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Paris-Manhattan-Woody-Allen / Paris-Manhattan; Woody Allen; Sophie Lellouche;

Renato Alessandro dos Santos

Paris-Manhattan poderia ser um filme de Woody Allen; no caso, mais uma dessas comédias românticas que Allan Stewart Königsberg vem fazendo nos últimos anos, mas a direção é da estreante Sophie Lellouche. Não que Para Roma com amor (2012), Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010), Tudo pode dar certo (2009), Scoop: o grande furo (2006) sejam ruins. Longe disso. Até porque um novo filme de Woody Allen é sempre um bom vinho com queijo embaixo da sombra de alguma árvore. 

Para o sommelier cinéfilo, com amor : Noivo neurótico, noiva nervosa (Anne Hall, 1977), Desconstruindo Harry (1997), Manhattan (1979), Hannah e suas irmãs (1986), Crimes e pecados (1989), Meia-noite em Paris (2011).

Mas se Paris-Manhattan não é um filme de Woody Allen, por que ele é mencionado aqui? Simplesmente porque o diretor é o herói da protagonista do filme, Alice (Alice Taglioni), uma garota que ainda não encontrou aquele com quem quer viver o resto da vida. No caso, Victor (Patrick Bruel). Ela trabalha em uma farmácia. Ele instala alarmes. Às pessoas que comentam com Alice seus problemas, ela receita não algum dos remédios das prateleiras, mas filmes de Woody Allen, que Victor nunca viu. Heresia. E não fica só nisso: ela conversa com o próprio Woody, ou melhor, com um pôster dele que dá conselhos a ela. Ponto para Sophie Lellouche por ter encontrado tais "conselhos" nos filmes do diretor americano e por costurá-los com inteligência em Paris-Manhattan. E não só nisso fica também: eis que lá pelas tantas ninguém menos do que o próprio Woody Allen aparece na película. Inverossímil? Não:

(1) a cidade de Paris-Manhattan é a Cidade Luz;

(2) é uma obra de ficção, no caso, um filme;

(3) não é difícil imaginar Woody Allen hospedado em um luxuoso hotel de Paris.

Mas a leveza do filme incomoda quem não pretende ver Woody Allen numa sofisticada comédia cor de rosa; eis aí o porquê de nem todo mundo concordar com a presença do ator Woody no filme de Lellouche. Fora isso, incomoda pensar também que o herói de Alice tende a aparecer em sua vida, mesmo que em pensamento, conversando e aconselhando-a e, depois, como um deus ex maquina, surgindo em carne & osso, e no caso de Woody mais osso do que carne (hê, hê), para o desenlace da história, naquele momento em que todos os fios desencapados voltam do curto-circuito, fazendo a energia circular novamente e, claro, revelando o final feliz a que todos têm direito.

Amigos meus não gostaram do filme. Não vi nenhum problema nem na participação especial de Woody Allen em Paris-Manhattan nem no filme em si, que poderia ser – como já sugerido – mais um filme de Woody Allen. Como não gostar de um filme que oferece o que uma comédia romântica tem de melhor? O quê?! Bem, duas pessoas que, sozinhas, ainda estão em busca da outra para ocupar o coração ainda sem dono. Nem sempre a fórmula dá certo, mas aqui, em Paris-Manhattan, as coisas parecem ter funcionado bem.

Mais ou menos. Se você é um cinéfilo exigente e prefere filmes estranhos e difíceis, como o Fausto (de Alexander Sokurov), Paris-Manhattan será um estorvo, porque a narrativa flui ágil como uma notícia de jornal lida avidamente ou como uma cerveja numa típica tarde de sol em Ribeirão Preto. Portanto, que mal pode fazer este filme aos cinéfilos? Nenhum. Basta não esperar nada além da recompensa de, simplesmente, mas simplesmente mesmo, assistir a um bom filme.

No divã: acabou de conhecer aquela que pode ser uma extensão sua? Então, não veja outro filme. Veja Paris-Manhattan. Está de mal com você mesmo? Não perca seu tempo: abra a porta da sala que dá para a rua (que pouca-vergonha!) e deixe a noite cair sobre você. Se entregue. Sem parcimônia. Nada melhor do que sair e deixar de conviver com você mesmo por algumas horas. É um batismo.

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

 

 

 

 

  • fred astaire - cheek to cheek

23/02/2013