)Sarau(

1 ramalhete de versos / de Priscila Machado

Priscila Machado

Sobre asas

Dentro de mim mora uma menina

Tanto assustada
Tanto indecisa
Com pezinhos nas nuvens
E raízes nos cabelos.
Dentro de mim há a intuição do torto e direito
E no meu útero pulsam instintos primitivos
De tempos remotos
Que me conectam à Terra.
Eu não ouvia essa menina.
Amarrava seus tornozelos e cortava seu comprimento.
Quantas vezes morreu, sem nunca me maldizer.
Mas hoje ela me ameigou por dentro transformando pedras em flor.
Hoje ela me olha bem fundo, pedindo: “Abra os braços!”
Que será meu guia
Onde eu for.
E nada vai destruir um amor assim tão bonito, entre nós.
Ela é minha menina, que eu aprendi a amar
Ela é meu estandarte, porta-bandeira, o que for!
Que não calo mais.
Calar pássaros é coisa de homem.

Nasci para escancarar gaiolas.
E sinalizar o céu.

 

Sinestesia

Queria escrever das sinfonias que acontecem ao entardecer na árvore 27, bem na esquina. Dos pássaros, traje de gala emplumados, saracoteando para todas as direções. De mim, passando embasbacada com os olhos para cima, tentando entender o mistério das coisas do mundo.

 

Sementeiras

Escrevo para não morrer.
Existem mortes de acidente, mau funcionamento do corpo,
Mortes súbitas.
A morte de quem precisa, e não escreve, é lenta.
Quem não abre espaços na folha semeia vazios,
Mas as palavras são pequenos pedaços de vida na imensidão da Terra.
Escrevo para viver.
Porque sobrevivi ao apocalipse
Pisando o chão da minha cabeça.
Porque vejo sementes na podridão dos lamaçais,
Vejo, no solo, minerais necessários ao florescimento.
Tenho comigo a crença na ressurreição dos mortos,
Porque já renasci do avesso da tragédia.
Escrevo porque a única coisa que resta a um errante
É o grito.
Então eu grito, mesmo que seja no escuro de uma sala escura
Dentro de mim.
Mesmo que essa luz seja para ninguém,
Sou encarregada de acender o lampião,
E cultivar as esperanças.

 

Oração

Essa noite vou desenhar
um círculo de giz
no chão do meu quarto
e dormir do lado de dentro.
É só a maneira tímida
que encontrei de rezar.

 

Sobre os desejos

Um marido de poucos amigos.
Um filho homem.
E uma casa sem telefone.

 

A viagem

Não quero ser porta-estandarte de inteligência,
nem preciso ser mulher-maravilha das minhas passadas.
Acontece que quando atravessei certo ponto da estrada
e conversei com pessoas mais velhas,
surgiu um cisco do sentido da vida.
Acontece que ao ler Clarice e Drummond,
ouvir Cartola e conhecer um pouco dos versos do Caetano,
modifiquei antigas estruturas.
Quando entendi um pouco de Machado e imaginei
o mundo de Tolkien;
Conheci astrologia, filosofia, a arte diplomática de Gandhi;
Quando amei feito Madre Teresa, ou pelo menos vislumbrei amar;
Aprendi História das civilizações e das religiões
E das nações;
Quando reli livros e finalmente os tive por inteiro nas mãos,
sabendo preenchê-los de sentido com experiências da vida;
E senti a dor dos poetas e encarnei as personas do Pessoa;
Orientei-me pelos mitos antigos sabendo que eles
não abalam as estruturas científicas (sabendo dosar os dois);
Acontece que quando o conhecimento, por menor que seja,
atravessou meus ossos de forma irreversível,
fui deslocada para novas possibilidades.
Como um viajante que volta dos mares,
como um pastor que desce as montanhas:
a alma nunca mais é a mesma.

 

Procura-se um amigo

Busco um amigo para segurar mãos na tempestade, sabendo meu incontrolável medo dos trovões. E abraçar com o corpo inteiro, porque cansei de ruínas.
Perdoe o excesso de proteção: cuidar é meu verbo preferido.

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Ilustrações de Vanessa Lira ("Sobre asas" e "Sinestesias"), Ubirajara Gonçalves Filho ("Sementeiras"), Rodrigo Salomao ("Sobre os desejos") e Helton Souto ("A viagem").

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Priscila Machado fez pedagogia e mora em Ribeirão Preto. Tem um blog: Menina e o Mundo. Perfil no Facebook: Priscila Machado.

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Vanessa Lira é artista plástica e utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão. Escreve desde os 10 anos. É mãe de Theo de 2 anos. Esposa, amiga e companheira de Anderson Lira, que lhe cedeu o nome, há quase 8 anos. Trabalha com gestão educacional no terceiro setor. Blog: http://macroolhar.wordpress.com/. Perfil no Facebook: Vanessa Lira.

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Ubirajara Gonçalves Filho, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte... Perfil no Facebook: Ubirajara Gonçalves Filho.

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Rodrigo Salomao converte a vivência e a observação em desenhos, tentando captar o que uma foto não capta com um traço intenso, frenético às vezes, desde meados da década de 90. Figuras densas, marcadas por uma ocupação do espaço, plena de questões visuais, seja em um pedaço de pano, de papel, no muro ou na pele desde 2005. Arte ladeira abaixo, falcatrua e vadiagem pela estrada afora sempre. O resto é frescura do coração. Perfil no Facebook: Rodrigo Salomao

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

 

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  • 09-AudioTrack 09

08/06/2013