para qualquer um. É preciso gostar muito de ajudar as pessoas. E não se importar em ver sangue.

Em alguns dias os corredores ficavam até vazios, mas hoje... Havia macas espalhadas, alguns pacientes que estavam em pé, outros sentados em cadeiras mal conservadas e tomando soro.

Adametropos cuidava de uma senhora, paciente terminal de câncer. Antigamente não se podia falar nem no nome dessa doença. Falavam “aquela doença ruim”. Estava quase gritando de dor. Seu corpo magro se contorcia na cama, desarrumando os lençois que a cobriam. Não havia nenhum parente com ela. Acontece às vezes. Algumas pessoas são abandonadas pela família e isso é muito triste.

– Ah... Está doendo! Meu Deus me ajude! – disse Dona Diva, com os olhos cheios de lágrimas, voltados para o enfermeiro que entrava no quarto agora.

– Calma Dona Diva... – disse ele com sua voz grave. Era chamado de locutor de cabaré por isso.

– Me ajude moço... – disse ela quase sem forças.

– Isso vai deixar a senhora melhor... – disse ele aplicando uma injeção no recepiente de soro. Quase que instantaneamente a mulher foi se aquietando até dormir. Seu rosto ainda estava molhado de lágrimas e Adametropos enxugou-as com as mãos.

Seus olhos marejaram. Era difícil se comover por causa dos pacientes. Na verdade só havia acontecido nos seus primeiros plantões. Talvez fosse porque ela lembrava sua mãe. Ah sua mãe! Que saudade! Havia partido há tanto tempo... Não pôde ajudar. Morreu de repente e ninguém nunca soube o que havia sido. Por isso decidiu ser enfermeiro. Precisava ajudar os outros. Enquanto trocava de roupa pensava em como ajudaria mais pessoas, fora de seus plantões.

Foi para casa, tomou um banho e deitou-se um bocado; estava exausto. Quando acordou eram quase três horas da tarde. Levantou, lavou o rosto e comeu alguma coisa, assistindo a televisão.

“Em pesquisa recentemente divulgada pelo governo, houve um aumento de 30% da população de rua...” – disse o jornalista. Sim! Os mendigos precisavam de ajuda. Aliás, já havia atendido a muitos no hospital.

Levou o prato até a pia e começou a destampar as panelas. Arrumou alguns pratos, tapando com outros e amarrando-os com panos de prato. Foi ter com os mendigos. Lembrava que perto do hospital tinha visto alguns. A pesquisa do governo estava certa. Devia haver umas duas famílias inteiras por lá e muitas crianças. O que trouxe a eles provavelmente não iria dar. Mas os mendigos dividiram tudo e quase sobrou. Emocionou-se novamente. Talvez fosse a primeira refeição deles e comeram como se fosse a última. Voltaria lá mais tarde.

No outro dia, ao chegar ao hospital recebeu a notícia. Dona Diva tinha partido, ainda pela manhã de ontem. Era apenas mais uma. Trocou de roupa e foi passando no leito de cada um. No setor de queimados, havia uns dez pacientes. Atendeu primeiro à Paloma, uma menininha de cinco anos. Sua mãe estava aquecendo o leite no fogão e deixou distraidamente a alça do canecão voltada para fora. A menina puxou-o derramando a bebida no rosto e no peito. Estava praticamente desfigurada.

– Bom dia Palominha... – disse ele se aproximando.

– Bom dia Sr. Tropis! – disse ela, que sorria, mesmo na dor.

– Então, como é que foi a noite?

– Eu senti um pouco de frio. Mas aí minha mãe me cobriu e eu suei muito. – disse a menina arregalando um dos olhos. O outro tinha a pele retorcida pela queimadura. A mãe estava sentada ao lado tentando segurar o choro, para que a menina não visse. Não pôde, e saiu para chorar no corredor.

– Vou te dar um remédio para você melhorar, está bem? – disse o locutor de cabaré.

– Cadê mamãe? – perguntou a menina voltando-se para a porta.

– Deve ter ido ao banheiro... – disse ele com jeito.

Deu o remédio à menina e partiu para os outros pacientes. Saiu dali e foi para a ortopedia. Também estava lotado. Ali havia acidentes de todos os tipos. Um homem havia caído da laje. Três mulheres haviam sido atropeladas no ponto de ônibus. Um rapaz havia batido de carro e tinha sorte de estar ali. Sua namorada estava sem o cinto de segurança e na pancada tinha sido arremessada pelo para-brisa dianteiro, indo parar a uns cinco metros do sinistro. Ele talvez ficasse paraplégico.

– Hei Adametropos! – Teu time é muito ruim mesmo, hein? – disse Sr. Carlinhos, um senhor de uns setenta anos. Tinha quebrado a bacia quando escorregou no banheiro de casa. Viúvo, morava com o filho.

– Ruim é o seu! – redarguiu o enfermeiro.

– Esse ano vou ter o prazer de ver o Vasco cair para a segunda divisão! – disse o velho com um radinho de pilha sobre o colo.

– E o seu está muito bem, não é? – disse ele trocando o soro do velho.

– O Fluminense? Eu nem vejo vocês pelo retrovisor! Por que é que você não fica em casa todo dia? Assim você evita as chacotas e eu sou cuidado só por aquela enfermeira gostosa que estava aqui ontem...

– A Neide? Da fruta que o senhor gosta ela come até o caroço! – disse ele atendendo outros pacientes.

– Isso é porque ela não me conheceu ainda. Deixa comigo que eu dou um jeito nela!

E foi assim por todo o dia. Alguns choravam, outros faziam piada. Nada demais até as duas da madrugada. Chegou um rapaz que havia batido de moto. Estava todo ensanguentado, dando golfadas de sangue. No lugar da perna direita tinha um monte de carne retorcida com alguns cacos de osso. Foi direto para o CTI, mas já era tarde, seu coração estava parado. Já estava quase amanhecendo, mas de lá não se podia ouvir o canto dos pássaros. Só gemidos e lágrimas.

Outro plantão exaustivo. Saiu do hospital e foi à padaria do outro lado da rua fazer seu desjejum. Alguns enfermeiros e parentes de internados faziam suas refeições ali, e levavam guloseimas escondidas para os pacientes. Adametropos adoçava seu café com leite, enquanto os outros prestavam atenção no noticiário. O jornalista anunciava em tom austero informações sobre uma chacina.

“A polícia ainda investiga a chacina ocorrida na madrugada de segunda-feira em uma das ruas do centro da cidade. Foram dezoito mortos, entre homens, mulheres e crianças. Uma mulher, que não quis ser identificada, disse que foram muitos disparos de arma de fogo, por volta de uma hora da manhã. Ouviu muitos passos, mas não soube se eram dos assassinos ou dos mendigos que corriam desesperados.”

– Que absurdo! – disse a moça que limpava o balcão.

– Fiquei sabendo que foi aqui pertinho... – disse um cliente.

– Que Deus tenha piedade dessas almas... – disse Adametropos com lágrimas nos olhos. Estava sensível a este tipo de coisas nos últimos tempos.

A conversa ali na padaria girou em torno deste assunto. As mortes, a insegurança da população. Os hospitais lotados, a falta de preocupação do governo com o básico: saúde, segurança, educação. A sociedade estava à beira do caos.

O enfermeiro Adametropos saiu da padaria e caminhou até o ponto de ônibus. A rua onde aconteceu a chacina ficava no meio do caminho. Passou em frente a ela e ficou olhando na direção da entrada do beco. Havia marcas de tiro nas paredes. A imagem das pessoas correndo lhe veio à cabeça. Lembrou-se de quando se fartavam com a comida que trazia. Aquela havia sido a última refeição deles mesmo...

Chegou à porta de casa, tirou os sapatos, batendo um no outro para tirar a poeira. Entrou, abriu a camisa e foi pegar uma cerveja. Era um dia quente. Foi para a sala e ligou a televisão. Sentou-se no sofá, esticou os pés na mesa de centro e degustou a bebida. Deixou escorrer algumas gotas pelo queixo, que foram pingar em seu peito, cheio de cabelos brancos. Estava ficando velho.

Todos os canais falavam sobre o acontecido. Não adiantava mudar. No meio de programas de culinária abriam um espaço só para falar do assunto. Eles não demorariam a encontrar o culpado, ele sabia.

Em um dos canais, falavam sobre o hospital em que ele trabalhava.

O Hospital Nossa Senhora das Dores está sendo investigado por causa de uma série de mortes. Muitos pacientes morreram mesmo tendo uma melhora anterior. A senhora Mariluce Tavares, mãe de uma paciente, diz que sua filha estava bem, mas começou a se sentir mal depois de ter ingerido um comprimido, dado por um enfermeiro. – Eu tive que sair, por estar me sentido mal e, quando voltei, o enfermeiro tinha medicado minha filha. Ela teve um pouco de febre na noite anterior, mas não era nada demais. Em algumas horas ela morreu. Foi horrível. Nada vai trazer minha filha de volta! – disse a mulher aos prantos. A polícia investiga o envolvimento do enfermeiro nas mortes...

Ouviu o som de pisadas fortes na entrada de sua casa. Bateram à porta com força. Eram eles.

– Adametropos Ribeiro! Abra a porta! É a polícia! – gritaram. Haviam-no encontrado.

Adametropos estava farto de tanta aflição, tanta dor. Não resistiu a anos assistindo aquilo como coadjuvante. Embora curassem alguns, outros chegavam, com os mesmos sintomas, as mesmas doenças. O mundo era uma fábrica de doentes, acidentados, famintos e desesperados em linha de produção. Não, ele precisava fazer algo. E fez. Salvou dezenas de almas de tanto sofrimento, tanta angústia. Para onde foram, não terão fome, nem sede, nem dor. Uma terra onde corre leite e mel.

Os policiais chutaram a porta com mais força. Adametropos pegou o revólver que estava sobre a mesinha do centro, tomou um último gole de sua cerveja e abriu a boca, pondo o revólver dentro dela. Apertou o gatilho no momento em que conseguiram arrombar a porta. Encontraram o corpo caído sobre o sofá, com o sangue escorrendo e ensopando sua roupa branca.

Mas vejam só: nem todos que vestem branco são anjos...

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Ilustração de FABIANA SHIZUE 

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GEORGE DOS SANTOS PACHECO nasceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 1981. Publicou O fantasma do Mare Dei (Multifoco) e participou da coletânea Assassinos S/A Vol. II (Multifoco) e do e-book Contos Sombrios de Natal (Fórum Câmara dos Tormentos). Tem conto seu publicado na Revista Marítima Brasileira. Obteve menção especial no VI Concurso de Trovas do Grêmio Português de Nova Friburgo, com tema lírico-filosófico. Faz pedagogia e é blogueiro e mestre cuca nas horas vagas. Publica textos na Revista Pacheco, no site A Irmandade e, agora, no site Tertúlia, dentre outros. Em 2013 publicou seus livros O fantasma do Mare Dei e Sete - Contos Capitais pela plataforma de autoedição do Grupo Saraiva. Publique-se! No Facebook: Revista Pacheco.

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FABIANA SHIZUE nasceu em São Paulo, em 1977. O desenho e as artes manuais sempre fizeram parte do seu dia-a-dia. Formou-se em Design Gráfico, pela faculdade de Belas Artes de São Paulo. Antes de terminar a graduação, escolheu trabalhar exclusivamente com ilustração. Atualmente, trabalha com diversas mídias, como livros, catálogos, revistas, sites, coleções de cadernos e estampas. De 2006 até 2009, morou na Europa, entre Torino, Itália e Lins, Áustria. Foi neste período que começou a se dedicar mais aos desenhos manuais, que não têm esboços iniciais e surgem, de um detalhe ou de uma textura, para se desenvolver e fluir naturalmente. Trabalha como freelancer e adora ilustrar livros. Diverte-se desenhando em seu bloco de rascunho, fotografando e cultivando brotinhos e plantinhas aos montes (agora que elas não morrem mais). Site: fshizue.com. Facebook: Fabiana Shizue.

 
  • 08 - Fallen Angel

13/10/2013