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"Gothic": mais romântico, impossível / Mary Shelley, Percy Shelley; Lord Byron; Polidori; "Frankenstein"; "O vampiro"; Ken Russel

Alessandro Yuri Alegrette

Imagine a cena: uma mansão sombria à beira de um lago, com um grupo de pessoas entediadas. Cai uma tempestade. Para passar o tempo, começam a contar histórias de horror, cada uma mais assustadora do  que a outra. Imagine que esse grupo é formado por uma garota de 18 anos, Mary Godwin, que já havia passado por várias tragédias pessoais, dentre elas, sucessivos e traumáticos abortos; seu amante, Percy Shelley, poeta talentoso, mas imaturo e viciado em ópio; a irmã de Mary, Claire Clairmont, garota de imaginação fértil, com pretensões literárias; Lord Byron, poeta igualmente talentoso, mas com fama de bad boy e sempre envolvido em escândalos sexuais que fazem a alegria da imprensa britânica e, por último, John Polidore, médico de Byron, que, apesar de ser fervorosamente católico, não consegue esconder sua atração "pecaminosa" pelo bardo manco. Todos estão reunidos ao pé da lareira contando histórias de horror cheias de cenas assustadoras. Vamos acrescentar a essa cena, o surgimento de duas obras literárias que, além de ter criado dois mitos literários — um monstro solitário e uma criatura sensual e sedenta de sangue , definiram os rumos da literatura gótica inglesa em pleno início século 19 — época marcada por grandes descobertas na área da ciência — e que, também, contribuíram de forma significativa para a configuração da estética do terror moderno: Frankenstein e O vampiro. Por fim, para tornar essa reunião ainda mais impressionante, acrescente, no século seguinte, a perspectiva de um cineasta inglês conhecido por seu estilo transgressor em que se destacam cenas de nudez, crítica à religião e situações bizarras. O resultado é Gothic, de Ken Russel, um dos filmes mais estranhos e fascinantes produzidos na década de 1980 e que não admite meio-termo: ou você gosta — considerando-o no mínimo cult ou odeia, porque o acha kitsch e tosco.    

Gostando ou não do filme de Russel, é ele que melhor retrata os anos loucos dos românticos ingleses, que são descritos em Gothic como pré-hippies, uma vez que esses personagens demonstram abertamente sua revolta contra a sociedade "careta" da época — eram adeptos do amor livre, usavam drogas e curtiam muita literatura gótica. Se mais tarde Mary Godwin seria a senhora Shelley e Polidori acabaria se tornando mais conhecido pela autoria de O vampiro, infelizmente, dois membros do grupo da vila Diodati, apontados como expoentes do romantismo inglês, teriam destinos trágicos (porém heroicos): Percy Shelley e Byron. Ambos já eram celebridades: a cena do filme de Russel em que Percy é perseguido por duas garotas “animadinhas” ilustra bem o culto à fama de ambos — a despeito da alcunha de libertinos, que os fez mergulhar de "cabeça" em um processo de alienação que os levou a uma rota de destruição. 

Gothic é cheio de referências ao romance Frankenstein, mostrando de forma inteligente e instigante seu processo de criação. No filme, Percy Shelley é descrito como um iluminista deslumbrado com os avanços da ciência. Em uma cena significativa, que evoca o modo como o monstro é “gerado”, Percy sobe nu ao telhado e, com a cabeça cheia de ópio, grita: "a eletricidade é a fonte da vida". OK, Percy. Em outro momento, Mary vê uma sombra ameaçadora observando-a atrás da cortina, remetendo à passagem de sua obra quando a criatura de Victor Frankenstein repete o mesmo gesto. Além de Frankenstein, o filme de Russel também presta uma espécie de tributo ao conto O vampiro: como Lord Rutheven, o protagonista da narrativa de Polidori, Byron é retratado em Gothic como um homem misterioso e violento, que seduz suas “vítimas”. Por outro lado, sua outra face é revelada: por trás do gosto pela violência e do prazer de chocar, Byron é um ser humano triste, com traços de loucura, e que sofre muito pela perda da mulher amada. É o típico herói trágico ao qual nos acostumamos. Mais romântico, impossível. 

O filme traz uma inusitada abordagem do elemento sobrenatural, que procura provocar mais o terror que o horror. Em vários momentos, os personagens têm a nítida impressão de que, por meio de um ritual mágico, liberaram forças malignas que os ameaçam e se manifestam de forma estranha — uma substância viscosa que vaza nos cantos da casa; aparições sobrenaturais; o estranho comportamento de Claire, dando sinais de que está possuída por alguma entidade maligna. Ao longo do filme, cada vez mais irreal ao assumir contornos surreais, o espectador pode ter a impressão de que tais horrores têm sua origem em algo facilmente explicado: a imaginação que, sem amarras, como mostra a introdução do filme — da lavra da própria Mary Shelley —, é capaz de dar vida aos nossos medos mais terríveis.

Dessa forma, Gothic pode ser compreendido como uma metáfora visual que ilustra muito bem os perigos inerentes à criação literária desenfreada, capaz de conduzir o indivíduo à loucura e à alienação. Apesar do episódio do “verão assombrado de 1816”, que, por si só, pode ser considerado "literário" — foi recriado sucessivas vezes, como em As piedosas, o criativo romance do argentino Frederico Argahazi —, é o filme de Russel que conseguiu captar a permanência até hoje da obra-prima de Mary Shelley, com sua marcante imagem final. Como você sabe, Frankenstein, a criatura imaginada por essa garota inglesa, mantém-se mais viva hoje na imaginação coletiva do que naquele verão gótico, quando poetas e escritores contaram histórias de terror que, até hoje, não foram esquecidas.

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ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Alessandro Yuri Alegrette. Sou doutorando em Estudos Literários da UNESP, de Araraquara. Tenho gosto cinematográfico eclético: clássicos de horror gótico da Universal e da Hammer, filmes de suspense de Alfred Hitchcock e Roman Polanski, comédias sarcásticas, dramas de Billy Wilder, aventura e fantasia dirigidas por Steven Spielberg e George Lucas, cinema-cabeça de David Cronenberg, David Lynch, Stanley Kubrick, Lars Von Trier, além dos filmes alucinados e transgressivos de Quentin Tarantino. Minhas leituras incluem histórias em quadrinhos, principalmente as pirações de Alan Moore, Frank Miller e Neil Gaiman, e textos de ficção científica (e neste gênero meu filme favorito é Blade Runner - o caçador de Andróides). Gosto de literatura em geral, embora tenha mais interesse em obras cuja origem remontam ao sobrenatural, e, dentre elas, minhas preferidas são Frankenstein, O médico e o monstro, Drácula e O Morro dos Ventos Uivantes, romance que atualmente é meu objeto de pesquisa.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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16/06/2013