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A trilogia Batmacumba / Batman begins (EUA, Inglaterra, 2005); O cavaleiro das trevas (The dark knights, EUA, 2008); O cavaleiro das trevas ressurge (The dark knight rises, EUA, 2012).

Renato Alessandro dos Santos

Não haveria Batman sem Freud. A culpa que acompanha Bruce Wayne (Christian Bale) pela morte dos pais, o medo de morcegos, complexo de Édipo etc., tudo está em Batman begins (EUA, Inglaterra, 2005), primeiro dos três filmes que tem no herói da DC Comics a sombria figura do ser humano atormentado por seu passado. Depois de O cavaleiro das trevas (The dark knights, EUA, 2008), a trilogia toma forma com o lançamento de O cavaleiro das trevas ressurge (The dark knight rises, EUA, 2012). Então, por que não ver os três filmes de uma vez, a começar pelo primeiro?

Já havia visto Batman begins e O cavaleiro das trevas, mas não dá para ver o novo e último Batman e desperdiçar a chance de ver os três filmes de uma vez, como se todos fossem uma única película, não é? No notebook com HD de 1 terabyte, os três últimos filmes do Batman estão ali, entre dezenas de filmes baixados via torrent. Já experimentou ligar um projetor e um aparelho de som em seu notebook? Como você nunca pensou nisso?! A TV de 42 polegadas ficará esquecida na sala para sempre, a partir do dia em que assistir a um filme dessa maneira, com a imagem projetada na parede em branco.

O cavaleiro das trevas ressurge, nessas circunstâncias, teria de ser precedido pelos outros dois filmes. E cá estamos. Quer dizer que, vírgula, se Freud não tivesse criado a psicanálise, vírgula, Batman não existiria? Faça as contas. Em Batman begins, Bruce Wayne cai em um buraco; em seguida, assustando-o, morcegos passam voando por ele como se fossem o intrépido coelhinho velocista de Alice no país das maravilhas. Não há como não ficar com t.r.a.u.m.a. de morcegos, não é? E Wayne ouviu do pai: “por que caímos, Bruce?”, e, antes do filho responder, o pai explica: “para aprendermos a nos levantar”. Auto-ajuda? Talvez, mas também é preciso mergulhar no enredo soturno que compõe a vida de Bruce Wayne para entender como essas palavras paternas serão caras para o filho e para seu Lego, sim, ninguém menos que Batman.

Wayne passa boa parte do filme tentando se desvencilhar da culpa pela morte dos pais, assassinados ao deixarem pela metade a ópera a que foram assistir; saem do teatro porque o filho — traumatizado ainda pela recordação dos morcegos — vê no palco uma encenação que lembra exatamente a aparição sombria no buraco onde caiu. Vamos pensar desta forma: se você estiver em um teatro, e seu filho, assustado com alguma coisa, pedir para irem embora, você irá, certo? Qualquer pai faria o que Bruce Wayne Pai fez, mas o filho, dali em diante, sofrerá muito antes de compreender que não é culpado pela morte nem do pai nem da mãe. Freud explicita. Já em outra cena, adulto, ao voltar para casa, Bruce vê sobre a mesa um retrato dos pais. Ele acaricia levemente o rosto da mãe na fotografia. Complexo de Édipo? Freud retorna das trevas e sorri. Ao focar nessa tentativa de superar a morte dos pais, o filme se alicerça e para em pé, para satisfação dos fãs de Batman que perceberam que Batman begins é muito, muito bom.

O Coringa de Ledger

No primeiro filme, o vilão é Ra’s Al Ghul (Liam Neeson), líder da Liga das Sombras; Schindler (hê, hê) é competente, mas como vilão é bem menos infernal do que o Coringa insanamente interpretado por Heathcliff Ledger, que em O cavaleiro das trevas rouba todo o filme para si. Não poderia ser diferente. Ledger criou um Coringa inesquecível, que será referência para a molecada que, não pelas histórias em quadrinhos, mas com este filme, acabou conhecendo no cinema o arquirrival de Batman. O cavaleiro das trevas mostra o embate épico entre os dois, enquanto nós, segurando com as duas mãos a capa preta de Batman, acompanhamos tudo de perto, interessados em mais uma luta maniqueísta entre o bem e o mal.

Quando vi o filme pela primeira vez, gostei bastante, mas revendo-o, começou a incomodar muito a voz cavernosa do Batman. Que voz é aquela?! Tive a impressão de que aquela voz só podia ser a de um Batman que, após três meses na batcaverna, sai dali sem pronunciar uma palavra sequer; então, ele fala alguma coisa e daquela garganta profunda saem uns cem mil morcegos (+1) de uma vez. Tudo bem. Ele não precisava ter a “voz” de um golfinho, mas também não precisava sussurrar como o Chefão Belzebu Flamejante lá de baixo.

Vale a pena ver O cavaleiro das trevas, especialmente, por causa do Coringa. Repare na cena em que ele explode o hospital, quando a bomba parece ter falhado. Ele (de costas para a câmera) faz um gesto de desapontamento com os ombros que é muito engraçado — mesmo que esteja tentando destruir um hospital. A bomba funciona, finalmente, e o prédio inteiro vem abaixo. Hilário? Não. Mas o dar de ombros do Coringa é muito engraçado. Muito. Engraçado. Mesmo. Prefiro o Coringa de Ledger ao de Jack Nicholson. Sem pestanejar duas vezes.

Além do Coringa, outro inimigo de Batman e do comissário Gordon é o Duas-Caras (Aaron Eckhart). Essa dualidade é a marca da franquia Batman, e, neste caso, há de se pensar na distinção entre o bem e o mal, entre trevas e lume, ou entre cada lado do rosto do Duas-Caras. Batman vai pela sombra, perseguindo seus fantasmas, enquanto tenta salvar Gotham City. Se alguém não prestar atenção, ficará difícil entender por que Batman vira um proscrito, perseguido pela polícia. É que ele já era persona non grata na cidade, mas será a morte de Harvey Dent, o Duas-Caras, que jogará Batman mais ainda na escuridão. Ele retornará de lá, claro, mas só em O cavaleiro das trevas ressurge, lançado em 2012, fechando uma trilogia que, franquiamente, parece não se encerrar neste terceiro filme.

O cavaleiro das trevas ressurge

Neste novo Batman, Robin (Joseph Gordon-Levitt) e a Mulher-Gato (Anne Hathaway) chegam atrasados para a festa, mas são eles que não a deixam terminar. Agora, Bruce Wayne está em casa, afastado de tudo e de todos, ressentido porque as pessoas veem seu Lego da Escuridão não como o guardião da cidade, mas como o morcego do mal. Se a voz do Batman continua um problema, esse não é um problema para mais um novo vilão, Bane (Tom Hardy), um sujeito que tem um cinto de castidade no rosto e uma voz de locutor de rádio. É uma voz bonita de se ouvir.

O enredo é mais do mesmo, o que não quer dizer que não é bom: Bruce Wayne é jogado em uma prisão, de onde sairá só quando voltar a acreditar em si mesmo, o que é um clichê, mas também uma recompensa e tanto. Enquanto isso, na Batcaverna, Gotham é tomada pelos bandidos e, claro, pelo Chefão Voz de Caramelo, que pretende explodir uma bomba atômica para que a “sociedade” renasça como fênix. Harvey Dent ainda é lembrado como o herói morto por Batman, enquanto o comissário Gordon não vê a hora de contar a todos que a história não é bem assim, mas até isso acontecer o espectador ficará boquiaberto com a Mulher-Gato vestindo… Prada? Não, mas uma roupa de couro preto dominatrix de estralar o chicote. Cabe lembrar que Halle Berry será sempre uma referência inesquecível a esse papel. E que fim levou Robin? Robin e Batman não ficam flertando um com o outro. Por enquanto. Mas há o que há entre os dois: o desejo Jedi de querer lutar contra o lado escuro da força.

Duvido que muitos fãs de Batman ficaram felizes com O cavaleiro das trevas ressurge, porque, do interesse inicial com Batman begins, resulta um desinteresse gradativo que, com esse último Batman, implica pensar que um filme é, antes de tudo, um produto comercial e, como tal, tem de ser cheio de concessões para render o dízimo hollywoodiano que franquias como essa têm de dar. Por isso, fãs de Batman: voltem aos quadrinhos, pois lá Batman é o legítimo Desossador das Trevas que todo fã espera encontrar. Ou vamos todos assistir a Star Wars, uma vez que o lado escuro da força foi lembrado aqui. E Bale, Christian Bale: volte a mostrar as costelas como fez em O maquinista e, ah, sim, para a garganta nada de conhaque, com mel e limão. Parece que só mel resolve.

 

 

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Ilustrações de Helton Souto (da série Aos 15 anos eu nasci em Gotham City)

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Batman em movimento: Sarah Johnson

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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19/04/2013