)Sarau(

Oitava marcha /

André Carretoni

Está consumado. Durante anos, trabalhei arduamente por um sonho. Fui censurado, criticado e rejeitado, mas, agora, aqui estou eu, sentado dentro de meu Maverick V8, invulnerável, uno, longe de todos e de tudo, tendo apenas como companhia, bem à minha frente, a mais maravilhosa e magnífica rodovia. Estou falando de exatamente sessenta quilômetros de pura reta, com o melhor asfalto de todo o país. E eu estou no seu começo, e ela é meu início. 

Ligo minha máquina, animal em potência. O ronco é lindo e ensurdecedor. Rangendo os dentes, saio cantando pneu. Ninguém pode deter-me. Aproveitando o início da aceleração, acendo um cigarro e coloco meus óculos espelhados. Não posso mais deter minha felicidade e fúria. Piso! Piso com toda minha força, até que noto já estar em quinta.

"Meu Deus, e eu que achei que fosse impossível um carro passar dos duzentos!" Bobagem. Estou gritando duzentos e vinte. As placas mal podem ser vistas; a grama, o céu, a estrada, tudo, tudo não passa de um borrão de cores, pintura retorcida de um louco. 

Sem pensar, ligo o Blower, em um instinto de destruição e renascimento. Os pensamentos perdem-se, o motor geme, e o ponteiro força o limite da compreensão.

Tudo está muito rápido. Como um flash, vejo toda minha vida passando e repassando diante de meus olhos. O passado, o futuro, o bem e o mal. A morte e a vida. Duplicidades unindo-se e atrofiando-se. Meu pé colado no fundo, e minhas unhas encravadas no volante. O carro treme, o pneu vacila e meus olhos focalizam, com uma expressão de medo e atração, um caminhão de combustível parado mais à frente.

Em um banho de excitação e suor, dou uma última tragada em meu cigarro e termino com o conflito eterno entre a vida-morta e a morte bem-vivida.

Blasfemo e lanço-me ao final certo. Meu grito corta o silêncio do deserto e é abafado pela explosão.

Chamas de quarenta metros. Meu corpo voa aos giros, após arrebentar o pára-brisa. Caio cem metros depois, só tendo forças para olhar para o céu e sorrir, agradecendo-Lhe por ter-me deixado fazer o que eu queria.

Enquanto isso, um caminhoneiro lamenta por sua carga perdida, um órfão lamenta por quem poderia ter sido seu pai, e uma mulher, que havia assistido a tudo, deixa escorrer uma lágrima de sal. Uma gota em confraternização por alguém que tentou, talvez por curiosidade, viver a vida ao máximo.

Talvez por isso. Por uma simples e pacata curiosidade.

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Ilustração de Helton Souto.

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, André Bustamante Carretoni cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance Piedade Moderna e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nove fonte de inspiração.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

  • J._B._Pickers-Freedom of Expression

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04/08/2013