)Cinema(

Os olhos de Ingrid Bergman / "Casablanca"

Renato Alessandro dos Santos

“Você me despreza?”, pergunta Ugarte (Peter Lorre) a Rick (Humphrey Bogart). “Se ao menos pensasse em você, provavelmente, desprezaria”. Em outro momento, um oficial alemão pergunta a Bogart: “Qual a sua nacionalidade?”. “Eu sou um bêbado”. O mesmo oficial ainda comenta com Rick: “quer dizer que você não simpatiza com a raposa?” Eles estão em Casablanca, África, no Marrocos francês. Rick é dono do lugar mais badalado da cidade, o Rick's Café Américain. Taciturno, temido, cioso de seu negócio, foi obrigado a fugir de Paris quando os alemães tomaram a capital francesa logo no início da II Guerra Mundial. Fugindo de Paris, deixou para trás Ilsa Lund, ninguém menos que Ingrid Bergman, cuja beleza em Casablanca atinge a plenitude. Portanto, ele não tem motivo para simpatizar com a raposa, o III Reich. “Não em particular”, responde ao oficial alemão. “Entendo o ponto-de-vista dos cães também”. Rick tem apenas 37 anos.

E assim o filme vai contando a história dessas pessoas ancoradas como ilhas, sem ter como fugir dali, sequiosas de encontrar a liberdade e tomar um avião para Lisboa, numa rota que significa a possibilidade de fugir da Europa e seguir para a América, bem distante da guerra. O único lugar onde todos querem estar à noite é o bar do Rick. É lá que ele reencontrará Ilsa. A cena é clássica. Os dois ainda não se viram. Ela aproxima-se de Sam (Dooley Wilson) e pergunta por Rick. Sam sabe que essa mulher é uma nuvem repleta de raios na vida do patrão e, por isso, pede a ela que vá embora. Ela o ignora. “Toque 'As time goes by', Sam” (ouça, clicando nos ícones abaixo). É a música dos dois, Rick & Ilsa, ou Bogart & Bergman, longe do repertório do pianista desde a fuga de Paris. Com a canção timidamente tocada por Sam, a câmera focaliza os olhos de Ilsa, e há uma tristeza profunda ali, como quem não compreende as peças que a vida prega. É um dos momentos mais bonitos da história do cinema. Os olhos de Ingrid Bergman. A canção é triste como esses olhos, e eis que chega Rick, colérico por Sam estar tocando essa música proibida e, então, ele vê Ilsa.

E é só o começo de Casablanca.

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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20/01/2013