)Cinema(

A felicidade não se compra /

Renato Alessandro dos Santos

Quando dezembro desponta no calendário, enquanto árvores de Natal começam a fazer parte da decoração da casa, e o espírito vai se preparando para o “bom velhinho”, é chegado o momento de espreguiçar-se no sofá da sala e ver filmes que, de preferência, tenham neve e temas natalinos. Por aqui, o mais perto que temos da neve são as bolas de sorvete que derretem sob esse sol escaldante. Mesmo assim, como tem chovido bastante, o céu cinza é suficiente para sossegar o espírito; eis aí, então, uma hora das mais gratificantes para se ver um filme, ainda mais se, do lado de fora, chove de mansinho. Sempre esperamos um pouco de frio ou chuva nesta época, numa versão vintage de primos pobres dos trópicos. Não temos neve, como os americanos, mas ao menos é possível contar vez ou outra com um pouquinho de frio, tempo nublado ou chuva até a chegada do “velhinho joia” que, neste momento, já está a fazer hora extra num shopping perto de nossa casa.

Mas a pergunta, agora, é: sua locadora predileta tem A felicidade não se compra? É o filme certo para hoje, amanhã e depois de amanhã. É em preto e branco e é de 1946. Hoje, 66 anos depois, continua tão tradicional nessa época natalina quanto o amigo secreto entre as pessoas que estão ao seu redor. Você saiu com quem este ano? Comprou o quê? Se ainda não comprou nada, e quer uma sugestão, o DVD de A felicidade não se compra é um belo presente. O enredo?

O enredo

Neste filme de Frank Capra, acompanhamos a história de George Bailey, o sujeito mais gente boa do mundo. Ele é um personagem que serve como uma luva a James Stewart, tal o talento e versatilidade do ator. Maniqueístas, os personagens agem a favor do bem ou do mal, sem meio-termo (senão não haveria maniqueísmo). De um lado, o vilão Henry Potter, cujo coração é granito puro; ele é dono de metade da cidade e vive à maneira de um Scrooge antes da redenção: ganancioso e de caráter impiedosamente ruim. Do outro, George Bailey e uma porção de gente que não teria onde morar não fosse o altruísmo e a bondade do antagonista de Potter, pois ele é um sujeito de coração tão bom que, sem perceber, é a beatitude em pessoa.

Bailey queria viajar o mundo, estudar e se tornar arquiteto. Seu pai e seu tio trabalham durante anos num banco, financiando casas para trabalhadores pobres. Quando se preparava para entrar na faculdade, o pai acaba morrendo e, com isso, Bailey é indicado pelos acionistas a assumir a firma. Não fosse dessa forma, o banco da família ficaria com Potter, a quem o pai combateu a vida toda. Bailey esquece a faculdade e assume a chefia do banco; em seu lugar, vai o irmão mais novo estudar; quando se formar, poderá voltar e assumir o banco, e, então, Bailey terá a chance de ir para a faculdade, além de viajar, que era o que mais queria.

Pouco tempo depois, prestes a ir para a faculdade, pensando em deixar o irmão tomar conta do negócio, este volta da faculdade, casado e com uma proposta do sogro para continuar suas pesquisas por lá. Mais uma vez, Bailey deixará de lado seu desejo e não insistirá para que o irmão assuma a empresa. Por essa época, já estava casado com uma mulher adorável e bela. Eles têm filhos. Três. E a vida segue, até que o tio acaba perdendo oito mil dólares que vão parar justamente nas mãos de Potter, que não devolve o dinheiro. Bailey fica louco com o tio e sai desvairado em busca de arranjar dinheiro para que o banco não quebre. Então, ele paga sua passagem para o inferno: acaba maltratando todos os filhos, a mulher...

E a história continua. Trágica. Prestes a suicidar-se, Bailey recebe até ajuda de seu anjo da guarda que não tem asas. É nesse momento que o enredo tem uma reviravolta: diante do suicídio iminente, o anjo o salva, atirando-se primeiro num rio, para ser salvo por Bailey em seguida. E por essa altura, você já estará com todos os seus sentidos voltados para A felicidade não se compra e, além disso, trará versos de John Donne ecoando em sua cabeça: “nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo". Lembra? "Cada homem é parte do continente, parte do todo”.

E cá estamos nós, eu e você, juntos neste texto e neste Natal: segue a vida e estamos a bordo. Navegar é preciso; viver, não. Ainda bem. Feliz Natal!

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A Felicidade Não Se Compra (It´s a wonderful life)

1946 - EUA - 130 min. – Preto e Branco - Drama
Direção: FRANK CAPRA. Roteiro: FRANCIS GOODRICH, ALBERT HACKETT, FRANK CAPRA E JO SWERLING, baseado na obra PHILIP VAN DOREN STERN. Fotografia: JOSEPH F. BIROC e JOSEPH WALKER. Montagem:WILLIAM HORNBECK. Música: DIMITRI TIOMKIN. Produção: FRANK CAPRA, para a LIBERTY FILMS e RKO.

Elenco: JAMES STEWART (George Bailey), DONNA REED (Mary Hatch Bailey), LIONEL BARRYMORE (Sr. Potter), THOMAS MITCHELL (Tio Billy), HENRY TRAVERS (Clarence), BEULAH BONDI (Sra. Bailey), FRANK FAYLEN (Ernie), WARD BOND (Bert) GLORIA GRAHAME (Violet Bick) e H.B. WARNER (Sr. Gower) e TODD KARNES (Harry Bailey).

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Ilustração de Helton Souto

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

23/12/2012