)Sarau(

Maquinomem Feliz /

Paulino Júnior

Tenho um amigo que trabalha numa grande rede de fast food. Não vou falar qual porque pode comprometê-lo, mas tenho certeza de que você já deve ter ido. Sabe uma coisa legal que meu amigo me falou? Que a maior preocupação desta rede de fast food é manter o mesmo gosto em qualquer parte do mundo.

Ele assistiu uma videoaula para os funcionários em que um senhor todo alinhado explicava que isso tinha a ver com globalização, porque o consumidor deseja continuar sendo o mesmo e comer o de sempre, independente do lugar.

Meu amigo ficou impressionado. Esse senhor talvez tivesse uns cinquenta anos e tinha chegado ao cargo de executivo começando como atendente. Tudo indicava que a sua dedicação à empresa havia sido reconhecida, e o principal fato para isso é ser o mesmo funcionário que se encontra em qualquer parte do mundo.

Não era pra eu contar, mas meu amigo me disse que onde ele trabalha a coisa não é bem assim. Quer dizer, até é, mas nem tanto. É que ele me falou que foi uma coincidência assistir a videoaula depois de um acidente que transformou sua vida.

Algumas horas do dia são mais atarefadas, não sei se era a do almoço ou a do começo de noite, só sei que ele estava montando os lanches em um desses períodos e machucou o dedo. Como devia obedecer ao tempo cronometrado em qualquer loja do fast food ao redor do mundo, o sangue que começou a escorrer ia pingando nos ingredientes. Ele tentou estancar com uma rápida e forte chupada, mas não adiantou.

Pela cara que fez, odiou minha risada quando desabafou que seu alívio era saber que as pessoas gostam de comer com bastante ketchup.

Também fiquei sabendo que o trainee de gerente presenciou tudo, de pescoço esticado e olhos arregalados. Depois de conferir que os pingos de sangue não dariam na vista, só fez a advertência para que a luvinha de látex fosse trocada tão logo houvesse um intervalo.                 

Ao final do expediente, meu amigo fumava um cigarro no ponto de ônibus e começou a pressentir que um forte desejo se criava dentro dele.

No dia seguinte, escondido, rasgou a luva no mesmo lugar e cutucou o machucado. Todo o trabalho foi feito com um sorriso de satisfação, sem chance para que o trainee de gerente notasse o que acontecia. Diferente da vez passada, em que não conseguiu conter o resmungo de dor e a expressão temerosa em ser seriamente advertido.       

Meu amigo começou a se satisfazer incluindo a si na comida. A tentação em combinar os novos ingredientes com os tradicionais fez com que desenvolvesse uma capacidade que ultrapassava os limites humanos. E o notável foi que seu tempo passou a ser abaixo da marca estipulada pela rede em todo o mundo. 

Ganhou o apelido de Maquinomem, e recebia elogios e olhares de admiração dos que estavam acima e abaixo dele na hierarquia da empresa. Logo foi eleito Destaque do mês – e só não foi vezes seguidas por sacanagem dos que estavam acima e abaixo dele na hierarquia da empresa. 

Seu prazer aumentava, e o seu desempenho chamava tanto a atenção que saiu como exemplo em uma videoaula que a empresa produziu para circulação mundial. E isso mesmo contra muitos que não queriam que seus feitos aparecessem.

Eu percebia e comentava sua felicidade. Na época, só me disse que seu lema era uma frase que tinha lido numa revista de empregos e negócios – algo mais ou menos como Faz bem aquele que gosta do que faz –, e que estava motivado pelo plano de carreira que a empresa oferecia.

Faz pouco tempo que me contou e pediu segredo sobre o progresso de implantar coisas produzidas em seu corpo na comida. Ainda que ele tivesse consciência de que as pessoas comem com tanta vontade que mal se dão conta do que estão jogando para dentro, não queria continuar correndo o risco de incorporar matérias que pudessem se prender entre os dentes do consumidor, colar na língua, ou aparecer de repente na superfície clara do pão. Além do mais, não estava sentindo tanta satisfação quanto sentiu ao integrar o próprio esperma no hambúrguer em comunhão com o queijo cheddar derretido. O que ele conseguiu com muita obstinação, passando o tempo livre se masturbando e enchendo pequenos saquinhos. 

Também houve a intenção de polvilhar os ingredientes tradicionais com caspa, mas é praticamente impossível tirar o boné, que faz parte do uniforme, e esfregar o couro cabeludo sem ser notado.     

Quero deixar algo bem claro sobre meu amigo: ele não fazia isso por maldade. Quero dizer que não era um tipo de vingança ao frequentador do fast food ou revolta contra a própria empresa. Eu sei de histórias que me embrulham o estômago só de lembrar. Sabem a lenda urbana do cliente que reclama do prato e manda voltar para o cozinheiro? É verdade.   Eu já fui garçom e presenciei muitas refeições retornando ao gosto do freguês.  Também já vi outros garçons cuspirem em tulipas de chopp só por não aceitarem a condição de servir o burguesão ou o mauricinho mal-educados que querem se mostrar para as peruas e cocotas que um garçom jamais comeria.   

Não era o seu caso. O meu amigo é uma pessoa muito amigável e consciente de seu lugar. Sem contar que tinha enorme consideração pela empresa, ao ponto até de perder a delicadeza. Uma vez eu presenciei a discussão dele com uns roqueiros de preto e roupa rasgada e uns fulanos que faziam o tipo estudante-universitário-revoltado-de-plantão. Eles carregavam um cartaz com o personagem que é símbolo da empresa colocando crianças num moedor de carne para que do outro lado saísse cifrões. Tinha algo a ver com capitalismo, multinacionais, o caralho...

Ele ficou nervoso e falou que tinha vontade de matar esses “idiotas” que inventam bobagens só pra passar o tempo diferente dos outros da mesma laia. E disse também que esses “maluquinhos” inventam essas merdas porque não precisam pegar no batente. Ele queria ver se fossem como ele, que teve que trabalhar desde cedo para não passar necessidade, e foi a rede de fast food que deu a oportunidade do primeiro emprego com carteira assinada, direitos trabalhistas e a possibilidade de planejar um futuro.      

Isso é verdade! Eu mesmo conheço muitos jovens e mulheres que trabalham em lojas da rede. E já que o diploma de um curso superior permite subir na hierarquia da empresa, meu amigo ficou motivado e fez faculdade de nutrição, pagando a mensalidade com o dinheiro do salário.

Eu tenho certeza que meu amigo vai longe lá dentro. Ainda mais agora que atingiu os maiores índices em excelência pessoal e promessa de operação. Era o que tava escrito embaixo da sua foto no site da empresa, com a informação de que esses índices são estabelecidos pela rede em toda parte do mundo.

Tenho orgulho de ser amigo dele, e não posso ficar sem dizer que ele conseguiu ocupar um cargo importante que era de um rapaz que deixou de alcançar as metas da empresa. Meu amigo agora está sendo cotado para receber o prêmio nacional como gerente de restaurante do fast food. Legal, né?

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Ilustração de HELTON SOUTO

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PAULINO JÚNIOR é ficcionista. Graduou-se em Letras e concluiu mestrado em Teoria Literária pela UNESP. Seus contos foram publicados em diversos periódicos – com destaque para a revista Coyote nº 24 (inverno de 2012) e Ô Catarina (nº 81, 2014) – e em antologias de concursos literários – os mais recentes foram Histórias de Trabalho 2013 (Coordenação do Livro e Literatura de Porto Alegre) e 8º Concurso de Conto e Poesia (Sinergia/SC). Ademais, teve um conto escolhido como epígrafe para a coletânea de artigos científicos Jovens, trabalho e educação (Ed. Mercado de Letras, 2012). Contemplado pelo edital Elisabete Anderle 2013, da Fundação Catarinense de Cultura, acaba de lançar seu livro de contos Todo maldito santo dia (Ed. Nave, 2014). Vive em Florianópolis desde 2005.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook: Helton Souto.

21/09/2013