)Cinema(

Inocência e perversidade / "Conta comigo"; "Outono da inocência"; Stephen King

Renato Alessandro dos Santos

A experiência por que passam os meninos do filme Conta comigo é um ritual de passagem: saem da infância para a adolescência com muita maturidade. Em meados dos anos 1950, quatro garotos na pré-adolescência – naquele momento em que as garotas ainda não se tornaram motivo de preocupação – partem numa viagem que, aventura à parte, será um ponto luminoso na vida de cada um. O motivo para pôr o pé na estrada é a morte de um garoto que perdeu a vida após ser atropelado por um trem. Determinados a encontrar o menino, Gordie (Will Wheaton), Chris (River Phoenix), Teddy (Corey Feldman) e Vern (Jerry O’Connell) saem de casa e partem para a floresta, seguindo os trilhos do trem. O filme é inspirado em “Outono da inocência”, um dos contos de Quatro estações, de Stephen King.

No início, as complicações começam a surgir: descobrem que não levaram comida e que não têm dinheiro para muita coisa. Há um ferro-velho por ali e ninguém por perto. Pulam a cerca e ficam à-toa, matando o tempo; juntam os centavos e tiram a sorte para ver quem buscará algo para comer. Gordie se dá mal. É ele quem irá comprar os acepipes num mercadinho da redondeza. Aos poucos, velhos mitos começam a cair. O primeiro diz respeito a um cachorro do qual todos tinham medo. O cão tem o nefasto hábito de morder os testículos dos infelizes que cruzam seu caminho. Claro que, quando surge a oportunidade, os meninos descobrem a verdade. Ao voltar ao ferro-velho, Gordie percebe que há algo estranho: em slow-motion, ao mesmo tempo em que vê seus amigos fugindo dali, ouve-os gritando alguma coisa. Ao olhar para trás, descobre que o cachorro está vindo em sua direção. Run, Gordie, run! Correndo feito Forrest Gump, consegue pular a cerca do ferro-velho. Protegido, e com seus amigos, mal tem tempo de tomar fôlego para ver que nem mesmo cara de bravo o cachorro tem, ficando mais para a expressão típica de ventura dos cães. Cai um mito, outros virão, e a estrada continua.

Como nas boas narrativas em que a estrada se torna propícia para se contar e ouvir histórias, ao acampar na floresta à noite, eles mostram quão crianças ainda são. Nada de discutir sobre garotas ainda; em vez disso, temas fundamentais: “Mickey é um rato; Pluto, um cachorro; Donald, um pato, mas e o Pateta, ele é o quê?” O medo é um elemento que, a todo momento, recebe atenção no filme. Ao se deitarem em seus sacos de dormir, o uivo de lobos e demais grunhidos notívagos fazem que se revezem de guarda, velando a noite de cada um. Amanhece e a aventura continua. Vem outra provação: eles se veem obrigados a atravessar uma ponte onde passa um trem; se a locomotiva passar por ali, enquanto o precipício os aguarda, a morte será a única opção para cada um. Chega o momento da travessia. Quando estão no meio da ponte, eis que veem a fumaça do trem e ouvem aquele apito característico das locomotivas. Então, eles correm, lutando para sobreviver. Talvez seja o momento mais crucial do filme. Daí em diante, a aventura caminha para o fim, quando encontram o garoto na floresta, mas não sem antes se virem obrigados a atravessar um rio, onde sanguessugas os esperam.

Como contraponto à inocência, há a vilania do grupo de rapazes mais velhos, que também localiza o menino morto. É outro momento de provação. Como os quatro meninos de Conta comigo levaram um revólver para se proteger, eles conseguem fazer o grupo de “garotos perdidos” correr dali. Chega ao fim a aventura. Em vez de levar o corpo do menino de volta, eles apenas telefonam anonimamente para a polícia, dizendo onde está o garoto. Quando retornam à cidade, cada um segue seu caminho, preservando dentro de si a camaradagem, a coragem e a certeza de que deixaram algo valioso para trás. É um filme para se ver e rever conforme a vida caminha.

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Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho.

Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 41 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou editor do site Tertúlia e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube. E-mail: realess72@gmail.com. Perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

Ubirajara Gonçalves Filho, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte. Perfil no Facebook (Ubirajara Gonçalves Filho).

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30/06/2013