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Freud explica / Copérnico; Darwin; Freud; "Entendendo Freud"

Renato Alessandro dos Santos

Pareciam atletas olímpicos do salto a distância. Primeiro, veio Copérnico, com seus joelhos estralando; ele mirou o sol, colocando-o no seu devido lugar, e saltou — fria e precisamente, como só um cientista de olhar telescópico como ele poderia fazer. Da turba, apenas algumas palmas e uns gritos meio-tossidos, tímidos tapinhas nas costas pelos quais um resignado, mas feliz Copérnico agradeceu. Darwin chegou em seguida, tropeçando em sua barba de onde micos leões dourados saíam sorridentes. A hipótese de fazer o sinal da cruz nem de longe passou por sua cabeça; sorriu, olhou para um sujeito de batina bem ao seu lado e, com o punho direito cerrado, como um típico Pantera Negra, gritou àqueles ouvidos celestiais: nevermore! E saltou. Em câmera lenta. Do outro lado, os pequenos micos pendurados na barba mafagafinho de Darwin — como num passe de mágica — trans-for-ma-ram-se em elétricos bebês berrantes, que, num átimo, foram acolhidos com espigas de milho que Freud, o próximo a saltar, atirou na direção deles. Eles agradeceram e — ploc! ploc! ploc!—, como pipoca, começaram a crescer, a sofrer, a falar pelos cotovelos , enquanto Freud ouvia tudo, dando as costas a eles, porque precisava saltar, e precisava saltar agora. Saltou. E foi um salto e tanto. Todos eles ficaram hipnotizados, perguntando a si mesmos, como ele havia conseguido saltar tão longe. Freud agradeceu e começou a explicar, a explicar, a explicar. Falou de complexo disso, complexo daquilo. Ego. Id. Superego. Ninguém entendeu nada.     

Copérnico deixou o papa estarrecido quando afirmou que a Terra não ficava exatamente no centro da Capela Sistina. “Não somos o umbigo do universo, chefe”, disse, enquanto trocava a lâmpada da sala. “Somos punks da periferia” — e acendeu a luz. Darwin causou o maior reboliço quando também tirou o homem do berço armado a ele, como lobotomia, no meio da manjedoura: “Somos animaizinhos quaisquer, a nos resfestelar na lama”. E ninguém melhor do que Freud para nos fazer calar, enquanto atravessamos o labirinto, guiados pelo cordão que ele nos atira como finos fios de aranha. Fomos todos hibernar, inconscientemente reprimidos, lá nos fundilhos da infância, de onde Freud nos fisgou, como um peixe.

Ninguém nunca mergulhou tão fundo

Está tudo aqui, em Entendendo Freud, publicado no Brasil pela LeYa. Além de toda a equipe editorial, os principais responsáveis por esta biografia ilustrada do pai da psicanálise são dois: Richard Appignanesi, que se preocupou com o roteiro, e Oscar Zarate, que pintou o sete com seus traços muito bem-humorados. “As ilustrações de Zarate são incríveis e os textos de Appignanesi são pesquisados com esmero e apresentados com clareza”, escreveu, acertando em cheio, o Washington Post.

Vai se arrepender quem, de repente, deixar de ler Entendendo Freud por julgar que uma biografia em quadrinhos não é uma forma adequada para se conhecer mais da vida e da obra de Sig. Claro, nada melhor do que ir à fonte: é um prazer ler o que Freud escreveu em seus textos, pois ele foi um excelente autor (quando puder, leia seu ensaio a respeito de “A Gradiva”, de Jensen); e em relação à sua vida, boas biografias não deixam os leitores na mão (A vida e a obra de Sigmund Freud, de Ernest Jones; Freud – uma vida para nosso tempo, de Peter Gay), mas que tal esta biografia ilustrada de Sigmund?

Em Entendendo Freud, lemos sobre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente dos sonhos (gosta de literatura? os capítulos 6 e 7 de A interpretação dos sonhos esperam por você); lemos sobre parapraxia e, nessa hora, você ficará com vontade de ler A psicopatologia da vida cotidiana (1901), em que Freud descreve exemplos típicos de esquecimento, coisas banais como lapsos verbais e falhas de memória que ocorrem frequentemente em nossa vida; lemos sobre inconsciente e pré-consciente; sobre o Complexo de Édipo; sobre a inveja do pênis e a angústia da castração; sobre perversão, sexualidade, libido, amnésia infantil, narcisismo, instinto de morte etc. et cetera; e, claro, lá pelo fim de Entendendo Freud, sobre ego, id e superego – outra grande descoberta a respeito de nosso aparelho psíquico.

Lendo Entendendo Freud não fica difícil admirar o médico vienense não apenas pelo que ele legou à ciência, mas também pelas mazelas que sofreu, principalmente, em seus últimos 16 anos de vida, quando o câncer o fez passar por 33 cirurgias que não o impediram de morrer, em 23 de setembro de 1939. Freud foi operado pela primeira vez em 1923. “Todo o maxilar superior e o palato do lado direito foram removidos”, diz Appignanesi. “Durante os dezesseis seguintes anos de vida”, complementa, "Freud frequentemente sofreu de uma dor angustiante. Sua fala e sua audição foram afetadas e ficou difícil comer. Uma prótese (um tipo de dentadura imensa) teve de ser projetada para separar a boca da cavidade nasal”. Freud não merecia. Mas os portões do inferno já estavam abertos: em 1920, ele havia perdido Sophie, sua “filha querida”, que morreu aos 26 anos, e, em 1923, perdera também o “neto predileto”, filho de Sophie, que tinha apenas 4 anos e 6 meses.

E diante de uma vida tão devotada à ciência, finalizada a leitura, não fica difícil entender por que o bordão “Freud explica” se aplica tão bem ao pai da psicanálise. Ninguém nunca mergulhou tão fundo. Ao menos até aqui.

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

  • 07 DOIDÃO

15/03/2013