)Sarau(

Diversão para toda família / conto;

Paulino Júnior

Sinto o coração bater mais forte, então canto e assobio, porque estou voltando pra casa. Quero encontrar os olhares de boas-vindas e rir do exagero da minha mãe ao dizer que já estava preocupada pelo simples atraso de alguns minutos. Estou pensando em uma brincadeira que vai fazer minha irmã fingir que ficou nervosa, para logo depois soltar o sorriso que não conseguiu segurar. Vou retribuir a alegria do meu irmãozinho e pegá-lo no colo e dar uns bons apertos em suas bochechas rechonchudas.

Com o meu pai o papo é mais sério, ele vai querer saber como estão as aulas no colégio particular onde só estuda gente rica e perguntar se eu já decidi o que vou ser. Ele quer que eu seja advogado, já minha mãe vive dizendo que prefere um médico. Sei que vou ouvir de novo a história sobre ser jogador de futebol, que é uma coisa difícil e que eu devo aproveitar a oportunidade de poder só estudar.

Vou dizer que a escola vai indo muito bem, que os professores são ótimos, que estou pra escolher em ser advogado, mas minha cabeça não sai da medicina, embora meu coração esteja no futebol. Eles vão rir e, balançando a cabeça, vão dizer que eu não tomo jeito.

Minha irmã vai querer fazer inveja e chamar a atenção. Ela está muito contente na faculdade e suas notas são as melhores da turma. Então ela vai dizer que nossos pais não vão se arrepender pelo carro que deram de presente por ela ter passado no vestibular.

Quando eu chegar, vão estar me esperando para a janta. Vou matar a fome com um pedação de lasanha e um copão de refrigerante, depois vou devorar o bolo de chocolate. Huuuummm, tem sorvete também! Até já ouço minha mãe me perguntando quantas vezes ela vai ter que me dizer pra comer devagar e não falar de boca cheia.

Vamos todos sentar em frente à TV para assistir a novela e as propagandas de produtos que vamos escolher para comprar. Ainda vai sobrar tempo pra ficar no meu quarto jogando videogame ou conversando na internet, antes de dormir na minha confortável cama. Pô, preciso ligar do meu celular para os amigos e marcar uma joguinho pra amanhã no finalzinho da tarde, depois dos estudos.

Talvez ainda hoje eu veja o carro novo que papai queria tanto e que a mamãe ficou animada pra comprar. Meu pai é bom no que faz e todo mundo no trabalho gosta dele. Ah, mas minha mãe vai querer me mostrar seu vestido novo e vai rodar no meio da sala para que eu diga que é bonito. E eu vou dizer que é muito mais bonito do que o vestido que minha irmã comprou semana passada no shopping.

Vamos rir do meu irmãozinho que não para quieto, querendo nos imitar e matraqueando suas palavras sem sentido. Meu pai vai querer participar da troca de risos e vai lembrar uma piada que ouviu no trabalho. Depois minha mãe vai contar algo engraçado que viu na TV. E minha irmã, bem ao seu jeito, vai querer terminar zombando da nossa cara. Daí, vou fazer uma piadinha sobre seu namorado e ela vai fechar a cara e ir para seu quarto fingindo que está brava. Então olharemos um pro outro achando graça do que eu falei, mas rindo baixinho para não deixar minha irmã brava de verdade. Em casa é assim, diversão para toda a família.

Pronto, estou em casa! Chega de semáforos por hoje. Agora é só esperar secar as lágrimas da minha mãe e seu supercílio cicatrizar. Esperar passar a febre que faz meu irmãozinho tremer e esperar que o médico atenda. Esperar minha irmã ser aceita de volta depois que ficou grávida. E é só meu pai arranjar um emprego, depois que o efeito do álcool passar. Quem sabe amanhã...

<>_<>

Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho

<>_<>

Paulino Júnior é graduado em Letras e mestre em Teoria Literária pela UNESP. Já viveu de literatura, lecionando em instituições de ensino, até que decidiu viver pela literatura e tornou-se ficcionista sem vínculo empregatício. Possui contos publicados em antologias de concursos literários e em periódicos. Recentemente, teve um conto publicado na Coyote nº 24 e outro escolhido como epígrafe para a coletânea de artigos científicos Jovens, trabalho e educação: A conexão subalterna de formação para o capital (Ed. Mercado de Letras). Vive em Florianópolis desde 2005. Reúne seu trabalho publicado no LABUTA.

<>_<>

Ubirajara Gonçalves Filho, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo, lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, com adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte...

 

  • little quail and the mad birds - família que briga unida permanece unida

25/04/2013