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Luis Buñuel, cineasta religioso? /

Claudio Willer

A visita do papa Francisco ao Brasil merecia ter sido registrada por dois cineastas: Federico Fellini e Luis Buñuel. Ambos aproveitariam ao máximo a cena com bispos e outros sacerdotes dançando, ou os repórteres da TV Globo fazendo cara de devotos em suas coberturas jornalísticas. Na ausência deles, na impossibilidade de contar com seu talento, homenageio-os. Hoje, começo por Buñuel. Já foi observado por comentaristas e estudiosos: L’âge d’or (A idade do ouro), de 1930, seu segundo filme e último em parceria com Salvador Dali, expressão máxima de sua participação no surrealismo, é um índice ou sinopse de sua extensa filmografia de 33 títulos. Imagens e metáforas de L’âge d’or sempre reaparecem: o mundo como palco da destruição, a exemplo da abertura com escorpiões e dos sacrifícios de animais; Eros onipresente a manifestar-se como fetichismo, sexualização de coisas e partes do corpo, especialmente os pés; a ordem burguesa solapada por acontecimentos estranhos, invadida por criaturas e coisas; caixas ou caixões que encerram algum segredo; ataques à religião instituída; os finais com apocalipses, explosão da fúria coletiva.

Uma imagem-chave em Viridiana (de 1961: filme que o reinseriu definitivamente, após o sucesso de Nazarín, de 1959, no circuito internacional): Jorge (Francisco Rabal), o primo de Viridiana (Silvia Piñal), um progressista, vê um cãozinho obrigado a acompanhar uma carroça amarrado por um barbante – indignado, repreende o carroceiro por maltratar o animal; assim que ele vira as costas, passa outra carroça com outro cãozinho amarrado do mesmo modo: parábola para mostrar que o mundo não tem jeito, que o mal é recorrente (como também o simbolizam os escorpiões, insetos circulares que se mordem com a própria cauda, na abertura de L’âge d’or). Todo o Viridiana expõe essa moral: os mendigos recolhidos pela protagonista são devassos que não se redimirão; eles protagonizam uma das mais brilhantes blasfêmias de Buñuel: a versão pornográfica da Santa Ceia.

Sem dúvida, seus enredos trazem política, crítica social, denúncias da opressão e hipocrisia. Mas expressam uma cosmovisão segundo a qual vivemos em um mundo ao contrário – nele, o devasso Duque de Blangis, protagonista de Os 120 dias de Sodoma, do Marquês de Sade, tem as feições de Jesus Cristo no final de L’âge d’or; um sacerdote virtuoso como o protagonista de Nazarín só conhecerá humilhações; o santo será destituído, como em Simón del desierto (Simão do deserto, de 1965, filme infelizmente reduzido a média-metragem depois que o produtor roeu a corda); um mundo do qual não há saída, como em El ángel exterminador (O anjo exterminador, de 1962) e desfechos serão catástrofes, como aquela ao final de Belle du jour (A bela da tarde, de 1967); e, ainda, mundo regido pela miséria exposta em Los olvidados (Os esquecidos, de 1950) ou Las Hurdes (As Hurdes, de 1933).

Essa cosmovisão é religiosa, embora herética. Corresponde àquela do gnosticismo, das doutrinas dualistas, segundo as quais o mundo é resultado de um erro, obra de um deus obtuso e cego, o demiurgo. E que, segundo os dualismos mais radicais, a exemplo do maniqueísmo, irremediavelmente corrompido e dominado pelo mal, fatalmente terá que ser destruído.

Alguém duvida, ou acha que estou trazendo Buñuel para o campo de minhas especializações? (escrevi a respeito em Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna, Civilização Brasileira, 2010). Então, assista a La Voie Lactée (A Via Láctea, de 1969): o filme em que, podendo criar à vontade após o sucesso de A bela da tarde, abriu o jogo em matéria de discussões religiosas. A viagem como deslocamento espacial, peregrinação de dois beatniks ao mesmo tempo devotos e amorais de Paris a Santiago de Compostela; e deslocamento no tempo, em cenas que vão do presente até a época dos Evangelhos. Passa por algumas das controvérsias religiosas desses dois milênios: jansenistas duelam com jesuítas; há discussões sobre a natureza divina ou humana de Cristo em concílios da Antiguidade e restaurantes burgueses; prédicas sobre a natureza sagrada da Virgem por um padre que oculta uma espada; inventários de heresias a condenar. São expostas algumas passagens mais enigmáticas do Evangelho de Mateus. Aparece Prisciliano, bispo que liderou uma variante do gnosticismo (após discorrer sobre a degradação irremediável do mundo, o líder herético e seus discípulos - e discípulas - começam uma orgia). Prisciliano foi executado em 367 d.C. e sua condenação ainda seria o tema de um concílio em Braga, Portugal, no século VII. Mas essa doutrina prosseguiria, por vias subterrâneas, influenciando heresias medievais, modalidades do que Norman Cohn chamou de “anarquismo místico”. Outra variante do gnosticismo reapareceria com força no século XII: os cátaros da Provença e norte da Itália.

A Via Láctea termina assim: descobre-se que a ossada sepultada na catedral de Santiago de Compostela não é do santo, mas de Prisciliano (isso de fato consta em relatos galegos). Não há mais peregrinação, devotos se dispersam, vem uma sublevação, fim de mundo.

São precisas as referências e citações teológicas em A Via Láctea. Além de interessar-se pelo assunto, Buñuel teve a colaboração de Jean-Claude Carrière, um conhecedor (autor inclusive de uma biografia romanceada de Simão o Mago, o profeta contemporâneo de Jesus Cristo, tido como iniciador do gnosticismo).

Cabe perguntar: como é possível toda essa religiosidade, mesmo herética, em Buñuel, e ele ser surrealista, o mais surrealista dos cineastas? Nada a estranhar: o próprio André Breton havia, em um ensaio de 1947, “Flagrant délit”, situado o surrealismo em uma relação de continuidade com uma tradição gnóstica: “os gnósticos estão na origem da tradição esotérica que consta como tendo sido transmitida até nós (...) os poetas cuja influência se mostra hoje a mais vivaz, cuja ação sobre a sensibilidade moderna mais se faz sentir (Hugo, Nerval, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Mallarmé, Jarry), foram mais ou menos marcados por essa tradição.”

Gnosticismo tornou-se um tema da moda. Gerou enorme bibliografia e uma filmografia que inclui Stygmata (1999, direção de Rupert Wainwright, com Patrícia Arquette e Gabriel Byrne), e Maria (Mary de 2005, direção de Abel Ferrara, com Forrest Whitaker e Juliette Binoche), ambos precedendo O Código da Vinci (de 2006, direção de Ron Howard, com Tom Hanks). Também já foi visto gnosticismo na série Matrix, por mostrar o mundo como realidade virtual engendrada por demiurgos.

Interessa contrastar O Código da Vinci, baseado no best-seller de Dan Brown, e A Via Láctea, de Buñuel. De um lado, o oportunismo, a verossimilhança através do falseamento de lendas e fatos históricos. De outro, no relato onírico, surreal, com o livre jogo de imagens, o rigor, a seriedade no trato de temas marginais, porém historicamente relevantes, por um artista da estatura de Buñuel.

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Ilustração de Helton Souto

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CLAUDIO WILLER (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor, ligado à criação literária mais rebelde, ao surrealismo e à geração beat. Publicações recentes: Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia (Civilização Brasileira, 2010); Geração Beat (L&PM Pocket, 2009); Estranhas Experiências (Lamparina, 2004). Traduziu Lautréamont, Ginsberg e Artaud. Publicado em antologias e periódicos no Brasil e em outros países. Doutor em Letras na USP, onde fez pós-doutorado e deu cursos como professor convidado. Também deu cursos, palestras e coordenou oficinas em uma diversidade de instituições culturais. Presidiu a UBE (União Brasileira de Escritores). Mais em http://claudiowiller.wordpress.com/about e no Facebook (Claudio Willer).

HELTON SOUTO nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook: Helton Souto.

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24/08/2013