)Cinema(

Ver ou não ver "A estrada"? / "A estrada";

Renato Alessandro dos Santos

Preferiria não ter visto A estrada, mas ainda bem que vi. É um dos filmes mais tristes que há por aí. As lágrimas vão marejar seus olhos. Ainda mais se você for pai de um garoto.

Em A estrada, acompanhamos Viggo Mortensen e um menino, seu filho, andando para lá e para cá, sempre na estrada, em busca do que comer e beber, enquanto escapam de outras pessoas que, agora, se tornaram canibais, sem qualquer resquício de ética. Acabou. O mundo, como o conhecemos, acabou. Não há meio-termo. O mundo de A estrada é a Terra pós-hecatombe ou qualquer outra tragédia capaz de exterminar a raça humana e, de quebra, arrasar seu habitat. As cores são frias, e frias são também as relações de convivência. Que desaparecem. A lei do mais forte impera, e nesse day after perpétuo, as pessoas que sobreviveram ainda resistem, mas sem expectativa, sem esperança. Imagine: tudo aquilo por que você luta deixa de existir do dia para a noite; não há mais dinheiro (a cena em que há algumas notas calcinadas de 100 dólares caídas no chão como lixo sugere o que virou essa sociedade pós-hecatombe); família, igreja, política, nada, nada, nada. Todos os animais, à exceção de nosotros, morreram. É nessa terra devastada que pai e filho têm de se mover, fugindo das hordas canibais, os “homens maus”, como o pai sempre ressalta ao filho.

É um filme que deve ser visto para darmos mais valor à vida e, também, às pessoas que fazem parte de nosso círculo familiar ou de amizade. Nada dura para sempre, e sem ninguém para viver, e sem onde viver, para quê a vida?

Não é um filme para ser visto a qualquer hora. Hoje, passados alguns anos desde a única vez que vi A estrada, não consigo deixar de pensar na reação de meu filho, depois que contei a história a ele. Lembro de ter assistido A estrada com o coração na mão, como se diz. Não há outra forma de ver esse filme, se você tem um filho pequeno, como era o meu caso naquele ano, porque no filme, ao lado do Mortensen-pai e do filho pelas estradas, sofri com eles, e é um sofrimento que não termina com os créditos do filme. A coisa fica pior e, encerrada a sessão, comentei com Théo sobre o filme. Por que fiz isso? Ele ficou arrasado. Na altura de seus nove anos, em 2009, ele não soube entender o porquê de tanto sofrimento. Comentei com Beto Canales, colaborador de Tertúlia, pai de Tomás, e pedi a ele que visse o filme. Por que fiz isso? Beto sofreu com o filme. Muito. Enfim, se é pai ou não, veja esse filme, nem que seja uma única vez. Mais do que isso não será preciso. Ou possível. Há filmes que têm sobre nós um poder de hipnose superior ao que podemos compreender. Não é um filme fácil e, por isso, é para poucos. É uma história com um pai. E seu filho. Sem rumo pela estrada. Desprotegidos e sem a certeza de que estarão vivos no dia seguinte, quando o sol nascer. É uma experiência inesquecível. Bem mais para o mal.

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

 

  • 03 - Road

30/03/2013