)Sarau(

O garoto & o velho / O velho e o mar;

André Carretoni

O garoto estava sentado na areia, a olhar para o mar. Santiago partira havia dois dias, e o garoto andava preocupado.

— Vamos pra casa, filho.

— Já vou, mãe.

— Santiago está bem. Ele sabe cuidar de si mesmo.

— Eu sei.

— Você vai ficar aqui a noite toda?

— Não.

Ela foi embora, e o garoto continuou a pensar no amigo.

Santiago não fisgava nada havia 84 dias e havia ido longe para pescar. Falavam que ele se tornara finalmente um salao, que é o pior tipo de infortúnio, e, por causa disso, o garoto não podia mais ajudá-lo. Depois dos quarenta primeiros dias, seus genitores queriam que ele encontrasse um barco com sorte, mas o garoto gostava do velho e lamentava cada um daqueles dias em que pescaram separados.

Recordava a primeira vez em que vira Santiago. Ele estava brincando na praia, e Santiago estava recolhendo seu material de pesca. Como os cabelos dele eram da cor das nuvens, o garoto o tinha como um anjo, mas, como Santiago se ferira com um anzol, o garoto descobriu que ele era, na verdade, um homem comum. Mais que nunca, o garoto desejou ser igual a Santiago quando crescesse.

Pessoas como Santiago eram raras, pensava. Não bastava estar no lugar e na hora certa, para pegar o peixe certo. Era preciso ter disciplina, saber o que se queria e não vacilar no momento de agir — impressão que Santiago causava apenas com sua presença.

Agora acusavam Santiago de estar terminado, e Santiago deveria provar ainda ser um bom pescador, não para os outros, mas para si mesmo. Ele desejava morrer com os punhos em riste e não ser contaminado com algum tipo de sentimento conformista. O garoto sabia disso e via, em Santiago, o mesmo pescador de sempre.

Santiago havia ensinado o garoto a pescar.

— Posso ir com você amanhã?

Santiago parou de puxar o barco e olhou para o garoto.

— Você quer ir comigo?

— Quero.

— Amanhã, então, iremos pescar juntos.

Em alto-mar, o garoto vira a habilidade de Santiago e sonhara que um dia teria o seu próprio barco. Ele teria seu próprio peixe e conseguiria provar, também, que era um bom pescador.

— Por que você quer ser um pescador?

— Porque eu não me vejo fazendo outra coisa — o menino respondeu.

Os dois amavam o mar. O garoto apenas era muito jovem para conhecer o sentimento de se sentir em casa.

Uma brisa levantou alguma areia. O entardecer chegou, e a temperatura começou a baixar. O garoto sabia: Santiago estava pescando o maior de todos os peixes, e ninguém poderia ajudá-lo.

 

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Ilustração de Rodrigo Salomao.

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Nascido no Rio de Janeiro em 1971, André Bustamante Carretoni cedo se apaixona pelas artes. Autodidata, aprende música, desenha, segue cursos de teatro, frequenta um curso de cinema, até que escolhe a literatura como meio de expressão. Encontrando afinidades com certos autores expatriados, aos 27 anos decide dar uma reviravolta em sua vida e parte para a Europa, à procura de novas experiências. Vive seis anos em Lisboa, mas sente necessidade de ir além. Faz o Caminho de Santiago de Compostela e se inscreve em um curso de pintura em Florença, onde escreve seu primeiro romance Piedade Moderna e conhece aquela que se tornará sua esposa. Sua vida de escritor acabava de começar. Vive dois anos na Suíça, aprimorando seu estilo de escritura. Escreve Mais Alto que o Fundo do Mar, cria sua página na internet (carretoni.com), escreve crônicas para o sítio francês Bonjour Brasil, participa do sítio brasileiro Tertúlia e frequenta o laboratório de escritura criativa do Instituto Camões. Depois de quatro anos em Paris, no encalce da Lost Generation, instala-se em Nice e encontra uma nove fonte de inspiração.

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Rodrigo Salomao vem convertendo a vivência e a observação em desenhos, tentando captar o que uma foto não capta com um traço intenso, frenético às vezes, desde meados da década de 90. Busca figuras densas, marcadas por uma ocupação do espaço, plena de questões visuais, seja em um pedaço de pano, de papel, no muro ou na pele desde 2005. Arte ladeira abaixo, falcatrua e vadiagem pela estrada afora. Sempre. O resto é frescura do coração.

 

 

 

  • 06 - A praia do mar

07/07/2013