)Cinema(

Muito siso e pouco riso fazem de Jack um infeliz / O iluminado: Stephen King: Stanley Kubrick

Alessandro Yuri Alegrette

O grande problema para quem lê O Iluminado, de Stephen King, depois de ter visto o filme de Stanley Kubrick que se tornou um clássico do cinema de horror, é não procurar estabelecer uma relação entre o romance e o filme. É uma tarefa difícil, ainda mais porque as assustadoras imagens das irmãs gêmeas no corredor do hotel e, principalmente, de Jack Torrence, encarnado por Jack Nicholson em uma atuação tão marcante que ele não conseguiu mais se desprender totalmente dela, voltando a encarná-la sucessivas vezes, ficam impressas na memória. Por isso, para que se possa apreciar melhor o romance de King, é necessário ter em mente que apesar de ambos, livro e filme, terem o mesmo ponto de partida, ou seja,  a mesma trama, leitor e espectador estão diante de duas obras distintas e, por isso, precisam ser analisadas de forma diferenciada. 

O Iluminado não é uma simples história de fantasmas que tem sua origem no pouco lembrado O Castelo de Otranto, de Horace Walpole (citado no livro por King). Durante o caminho, o leitor não terá dúvida de que o sinistro Overlook hotel é uma releitura de King do velho e batido tema da casa mal assombrada, embora em O iluminado, o autor procure ir muito além do susto fácil. Conforme já foi observado por aqueles que estudam sua obra, King, como ficcionista, se sobressai quando aborda os temores que fazem parte da vida cotidiana. 

Os fantasmas que apavoram a família Torrence, ao longo do desenvolvimento da narrativa de O Iluminado, encontram ressonância em temores do mundo real; esses temores reais — como o alcoolismo, a violência doméstica, a instabilidade emocional provocada até mesmo pela sensação de fracasso na vida profissional — gradativamente enfraquecem e desestabilizam a frágil harmonia familiar dos Torrence e intensificam-se quando a ação é transposta para o interior do Overlook hotel, onde o horror encontra o espaço ideal para existir e  se manifestar em sua plenitude. 

Um dos grandes méritos do livro é o modo como King conduz sua narrativa. Optando pela focalização onisciente, o autor permite que o leitor tenha livre acesso, às vezes, por meio de flashbacks aos pensamentos dos três protagonistas: Jack, Wendy e Danny, que se torna o eixo central da trama e “o iluminado” que dá título ao livro.

Chama a atenção no enredo a instauração de uma contínua atmosfera de terror, onde o leitor em alguns momentos é obrigado a preencher as lacunas soltas da narrativa, conforme demonstra a passagem (cortada no filme de Kubrick), em que Danny está preso em um buraco na neve e sente o que define ser “um toque gelado de dedos” tentando agarrar suas pernas. Dessa forma, King trabalha o terror de modo ambíguo, e o leitor não consegue saber exatamente se os eventos são reais ou se são delírios dos personagens — característica recorrente do universo gótico norte-americano.

Apesar da criação de eficientes elementos de terror, O Iluminado se destaca por suas cenas de horror, algumas bastante assustadoras, tais como, a aparição fantasmagórica do misterioso quarto 217. Outro momento, onde ocorre a manifestação do sobrenatural, é quando Jack tem contato com os antigos moradores do Orlock Hotel. Neste, é por meio de citações e, principalmente, pela presença de um sinistro relógio marcando o tempo, criando assim um clima de permanente tensão, que O Iluminado estabelece uma relação intertextual muito interessante com A máscara da morte rubra, conto escrito por Edgar Allan Poe,  apontado pelo próprio King como uma referência constante em seus textos.

É a ousada abordagem do universo gótico, principalmente focando no horror que não está apenas inserido na esfera do sobrenatural e, também, de modo mais sutil e, por isso, mais assustador, pode ter suas origens no terreno do subjetivo, e, até mesmo no plano do inconsciente, remetendo assim ao unheimlich freudiano, o que torna O Iluminado um dos  melhores livros de Stephen King, que, assim como Poe, é um dos grandes autores da literatura gótica de horror/ terror. Com certeza, quem se aventurar em entrar nos corredores do Overlook hotel, ficará preso como imã a ele e, assim como Jack Torrance e sua família, será envolvido por seus mistérios fascinantes e terríveis ao mesmo tempo, de modo a sentir a sensação de “horror prazeroso”, que somente King em suas boas obras é capaz de proporcionar.

 

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Alessandro Yuri Alegrette. Sou doutorando em Estudos Literários da UNESP, de Araraquara. Tenho gosto cinematográfico eclético: clássicos de horror gótico da Universal e da Hammer, filmes de suspense de Alfred Hitchcock e Roman Polanski, comédias sarcásticas, dramas de Billy Wilder, aventura e fantasia dirigidas por Steven Spielberg e George Lucas, cinema-cabeça de David Cronenberg, David Lynch, Stanley Kubrick, Lars Von Trier, além dos filmes alucinados e transgressivos de Quentin Tarantino. Minhas leituras incluem histórias em quadrinhos, principalmente as pirações de Alan Moore, Frank Miller e Neil Gaiman, e textos de ficção científica (e neste gênero meu filme favorito é Blade Runner - o caçador de Andróides). Gosto de literatura em geral, embora tenha mais interesse em obras cuja origem remontam ao sobrenatural, e, dentre elas, minhas preferidas são Frankenstein, O médico e o monstro, Drácula e O Morro dos Ventos Uivantes, romance que atualmente é meu objeto de pesquisa.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

  • 01 - Main Title

  • 02 - Rocky Mountains

  • 03 - Lontano

  • 04 - Music for Strings, Percussion and Celesta

  • 05 - Urenja (excerpt)

  • 06 - The Awakening of Jacob

  • 07 - De Natura Sonoris No. 2

  • 08 - Home

11/05/2013