)Música(

O massacre da primavera / "A sagração da primavera"; Igor Stravinsky; Vaslav Nijinsky; arte morderna;

Renato Alessandro dos Santos

A rinha aconteceu à noite, no Théâtre des Champs Élysées, em Paris: durante a execução de A sagração da primavera, do camaleão Igor Stravinsky, a orquestra — superdimensionada nas madeiras e nos metais — parecia estar se apresentando não a um público de música clássica, mas a um grupo de irlandeses em um pub durante a transmissão de uma partida de futebol. “A estreia resultou no mais famoso escândalo da história da música”, diz Harold C. Schonberg, em A vida dos grandes compositores (Novo Século, 2010). “Praticamente ninguém no público estava preparado para tamanha dissonância e ferocidade, tamanha complexidade e estranheza rítmica”. A plateia xingava e gritava, rebelando-se contra a música e a dança, enquanto perdigotos davam piruetas no ar antes de se esborrachar no chão. Se pensarmos que Rimbaud e Bowie são, juntos, o enfant terrible da literatura e o camaleão do rock, Stravinsky conseguiu reunir as duas pontas em A sagração da primavera, quando virou a música de ponta-cabeça. Era 29 de maio de 1913.

A arte é um sinal de vida

Já sabemos que as coisas têm de mudar para continuarem as mesmas, não é? Cem anos depois de o “massacre da primavera”, quem quer que ouça A sagração hoje não ficará incomodado com Stravinsky da mesma forma que os parisienses, mas certamente irá perceber a força e a ousadia da música complexa do compositor: em um momento, ela é capaz de desossar tudo pela frente; em outro, as notas escorrem sinuosas como no famoso relógio derretido de Dali. Há cem anos, a arte estava mais disposta para a briga do que hoje. Tem ideia do que era a arte moderna em 1913? 

MCMXIII

1913 foi um ano incrível. Enquanto Ezra Pound apresentava Amy Lowell e Robert Frost a James Joyce, arrastando-os ao encontro de Yeats, William Carlos Williams, D. H. Lawrence e a editores da Poetry, The New Freewoman e Blast, os Estados Unidos realizavam sua Exposição Internacional de Arte Moderna. 1300 obras de arte exibiam suas curvas a 75 mil pessoas, que não entendiam nada — como a maior parte do público de nossa Semana de Arte Moderna, nove anos depois. Mas já era tarde: o modernismo estava dentro de casa e deitado no sofá da sala. Delacroix, ali naquele canto; 18 Van Goghs, 14 Cézannes, dois Gauguins, Matisse, Picabia e Braque; Mulher com um pote de mostarda, de Picasso, estava lá; os pés azuis de quatro dedos, representados em Nu azul, de Leon Stein, intrigaram o público, que zombou como pôde de Nu descendo uma escada, de Duchamp. Roosevelt — historiador em Harvard, antropólogo amador, futuro 32º presidente dos EUA — escreveu, não sem razão, que o quadro poderia se chamar “Um homem bem-vestido subindo uma escada”. “A arte é um sinal de vida”, declararam, não por acaso, os organizadores da exposição norte-americana. “Não pode haver vida sem mudança. Temer o diferente ou pouco conhecido é temer a própria vida”. É uma frase e tanto, não é? Com ela em seu Gulliver, voltemos à noite de 29 de maio de 1913.

La consagración de la primavera

A plateia — acostumada com balés a deslizar no macio azul do mar — não estava preparada para o maremoto e a tempestade de ideias de A sagração da primavera e, claro, sentiu-se ofendida com o que viu e ouviu. E o pogo alastrou-se, dividindo os que apoiavam e os que vaiavam tanto a música descomunal como a arte cênica desconjuntada que Vaslav Nijinsky criou. Nunca é demais lembrar que o coreógrafo russo acertou em cheio ao dar à Sagração a mesma dose de ousadia que ela recebeu de Stravinsky. “Logo que o fagote terminou sua frase no registro mais alto, na abertura do balé, as risadas estouraram”, diz Schonberg. “Em seguida vieram os assobios e os apupos”.

Já reparou nos títulos que Stravinsky criou para A sagração? “A adoração da Terra”, “Dança das adolescentes”, “Jogo do rapto”, “Círculos místicos das adolescentes”, “Ação ritual dos ancestrais”, “Dança do sacríficio” e por aí vai. De onde vêm esses temas? Enquanto escrevia a música para o balé O pássaro de fogo, Stravinsky teve uma ideia: “eu sonhava com uma cena de um ritual pagão em que uma virgem escolhida para um sacrifício dançava até a morte.” Mas os parisienses não quiseram saber de nada disso.

O barulho era tanto que os bailarinos não conseguiam ouvir a música, corajosamente executada até o fim pelos músicos atentos à partitura e aos ritmos infernais que tiravam dos instrumentos. Stravinsky escreveu mais tarde que, inconformado com a reação da plateia, levantou-se e foi para os bastidores, onde ficou atrás de Nijinsky, “segurando a cauda de seu fraque”, enquanto o coreógrafo gritava, em cima de uma cadeira, “os números da contagem da dança para seus bailarinos como se fosse um timoneiro”.

As luzes da creche foram acesas e apagadas, mas não conseguiram conter o recreio. “A condessa de Pourtalès levantou-se em sua frisa, brandindo seu leque e gritou: 'Esta é a primeira vez em setenta anos que alguém se atreve a fazer pouco de mim'”, conta Schonberg. Pausa. Vamos falar um pouco da condessa. Toma um fósforo. Acende teu cigarro. É engraçado pensar que, história afora, a condessa de Pourtalès hoje é mais lembrada não pela tradição de seus laços sanguíneos, ou por seu retrato pintado por Renoir, mas por não ter conseguido — em um momento em que seu coração palpitou mais forte — ficar em silêncio, como deveria. “Que sejam expulsas as putas setentonas!” — foi o que gritou Florent Schimitt, do alto das galerias do teatro, conta Eduardo Rincón no texto que escreveu para o CD de A sagração da primavera lançado pela Folha de S. Paulo há alguns anos.

Não dá para não lembrar que houve a época em que a música de Beethoven pareceu agressiva ao público, especialmente, porque as piruetas rítmicas e sonoras do compositor alemão, às vezes, parecem exigir uns dois dedinhos a mais dos músicos. "[Le sacre du printemps] significou para a primeira metade do século XX o que a Nona de Beethoven e Tristan significaram para o século anterior", diz Schonberg. Mas em termos comparativos, a reação do público à partitura escrita por Stravinsky como um balé até hoje impressiona pela selvageria. O que você não daria para estar ali, nessa noite de espírito transgressor por toda parte?

Bem, pena não termos um Delorean para nos levar de volta à noite de estreia de A sagração da primavera, mas temos o YouTube para assistir a dois vídeos que resgatam o espírito daquela noite: o primeiro é a recriação do que foi a pancadaria de estreia da Sagração em Paris, como mostra o bom filme Coco Chanel e Igor Stravinsky; o segundo é Stranvinsky and the ballets russes (BelAir Classiques), DVD-tributo que recria as montagens de O pássaro de fogo e de A sagração da primavera, da forma mais fiel possível às apresentações, respectivamente, de 1910 e 1913. A gravação não foi no Théâtre des Champs Élysées e, sim, no Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, em 2008. É a única diferença? É A sagração da primavera com os mesmos figurinos e cenários do espetáculo original. “Havia somente os testemunhos de críticos, público, músicos e outros envolvidos com aquela conturbada noite de 29 de maio de 1913”, escreveu João Marcos Coelho, em artigo do jornal O Estado de S. Paulo. “(…) Assistir a Sagração hoje tal como subiu ao palco (…) nos ajuda bastante a compreender o espanto e a intolerância da crítica e do público parisiense em 1913”. É sublime.

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Ilustrações de Vanessa Lira

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Assista a recriação de A sagração da primavera em Paris, em 29 de maio de 1913, do filme Coco Chanel e Igor Stravinsky.

 

 

 

 

Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 41 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou editor do site Tertúlia e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Vanessa Lira é artista plástica e utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão. Escreve desde os 10 anos. É mãe de Theo de 2 anos. Esposa, amiga e companheira de Anderson Lira, que lhe cedeu o nome, há quase 8 anos. Trabalha com gestão educacional no terceiro setor. Blog: http://macroolhar.wordpress.com/

 

 

 

 

 

  • 01 Intro

  • 02 Augúrios de primavera-dança dos adolescentes (2)

  • 03 Jogo do rapto

  • 04 Rondas da primavera (2)

  • 05 Jogos das tribos rivais (2)

  • 06 Procissão do sábio

  • 07 O sábio (2)

  • 08 dança da terra (2)

  • 12 evocação dos ancestrais

  • 12 evocação dos ancestrais

  • 13 Ação ritual dos ancestrais (2)

  • 14 Sança do sacrifício.A eleita

02/06/2013