)Música(

666 4U & me; ou: 62.998 pessoas, Marley, eu & Iron Maiden / Iron Maiden em Interlagos (março de 2009);

Renato Alessandro dos Santos

666 the number of the beast
666 the one for you and me

(The number of the beast)

"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira."

(Tolstói, L. Anna Kariênina, 2005, p. 17)

Daqui a três anos, quando meu filho fizer 16 (Jesus!), direi a ele mais uma vez: “eu fui a um show do Iron Maiden”. E ele, irônico: “Ah, tá brincando?!” Tomara que, em 2016, entenda o que estive (espero) dizendo a ele nos últimos sete anos. 16. Essa sim é a hora de ser fã do Iron Maiden. E de carteirinha. Não é?  

Aos 40 e em forma – de quibe –, já não é mais hora de ainda ficar ouvindo Iron Maiden como aos 16. Agora, é hora de aguçar os sentidos para o que a vida vem trazendo de bom: o acervo de sabores à disposição do paladar; os livros ainda não lidos; os filmes há tempos esperando para ser vistos e, não fique triste não se zangue, aquela canção do Roberto – mas em ritmo de aventura (por favor).  O mais engraçado, ou constrangedor, é o quão ridículo você é quando imagina que as pessoas olham na sua direção e veem não o que acha que elas veem, mas o quão velho você está: suas olheiras, seu rosto amassado, seu corpo cada vez mais cheio de limitações. Tudo bem: por dentro, você sempre será uma criança, mas por fora seu corpo dá sinais de que o tempo não para, como diz aquele ogro. 

E isso não tem tudo a ver com o show do Iron Maiden?

Se não tenho mais 16, por que fui ao show? Para meu revival pessoal do passado? Para ficar horas e horas na fila, esperando os portões (do inferno) se abrirem?

Não, nada disso.

Talvez, o maior motivo foi, simplesmente, o de poder dizer ao meu filho que fui a um show do Iron Maiden. Em 2009, também vi Radiohead, Kraftwerk e Los Hermanos em São Paulo e Paul Di'Anno em Ribeirão Preto e, na Califórnia brasileira, dei graças a Deus de não ter mais 16 anos. Mas a oportunidade de ver Iron Maiden ao vivo não aparece toda hora. Então, como abrir mão de ouvir aquele nheco-nheco com pedais heavy metal tantos anos depois da adolescência?! Quando se começa a usar Grecin 2000, uma apresentação da Osesp, um show dos Strokes ou um passeio pelo cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro, para cumprimentar Álvares de Azevedo, Zuzu Angel,  Oscar Niemeyer e José Lins do Rego, são programas imperdíveis. Conte comigo para tudo isso e, se for o caso, não deixe de me convidar para o próximo show do Iron Maiden. Foi o que meu cunhado José Augusto fez, quando conseguiu me separar de minha casa para nos levar ao autódromo de Interlagos, em São Paulo. Era 13 de março de 2009. Dois dias depois, veria em pele & osso Iron Maiden e o cadavérico Eddie Mais Osso Do Que Pele.

Antes do Concerto/ Depois do Concerto

O périplo começou na sexta-feira à noite, quando chegamos a São Paulo para a festa de formatura de Patrícia, minha sobrinha. Que festa! Havia até barman preparando bebida com tudo quanto é cor do arco-celeste. Comecei com as cores em ordem alfabética: amarela, azul, branca, verde, vermelha, fúcsia, magenta... Está fora de ordem? É que lá pelas tantas, já não havia mais ordem alguma (e pensar que, de manhã, passando pelo Ibirapuera enquanto o sol nascia, vi um Fusca com as quatro rodas pra cima e pensei: uau, esse carro se divertiu mais do que eu!). No hotel, onde estávamos ainda, eu & Sementinha de Mostarda tomamos café da manhã não para acordar, mas para dormir. Puxa vida, quanto iogurte, danone e suco de laranja! Pena que, minutos depois, anexado à “igreja de todos os bêbados”, tive de goela abaixo desovar o revertério que, na privada, ficou a me sorrir de volta. E o show seria dois dias adiante ainda. Oba.     

Um brinde a você, Princesa, que sabe aproveitar a vida!

A primeira vez que ouvi Iron Maiden foi em 1980 e alguma coisa. Devo tudo ao Locerma (Marcelo, ao contrário), primeiro amigo que fiz logo que me mudei para o Jardim Martinez, em Araraquara, numa casa que meu pai comprou. Até então pagávamos aluguel, mudando de casa em casa, conforme o trabalho de meu pai nos levava de São Paulo para Americana ou de Santa Fé do Sul para Araraquara, onde nasci e cresci, como um lobisomem. Locerma morava uma casa abaixo da minha. Nossa rua era a mais movimentada do bairro. Eu tinha nove anos. Em 1985, aos 12, queria ir ao Rock’n’Rio, mas era imensamente moleque para atravessar mais de 700 quilômetros até chegar ao Rio de Janeiro. Foi o primeiro show do Iron Maiden que perdi. Naquela época, eu nem gostava tanto deles, porque só ouvia Kiss, a primeira banda de rock de que me tornei fã. Quando Locerma disse que estava ouvindo Iron Maiden foi uma decepção, porque eu achei A Maior Traição Do Mundo Com O Kiss. “Onde já se viu, Locerma?! É o Kiss”, disse. “O KISS!” E ele, com sua sabedoria adolescente: “você precisa ouvir Iron Maiden!” E foi assim que aconteceu. Logo que ouvi a introdução de “The number of the beast”, (Revelations ch. xiii v. 18), que sei de cor até hoje, sabia que se tratava de uma banda que ouviria por muito tempo:

"Woe to you, Oh Earth and Sea,

for the Devil sends the beast with wrath,

because he knows the time is short...

Let him who hath understanding reckon

the number of the beast for it is a human number,

it's number is Six hundred and sixty six"

"Ai de vós, ó Terra e Mar,

pois o Demônio envia a besta com ódio,

Porque ele sabe que o tempo é curto...

Deixe aquele que compreende reconhecer

o número da besta porque é um número humano

Seu número é seiscentos e sessenta e seis." (fonte)

 

Não é demais?! (Ouça abaixo, clicando no ícone à esquerda)

E o que vem depois disso, então?! (1) Aquela tempestade de guitarra circular diretamente do inferno! E (2) a voz de Bruce Dickinson, sussurrando o que poderia ser mais um poema lúgubre de Edgar Allan Poe, caso Poe usasse cáqui, supostamente como Kerouac.

Vivo!

Eis, então, que, no domingo, poucas horas antes do show, acontece o imponderável. Ao vivo, diretamente do elevador:

Estamos dentro deste elevador parado no décimo segundo andar de um prédio chique na Vila Mariana, São Paulo. Somos cinco: minha mulher (Silvia), seu irmão (José Augusto), a irmã dela (Luciana), o marido da irmã dela (Tuia) e eu (Costinha). Todos mais que cunhados, uma família, enfim. Sim, Tolstói. O elevador está parado. Não sobe. Não desce. Minutos para derreter. O calor começa a ficar insuportável. (Ah, esqueci do Rica no elevador, nosso amigo). É Rica quem nos salva. “6 não vão mandar ninguém pra salvar a gente?”, fala, pelo interfone. (...). Nada. Nada ainda. Um minuto foi embora, outro veio, e continuamos aqui, derretendo, como seis barras de chocolate dentro de um microondas. “O que é isso na sua cabeça, Rica?” Dali, está escapulindo uma fumacinha e sua cabeça começa a girar cada vez mais rápido. Sem pensar duas vezes, Rica deixa que suas mãos entrem entre as duas portas do elevador, que deslizam como duas crianças escorregando num tobogã gigante rumo a uma piscina gigante e, ah, essa primeira corrente de ar, que delíciaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...

São quatro e meia da tarde de 15 de março de 2009, mais um dia quente em São Paulo.

O show

Imaginava que, por essa hora, já estaria bem próximo do palco, mas quando o show começou com uma hora de atraso, às nove e ½ da noite, de onde estava vi Bruce Dickinson pulando pra lá e pra cá. Só havia um problema: eu estava tão longe do palco, que Bruce parecia do tamanho de uma ervilha, ou do Madson, o que dá no mesmo.

Outro problema: fomos em dois carros para o show. Eu, Rica e José Augusto em um automóvel; Silvia, Luciana e Tuia, em outro. Como fui em um carro, e minha mulher em outro, aconteceu o que não parecia que poderia acontecer: perto de Interlagos, os carros se separaram por causa de um sinal que ficou vermelho antes da hora. Raios. Triplos. E vi todo o show sem Sementinha de Mostarda por perto. Imaginei que, àquela altura, ela já havia arranjado um cabeludo qualquer, enquanto eu ficava vendo o pequeno Bruce saltitante, mas quando cheguei ao prédio da Vila Mariana, após o show, ela não quis nem conversar comigo, porque achou que eu tinha encontrado, como que por encanto, uma garota de cabelo vermelho, com piercing na língua e camiseta do Born Again, do Black Sabbath. Ah, o amor...

De qualquer forma, mesmo que a quilômetros de distância, e longe de ser um fã miserável do Iron Maiden, estava adorando tudo. Num certo momento, a memória gravou a profusão de telas de câmeras fotográficas e celulares que, mirando o palco, davam a impressão de vaga-lumes imensos levitando. Foi uma visão onírica inesquecível. Enquanto isso, Iron Maiden desferia pedra sobre pedra, como se todos os ouvidos, olhos, bocas, braços tivessem nascido apenas para não perderem nenhum momento daquele show. Em uníssono: êêêêêêêêêêêêêhhhhhhhhhhhhh, aaaaaaaaaahhhhhhhhhhhh, AAAAAAAHHHHHHHHH... Run to the hills... Run for your lives...

Uau. Tudo o que poderia esperar de um espetáculo pirotécnico de heavy metal, eu encontrei naquele domingo. O show começou com “Aces high” e terminou com “Sanctuary”, passando por “Wrathchild”, “2 minutes to midnight”, “Children of the damned”, “Phantom of the Opera”, “The trooper”, “The rime of the ancient mariner”, “Powerslave”, “Run to the hills’, “Fear of the dark”, “Iron Maiden”, “The number of the beast” e outras canções que eles tiravam da cartola como gremlins. Bem, pense assim: você pode ouvir todas essas músicas tocadas por uma banda cover do Iron Maiden num barzinho, num sábado à noite. Mas em Interlagos, 62.998 pessoas, Marley & eu as ouvimos e-xe-cu-ta-das por nenhuma outra banda que não o próprio Iron Maiden.

E mesmo assim, hoje, Théo não está nem aí pra isso, mas quando ele fizer 16...

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook

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13/01/2013