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Meu doce vampiro /

Alessandro Yuri Alegrette

Quando falamos a palavra "vampiro", geralmente, o que vem à cabeça é a imagem de um homem vestindo roupas pretas e com gel nos cabelos. Sempre envolvida em uma aura de mistério e sensualidade, a figura do vampiro é capaz de mexer com nossa imaginação. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o vampiro era repulsivo, parecido com um zumbi que se alimentava de cadáveres humanos.

A descrição do vampiro que conhecemos e incorporada no imaginário coletivo, principalmente, em sua forma feminina, tem suas origens em A noiva de Corinto, de Goethe, o autor do clássico romântico Fausto. Também em outro poema "Lenore", apesar de não abordar de modo explícito o tema do vampirismo, é descrito um ser sobrenatural, cujas características mais tarde serão retomadas na figura do vampiro romântico: a aura de mistério em torno de si e o poder de seduzir e destruir suas vítimas. 

A primeira obra de ficção vampírica é o conto "O vampiro", escrito por John Polidori na mesma época de Frankenstein, clássico da literatura gótica. Mas, a valer, os vampiros têm sua representação máxima em Drácula, de Bram Stoker; neste romance, podemos encontrar a criação de uma "mitologia vampírica". Tudo que sabemos sobre como identificar, localizar e, principalmente, matar um vampiro foi descrito por Stoker, que, apesar de apoiar-se em crenças supersticiosas, também inventou muitos métodos que são usados por Van Helsing e sua equipe para destruir Drácula, impedindo-o de "vampirizar" toda a população da Inglaterra.

No cinema, o vampiro aparece em várias configurações que se adaptam em diferentes contextos culturais ao longo do tempo. Uma das mais marcantes apareceu no filme Nosferatu: uma sinfonia de horrores (1927), considerado um clássico do cinema expressionista alemão e uma livre adaptação do romance de Stoker. Contudo, ao contrário da figura charmosa popularizada em outros filmes, este Conde Orlock é um ser repulsivo, capaz de provocar o horror e de espalhar a morte por onde passa. Posteriormente, o próprio Drácula, o mais conhecido entre os vampiros, também fez sua aparição no cinema. No entanto, nas telas, ele ganhou um visual muito diferente daquele descrito na obra original de Stoker, onde em grande parte do tempo é um velho decrépito. Encarnado pelo ator húngaro Bela Lugosi, Drácula é um Don Juan das trevas que se contenta em seduzir mulheres, transformando-as em vampiras.

É a partir dessa produção cinematográfica, modesta para os padrões da época, que o ato de sugar o sangue assume definitivamente uma conotação sexual, enquanto a imagem do vampiro fica associada à sedução e ao mistério. Apesar da figura marcante de Lugosi, Drácula foi imortalizado no cinema pelo ator britânico Christopher Lee, ultimamente, mais conhecido como Sauron da trilogia Senhor dos Anéis. Até hoje, de acordo com os críticos cinematográficos, Lee é o que melhor expressa o aspecto ameaçador do personagem criado por Stoker. Na série de filmes protagonizados por ele, o vampiro simboliza a rebeldia da juventude contra a conservadora sociedade inglesa que reprimia qualquer tipo de manifestação associada à sexualidade.

A relação de proximidade entre a solidão e o vampirismo, amplamente explorada em Entrevista com o vampiro, no clássico vampírico de Anne Rice, também apareceu de forma inovadora e ousada no cult dos anos oitenta Fome de viver, onde os vampiros mais charmosos do cinema (Catherine Deveuve e o mítico pop star David Bowie) são serial killers que exterminam suas vítimas não com presas, mas por meio de uma adaga em forma de ank, a representação da vida eterna no antigo Egito. Além de se alimentar de sangue, Deneuve (Mirian) também suga gradativamente a juventude de seus amantes, reduzindo-os a mortos-vivos que, com vida, se veem obrigados a enfrentar o isolamento e a imortalidade.

Na década de noventa, Drácula ganha uma nova roupagem em um filme dirigido por Francis Ford Coppola. Arrebatador no aspecto visual, Drácula de Bram Stoker reproduziu na íntegra pela primeira vez cenas assustadoras do romance de Stoker, embora invista no conflito amoroso envolvendo Drácula e Mina, inexistente na obra original. Também neste filme foi criada uma justificativa para a transformação do protagonista em vampiro, que remete ao romantismo: Drácula se transforma em um herói romântico, que, movido por um amor obsessivo e impossível, é condenado a um destino trágico.

Posteriormente, o vampiro retornará com grande força em uma configuração mais assustadora em Deixe ela entrar, romance do escritor sueco John Ajvide, adaptado duas vezes para o cinema. Neste, se destaca Eli, um dos personagens mais misteriosos e interessantes da literatura vampírica atual. Inserido no ambiente cotidiano, o vampiro aparece como um ser andrógeno que convive com horrores reais, tais como a pedofilia e o bullyng, o que o faz reagir sempre com violência.

Apesar de ser muito antigo, e ter sido revisto infinitas vezes no cinema e na literatura, o mito do vampiro continua vivo e atual. Suas várias configurações são encontradas com facilidade em diversas manifestações culturais: literatura, cinema, quadrinhos, séries de tv, etc. Talvez essa resistência do vampiro em não desaparecer encontre sua melhor explicação nas palavras de Nina Auerbach: "Os vampiros somos nós mesmos".

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As ilustrações de HELTON SOUTO fazem parte de sua obra (livro de artista) chamada Vampiro (2009), livremente inspirada no catálogo da peça A educação sentimental do vampiro, de Felipe Hirtsch, encenada pela Sutil Companhia de Teatro e, por sua vez, inspirada na obra O vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan.

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Meu nome é ALESSANDRO YURI ALEGRETTE. Sou doutorando em Estudos Literários da UNESP, de Araraquara. Tenho gosto cinematográfico eclético: clássicos de horror gótico da Universal e da Hammer, filmes de suspense de Alfred Hitchcock e Roman Polanski, comédias sarcásticas, dramas de Billy Wilder, aventura e fantasia dirigidas por Steven Spielberg e George Lucas, cinema-cabeça de David Cronenberg, David Lynch, Stanley Kubrick, Lars Von Trier, além dos filmes alucinados e transgressivos de Quentin Tarantino. Minhas leituras incluem histórias em quadrinhos, principalmente as pirações de Alan Moore, Frank Miller e Neil Gaiman, e textos de ficção científica (e neste gênero meu filme favorito é Blade Runner - o caçador de Andróides). Gosto de literatura em geral, embora tenha mais interesse em obras cuja origem remontam ao sobrenatural, e, dentre elas, minhas preferidas são Frankenstein, O médico e o monstro, Drácula e O Morro dos Ventos Uivantes, romance que atualmente é meu objeto de pesquisa. Contato (Facebook): Alessandro Yuri Alegrette.

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HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra. Contato (Facebook): Helton Souto.

  • Meu doce vampiro

08/09/2013