)Sarau(

Quatro dos Cinco Estigmas de um Corsário Cinza /

Alex Rios

I.             Máculas

As fotos que tiraram de mim

não tinham cores.

Eram apenas fotos.

Não diziam nada sobre dores,

Não mostravam os fatos, ou relatos, apenas eram fotos.

 

As fotos que tiraram de mim são apenas fotos,

e como fotos, mostravam apenas a fração milesimal do segundo, de um instante, em um mundo,

real?

            Abstrato?

            Imoral?

            Substrato?

 

Mas as fotos que tiraram de mim não traziam momentos, jaziam sentimentos.

Que as fotos tiradas de mim transportem o câncer de uma vida, a alma.

 

II.           Autobiografia do Corsário

Minha fé é turva, obscura, lúgubre. O vento sibila; as cortinas movem-se; sinto sua presença aqui. A chuva torrente mostra suas forças, desatina sobre a face do mar, assim como o vinho no copo subleva-se em minhas mãos velhas. Vejo no copo a minha vida, quando sobre a mesa a paz resoluta reina no líquido sagrado; entretanto, em minhas mãos, o líquido enfurece, bate de um lado a outro do copo, agita-se; então logo procuro recolocá-lo em seu estado inicial.

III.          Empirismo

Minha solidão é como um solilóquio feito por fragmentos de tempos passados.

           

O mar revolto ataca a proa;

            A tempestade ataca o navio;

A água cai lá fora;

            A chuva desaba aqui dentro.

 

O sol não mais brilha, e a lua que antes luzia, hoje, nem ao menos é vista em meio ao céu cinza. Ouço vozes, gritos, sussurros, e todos saem de minha boca.

Calo-me;

...

mas não deixo de ouvi-las.

 

Minha solidão ainda é um solilóquio.

Minha solidão.

.

IV.         Onírico

Já disse, não chegaremos lá.

Tome, tome mais.

O Captain! my Captain!

Silêncio. Lábios pálidos.

Desenhava a clave de Dó na pauta, uma das últimas coisas que lembro. A pena segue o mar revolto. Desliza, mancha o papel. Poseidon lavrou o destino. Intolerância. Tirania. Faith.

Eis que surge Leviatã, erguido do papel lavrado, negro de tinta e sedento de cobiça. Abraça, envolve a pena. Assim como Laocoonte, luto. Em vão. As serpentes rodeiam o barco.

Soem! Soem tuas trombetas de morte e avisem aos três profetas que em breve irei encontrá-los. Hades aguarda. Checo os bolsos. Moedas ao Creonte. Tão breve ao encontro de Milton, Whitman e Blake. Soem! Soem tuas trombetas!

O Captain! My Captain! Levanta-te e ouça!

As trombetas tocam... verdades lhe são profanadas:

Better to reign in Hell, than serve in Heav’n.

De mais nada, nada mais. Apenas ouça o mórbido lamento. Esfarelam-se ao vento, as razões.

Dê ao homem, aquilo que é do homem: a Fé.

Penso que, com o arco, tracei meu destino. Voe Albatroz, voe tão alto quanto Ícaro, entretanto tão grandiosa ave, com tiro certeiro, teve sua vida ceifada

... só me resta então jogar xadrez  com a morte.

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Ilustrações de Helton Souto

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Alex Rios é chato, cabeçudo, gordinho e baixinho, adjetivos incontestáveis. Lê poesia – mas isso não significa que a entende. É formado em Letras pela UNESP Araraquara. É professor de inglês, mas trabalha também. Atualmente é guitarrista, mas um dia já foi baixista, tecladista, flautista, gaitista, ciclista, mas na verdade queria ser surfista, ensaísta, artista, marxista, sofista e jogador de futebol. Contato: alexsrios@gmail.com

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook..

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23/03/2013