)Work In Progress(

Reticências /

Renato Alessandro dos Santos

Três livros me aguardam sobre a mesa. Se fosse um só, eu poderia escrever: the book is on the table. Mas três livros ficam estranhos: the books are... Melhor deixar Books on the table.

Estou em aquecimento. Estralo os dedos. Esfrego as mãos como se passasse um creme imaginário do qual prescindem, porque não estão ásperas como as do pai, que prefere a enxada à folha em branco, deixando a caneta sobre a mesa. The pen is on the tableE cá estamos nós todos, ou seja, eu e você. Tudo bem por aí? Ah, já pensou em flu-tu-ar-no-es-pa-ço?

F.l.u.t.u.a.r.n.o.e.s.p.a.ç.o: já pensou nisso? Toca aqui.

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Quer vir comigo? Vamos levitar em slow motion dentro desta cápsula que simula gravidade zero?! Hmmm… Você vem agora? Não? Mais tarde? Não? Tudo bem. Não tem importância. Não estaremos flu-tu-an-do, mas ao menos já estamos aqui. Estou com você. Entre os dedos. Quer dizer, entre os dedos, não, mas embaixo das pontas dos dedos. No teclado. Dedilhando cada tecla do computador. Por que flutuar? Por que não? Da criança ao velhinho mais gentil, a ideia de flutuar quando apetecer vez ou outra já se pendurou no trapézio de muita gente por aí. Pode ter certeza disso. Além de flutuar, também gostaria de imitar Chuck Berry, versão 1958, esmerilhando a guitarra, enquanto me esfrego pelo chão solando “Johnny B. Goode”, que nem Marty McFly em De volta para o futuro.

E cá estamos, sem sair do lugar. Se for embora agora, você perde; se ficar aí até o fim, você ganha. O quê? O que acha desta medalha imaginária que ganhará por ter chegado até o fim do texto? Sabia que, mundo afora, muita gente anda ficando pelo meio do caminho, deixando muitos textos incompletos? Em sua finitude inacabada, como um bebê que vem à luz antes da hora, enquanto lá fora as trevas ainda ditam as regras, textos grandes demais  e vitaminados a chá de bambu  deixam de ser adotados pela maioria dos leitores, e então esses textos crescem órfãos e logo são esquecidos, como alguém passado para trás por pura vilania. Certo, e daí? Daí que não estaremos aqui para sempre, à-toa, ouvindo música ou o marejar das gotas da chuva no telhado, lendo um bom livro ou assistindo a um desses filmes que faz alguma diferença não a outras pessoas, mas a nós mesmos. Zás-trás & num átimo os fogos de artifício brilham até o fim, restando a sensação de que “valeu!”, porque "valeu" mesmo!

Tudo bem com você? 

Puxa, que bom!

E voar como Peter Pan, que tal?  “I used to fly like Peter Pan”.

Porque você pode ter a idade que for, mas se for perguntado sobre uma coisa impossível que gostaria de fazer, certamente, dirá que quer voar — ou flutuar. É um sonho de infância.

Eu, por exemplo, voaria muito de madrugada. Com duas estrelas nos olhos, se é que me entende. Lembre-se: a madrugada não foi feita para ficarmos apagados em casa. Emily escreveu:

“A manhã se dá a todos. A noite, para alguns poucos; a raros afortunados, a luz da madrugada.”

O quê? O que você faria se voasse?

Eu sairia voando por aí, de madrugada, como já sabe, mas não colocaria a cueca vermelha em cima da calça de lycra emprestada da esposa. As superman. Voaria com uma jaqueta que comprei quando fui viajar além da cordilheira; voaria com a jaqueta azul impermeável, porque deve fazer frio e pode chover a qualquer momento lá em cima; claro que, se estiver frio, posso voltar para casa e pôr um cachecol. No calor, poderia levar uma cerveja recém-tirada do congelador. Tentaria voar durante o dia também, mas tomaria mais cuidado, porque se as pessoas me descobrissem esperariam de mim uma tendência ao heroísmo que não tenho. Ainda. Se voasse, poderia também usar esse talento peculiar para salvar pessoas no alto de prédios em chamas. Sem dúvida faria isso. Se Alguém Muito Especial, em algum lugar, nesta ou noutra dimensão, estiver ouvindo agora, pode confiar em mim: salvaria muita gente! Meu diabinho pessoal alerta que posso não estar falando a verdade; então, seria necessário ver, ou melhor, voar para crer. Horrível. Eu sei.

Desculpe.

Deixemos as asas de lado, enquanto ainda conversamos sobre qualquer coisa. Por exemplo: como está você agora? Já almoçou? Está com fome? Cansad@? Quer aprender alguma coisa? Bem, não podemos fazer absolutamente nada em nenhuma dessas circunstâncias, mas podemos deixar o tempo passar entre nossos corpos interligados, agora, por nossas mentes, por sua vez conectadas uma à outra como um capacete ligado a outro por fios, com cada corpo em uma mesa e ambos prestes a virar Frankenstein.

Ando fazendo muita coisa ultimamente. Quer dizer, para falar a verdade, quase nada. Nada significa nada. Palavrinha inventada pelos deuses prestes a ir um pouquinho mais longe com suas deusas. Eles perguntavam: “hmmm, e agora?” E recebiam delas: “e, agora, nada”. Nada é algo que também é importante. O que seria da extinta série Seinfield se o nada não existisse? Sim, nada. Nada é tudo? Não, nada é nada e, muitas vezes, fazer nada é sinal de algo ruim  o que não é o nosso caso agora, uma vez que estamos a fazer nada com gosto; mas é ruim no sentido de que a pessoa está com uma maleita secular e nada pode fazer para mudar a situação. Então, é preciso... lembrar de... Allen Ginsberg em uma palestra, quando sugeriu a todos que, por alguns minutos, ninguém fizesse nada, e todos ficaram lá, sem fazer nada. Imagine a cena: um auditório abarrotado de um monte de gente não fazendo nada. Mas você concorda que, mesmo sem fazer nada, eles estavam fazendo alguma coisa?

Pronto. Acabo de desligar o telefone. Larissa ligou. Não a conheço. Queria saber se eu pagaria R$ 29,90 por um plano que inclui chamadas locais e interurbanas num pacote incrível e irrecusável; não recusei, claro, e agora tenho um plano de telefone novo. Para quê?! Não sei. Ninguém mais usa telefone fixo, não é?

Chegou até aqui. Parabéns. A medalha imaginária é sua!

Eu, de minha parte, vou ver um filme. Se tudo der certo, Vertigo. Mestre Hichicok, Hitchcok, Hitchok... Que inferno! Como se escreve Hithcock?! É horrível ter de parar de escrever só para descobrir como se escreve Hitchchock. E é assim: Hitchcock. Sem internet, deu um trabalhão danado. Não pude perguntar ao Google, então, fui aos livros. Onde está A marcha fúnebre das marionetes?! Até achar o livro na estante... Nada. Olá, Nada. Você de novo? Então, fui até 300 filmes para ver antes de morrer — e Alexandre Matias sabe das coisas. Hitchcock. Ponto.

Ah, os três livros sobre a mesa?

Criaturas flamejantes, Reações psicóticas e Rumo à estação Islândia. Agora sim: ponto. Mas por que não pontos?

(...) 

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DICKINSON, Emily. Poemas escolhidos. Seleção, tradução e introdução de Ivo Bender. Porto Alegre: L&PM, 2008.

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco),Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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13/04/2013