)Música(

Por que há fronteiras no jardim da razão? / Chico Science & Nação Zumbi; "Da lama ao caos"; "Afrociberdelia"; Clodoaldo Pigatto;

Renato Alessandro dos Santos

Sempre que vamos à praia, Chico Science nos acompanha. Quem conhece os dois primeiros álbuns dele com Nação Zumbi sabe por que é tão importante ir à praia com ele(s). Tem tudo a ver. Talvez seja influência de Clodoaldo Pigatto, com quem dividi todas as esquisitices da adolescência: dos tênis Mad Rats a David Lynch, passando por The Smiths, skate e o mundo às avessas. Nenhuma dúvida: clodoaldoamadecorac@ochicoscience.com; por isso, toda vez que vamos à praia, Chico Science irradia a trilha sonora que, à beira-mar, não nos deixa desanimar nenhum minuto. Conhecemos a letra de “O cidadão do mundo”, mas nunca iremos compreender o verdadeiro significado de “Chila, Relê, Domilindró”. E você?

 

“Vinha cinco maloqueiro
Em cima do caminhão
Pararam lá na igreja
Conheceram uns irmão
Pediram pão pra comer
Com um copo de café
Um ficou roubando a missa
E quatro deram no pé
Chila, Relê, Domilindró !!!!” ("O cidadão do mundo")

 

Ouvi falar de Chico Science quando era moleque e comprei Da lama ao caos, em vinil. Por sorte, também consegui Sargent Peppers lonely hearts club band, original, de 1967, selo EMI, com um inútil encarte de papelão que traz, para ser recortado, um bigode, uma foto do Sgt. Pepper, divisas, emblemas e um mini-display com os Beatles. Já em relação a outro disco, bem, devo ter sido enganado, mas o Stage, de David Bowie, traz o autógrafo do camaleão na capa, algo que Clodoaldo duvida. Com razão.

 

"Oh, Risoflora! Não me deixe só
Eu sou um caranguejo e quero gostar
E quando estou um pouco mais junto eu quero te amar
E acho que você não sabe o que é isso não
E se sabe pelo menos você pode fingir
E em vez de cair em tuas mãos preferia os teus braços
E em meus braços te levarei como uma flor
Pra minha maloca na beira do rio, meu amor!" ("Risoflora")

 

Ouça Da lama ao caos e Afrociberdelia, quando apetecer.  Não há como se arrepender. Mas diz aí: não é difícil acreditar que aquele vocalista ali, Chico Science, pulando pra lá e pra cá, não está mais por aqui há 15 anos? São duas obras-primas que parecem ter sido lançadas há três dias. Não envelhecem. E minha dívida com Chico vem se acumulando ao longo dos anos: moleque, trabalhava numa empresa de extintores de incêndio e, incansável, ia a pé, quilômetros de distância, walkman & fita-cassete & fones no ouvido, passo a passo, aprendendo com mestre Science.

 

"O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enche a imaginação de domínio
São demônios os que destroem o poder
Bravio da humanidade!" ("Monólogo ao pé do ouvido")

 

Em 1994, vi Chico Science num show na praia do Gonzaga, em Santos, com a Nação Zumbi, que até hoje continua a peleja, levando adiante o que Chico & asseclas começaram lá, na década grunge dos anos 1990, quando álbuns independentes tornaram-se as meninas-dos-olhos de executivos de luxo das gravadoras. Mundo afora, Nevermind começou tudo, enquanto no Brasil, Chico Science e Nação Zumbi falavam de mangue beat e de sua proposta cheia de parabólicas que miravam o infinito. Foi um grande salto do rock brasileiro, num diálogo constante com o samba, o maracatu e a música eletrônica. Esfuziante por causa da fusão esquisita de percussão e guitarras fuzz. É que os tambores e as cordas elétricas reforçam a marca d’água hipnótica das linhas de baixo, do batuque & das guitarras que passam silvando.  E ali, fumaçando e de olhos em brasa, Chico e suas letras cheias de rimas inteligentes, falando de um nordeste legendário e, mais ainda, do quão louca a cidade de Recife podia ser.

 

"Galeguinho do Coque não tinha medo, não tinha,
Não tinha medo da perna cabeluda
Biu do Olho Verde fazia sexo, fazia,
Fazia sexo com seu alicate"
("Banditismo por uma questão de classe")

 

E de repente, cada vez mais conhecidos, Chico & Nação foram engolidos pela mídia: jornais, revistas, TV e, num átimo, Europa adentro, lá estavam eles em turnê pelo velho continente, irradiando o atômico maracatu regional que tão bem fez ao verão europeu e a todos que, à toa, foram ver a banda passar. De volta ao Brasil, Chico foi dirigir seu Fiat e, num torvelinho, foi derrotado, numa partida de xadrez que trouxe a morte absurda daquele que saltitava adiante de seu tempo. E as antenas de Chico deixaram de captar os sinais afrociberdélicos que só ele era capaz de receber e decifrar como ninguém. É até hoje uma das maiores derrotas do rock nacional. Inestimável: pense no automobilismo sem Ayrton Senna; nos estudos euclidianos sem Roberto Ventura e na falta que Uilcon Pereira faz até hoje.

 

"Por que há fronteiras nos jardins da razão?
No caminho é que se vê a praia melhor pra ficar
Tenho a hora certa pra beber
Uma cerveja antes do almoço é muito bom
Pra ficar pensando melhor
"
("A praieira")

 

 

Eis o abismo. Da mesma forma que Lou Reed e John Cale se despedem de Andy Warhol ao final do sublime Songs for Drella, Marley, eu & Clodoaldo só podemos dizer: “Goodbye, Chico”.

Mas, hoje, ele continua por aqui, e, sempre que vamos à praia, Chico Science nos acompanha.

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), de Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.. 

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06/01/2013