)Livros(

A alegre e rósea mansão colonial georgiana dos Buchanan$ / "O grande Gatsby"; F. Scott Fitzgerald;

Renato Alessandro dos Santos

Gatsby era ainda um adolescente quando jurou a si mesmo que teria Daisy ao seu lado um dia. A garota, com borboletas nos olhos, vem de família rica; Gatsby, sem ter onde cair morto, parte e deixa Daisy casada com o herdeiro bocó da família Buchanan. Giramundo. Quando retorna, retorna dono de uma mansão, de um carro luxuoso e de camisas importadas que vêm de negócios realizados à surdina. As garotas volitam ao redor, mas nenhuma delas interessa: depois de tanta peleja, é apenas para Daisy que Gat$by estende seus braços.

Nas mãos habilidosas de F. Scott Fitzgerald, essa história banal de amor toma outro rumo. Ao lermos O grande Gatsby, a certeza que temos é a de que a boa prosa realmente inscreve-se nas lacunas deixadas por um autor e que, preenchidas pelo leitor, faz brotar mais um ramo de grande literatura. Primeiro: Fitzgeral não entrega nada de mão beijada. O leitor caminha, ciente de que está em boas mãos, porque há algo de fascinante em um escritor capaz de escrever coisas como esta: “O vento cessara, deixando uma noite rumorosa e clara, com asas a adejar nas árvores e um som persistente de órgão, como se os pulmões da terra enchessem as rãs de vida.” Segundo: como um diretor de cinema totalmente convicto do lugar onde deve posicionar sua câmera, Fitzgerald também soube encontrar em Nick Carraway o narrador perfeito para sua história. Este é um romance que, como On the road, tem um narrador que se ocupa de contar uma história não sobre ele mesmo, mas sobre outro personagem; no caso de Kerouac, Sal Paradise tem em Dean Moriarty seu heroi, enquanto Nick vê em Gatsby não apenas uma personalidade fascinante, mas alguém capaz de atender ao chamado romantizado que a vida dá àqueles que, como em On the road, “queimam como fabulosos fogos de artíficio”. Curiosamente, trata-se de romances que definiram duas gerações literárias nos EUA: a geração perdida e a geração beat.

Tudo bem: O sol também se levanta, de Ernest Hemingway, é o cânone da geração perdida; esse é um romance capaz de incentivar qualquer leitor a beber, em ordem alfabética, todo o estoque destilado do boteco mais próximo, mas O grande Gatsby, de Fitzgerald, mesmo geograficamente longe do Velho Mundo, também incorpora o zeitgeist capaz de expressar a desilusão daqueles que, mirando o horizonte, ficam a esperar que o pôr do sol possa valer a pena um dia. Terceiro: quando os primeiros dois passos dão certo, fica quase impossível um romance sair pela culatra. E claro: nunca é tarde lembrar que Fitzgerald tinha apenas vinte e poucos anos quando seu primeiro romance, Este lado do paraíso, virou hit em 1920 e que, ao publicar O grande Gatsby, em 1925, tinha praticamente a mesma idade do discreto, sensato e melancólico narrador Nick Carraway, que ao fazer 30 anos, lá pela metade do livro, sabiamente recorda que “assim prosseguimos, através do fresco crepúsculo, em direção da morte”.

Nick aluga um bangalô ao lado da mansão de Gatsby. As festas na casa grande não cessam e, um dia, Nick é convidado a uma delas. Se antes ele via Gatsby de longe, sem compreender o porquê de tantos festins, ao aproximar-se da lenda, descobre um sujeito enrolado em um cobertor de mistério. Nick é primo de Daisy, esposa de Tom, o herdeiro bocó, lembra? Ambos moram na “alegre e rósea mansão colonial georgiana” dos Buchanans e desfrutam de uma fortuna herdada e de um dos sentidos da palavra estupidez; Gatsby, não. Gatsby pelejou e comprou seu casarão de um dos lados do rio, exatamente, porque, do outro, Daisy habita outra mansão com o marido. As casas em O grande Gatsby são um símbolo maior do que aparentemente ostentam. “As casas são particularmente significativas no livro”, diz Arthur Mizener em ensaio sobre o romance de Fitzgerald, “pela maneira como mostram as significações inerentes ao seu plano central, o qual coloca Nick no meio da cena, tendo Gatsby de um lado e os Buchanans de outro”. Quando Gatsby finalmente surge diante de Daisy, trazendo o passado de ambos em uma das mãos, eles estão na casa de Nick, que não é nem de longe um cortiço, como no romance de Aluísio Azevedo, mas que também está em oposição aos casarões habitados por Gatsby e pelos Buchanans. Mizener afirma que a mansão dos Buchanans “é tão falsa (…) quanto à mansão de Gatsby”. É verdade, mas, trocando em miúdos, ele também sabe, como Fitzgerald, que a riqueza conquistada não se compara à herança e à tradição dos muito ricos. É aí que se sobressai Jay Gatsby, pois mesmo que ele não tenha herdado a terra, os leitores percebem que os Buchanans não têm um décimo do sangue repleto de idealismo heroico do graaande Gatsby. “A casa dos Buchanans, como a vida de ambos”, diz Mizener, “não era, evidentemente, ridícula, como o era a casa e a vida de Gatsby, mas eles estavam, no fundo, mortos, o que não ocorria com Gatsby”, um dos últimos românticos, porque se há alguém capaz de pôr sua vida nas mãos de outra pessoa, Gatsby é esse sujeito. Quando Daisy se vê obrigada a tomar a decisão que, literalmente, mudará sua vida, numa frenética sucessão de ações que levam a um atropelamento fatal, vem a constatação de quão cediça é sua moral. A impressão que se tem é a de que tanto Daisy como Tom não passam de pálidas & ricas crianças mimadas. A riqueza fez deles não pessoas esplêndidas, embora a sofisticação de Daisy seja marcante, mas, em vez disso, é como se sempre precisassem de quem pudesse consertar as besteiras que aqui e ali vão cometendo, à mercê de uma moral turva que miseravelmente ostentam. Gatsby, por outro lado, é tão autêntico que tanto faz, para Nick e para os leitores, ele ter enriquecido por causa de seus negócios ilícitos.

Ao perseguir o sonho de reconquistar Daisy, é o patético e romântico adolescente tardio que há em Gatsby que se revela tão sublime quanto a alta carpintaria de Fitzgerald. Não por acaso, a última frase do romance faz o leitor manejar sua pá, tentando cavar mais fundo. É a última lacuna a ser preenchida: “E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado”. Entendeu por que Fitzgerald não entrega nada de mão beijada?

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LEIA:

FITZGERALD, Francis Scott. O Grande Gatsby. Tradução de Breno Silveira. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

MIZENER, Arthur. The great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. In: ______. Panorama do romance americano. Tradução de Brenno Silveira. Rio de Janeiro, Lisboa: Fundo de Cultura, 1966.

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Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 41 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou editor deste site, Tertúlia, e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube. E-mail: realess72@gmail.com. Perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Ubirajara Gonçalves Filho, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte. Perfil no Facebook (Ubirajara Gonçalves Filho).

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  • zaz - eblouie par la nuit

27/07/2013