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A votação dos vivos /

André Carretoni

Para quem não sabe, Vevey é a cidade onde Charlie Chaplin passou seus últimos vinte e cinco anos de vida, depois de ter sido proibido de voltar aos Estados Unidos pela campanha anticomunista de Joseph McCarthy. Uma pequena ville suíça localizada a apenas um lago da França.

Não deve existir nada mais maravilhoso do que envelhecer ao lado da pessoa amada, em sua própria casa, em um lugar tranquilo e com o sentimento de trabalho realizado.

No intuito de aproveitar o agradável tempo que fez no último domingo, sinal de que a primavera está chegando, caminhávamos pelas ruas de Vevey quando uma pergunta surgiu em minha mente: se a humanidade pudesse votar em uma pessoa para ressuscitar, quem é que venceria?

De cara, imaginei que as mais votadas seriam as de teor religioso. Buda, Jesus e Gandhi encabeçariam a lista. Depois, viriam os políticos e os revolucionários. Quantas pessoas não gostariam de dar mais tempo à família Kennedy, ao líder Mather Luther King e à princesa Diana? E, finalmente, espalhados por diversas minorias, viriam os artistas e os atletas. Seriam os votos daqueles que gostariam de rever as vitórias do Sena, os shows do Elvis, as pernas da Marilyn e os novos trabalhos do Michelangelo.

Ok, ok. Não posso ignorar que essa seria uma votação democrática e que também haveria os votos dos inconsequentes (o texto é meu e eu escrevo o que quiser). Hitler, Napoleão e Mao Tse teriam seus votos; Salazar, Franco e Mussolini, os seus. Teriam votado nesses: os historiadores, os curiosos, os seguidores de suas filosofias e aqueles que sentem saudades dos velhos tempos. Estúpidos, estúpidos, e eu já disse que o texto é meu.

Mas e eu? Em quem é que eu votaria?

Em Jesus? Melhor não. A gente ainda pegava nele de novo para Cristo. Além disso, segundo alguns, nem precisamos votar nEle para que Ele ressuscite um dia. Então no Buda? No Mahatma Gandhi? Mas trazê-los de volta pra quê? Eles já não deixaram dito tudo o que queriam dizer? E agora eu iria querer o quê? Que eles repetissem os seus sermões somente porque nós não entendemos direito? Por que as suas mensagens foram distorcidas com o tempo? Outros dois mil anos para distorcermos tudo de novo. Não. Prefiro acreditar que, se eu erro, eu seria um fraco, não um surdo.

Então por que não votar nos santos? Naqueles que deram as suas vidas em sacrifício? Madre Teresa de Calcutá, Bezerra de Menezes e... Peralá! Eles também não! Eles já fizeram por tempo suficiente aquilo que todos nós deveríamos estar fazendo!

Tancredo Neves? Che Guevara? Chico Mendes? Não. Também não. Lá se foi o tempo em que eu acreditei que apenas uma pessoa é capaz de salvar uma nação ou unificar países.

Adianto-me para informar que o quarto nível não aparecerá mais neste texto.

O que faz com que me reste, portanto, o terceiro escalão, o dos artistas e dos atletas, e é claro que, como escritor, eu votaria em um artista.

Mas em quem? Em quem é que eu votaria para que chamassem de novo para uma nova turnê? Ou melhor, quem eu gostaria que voltasse, já que, fazendo parte de uma das minorias, a minha escolha também não venceria?

Da Vinci? Tom Jobim? Hemingway? E foi aí, nesse ponto, que eu vi que eu não havia achado uma resposta para a minha pergunta, mas que eu havia criado uma pergunta para minha resposta. Deus, como eu gostaria de ter conhecido Charles Spencer Chaplin!

Tenho visto e revisto inúmeras vezes os filmes desse humanista, e, até hoje, nenhum outro realizador, músico, pintor ou escultor possibilitou-me a divina ventura de poder chorar e rir ao mesmo tempo, um transbordamento da alma que, quando nos alcança, nos faz ver como tudo é perfeito e, acreditem, como é infinita a beleza da alma humana.

É isso. Eu votaria no Vagabundo. Não por algum sentimento egoísta, achando que ele deveria voltar para fazer algo mais por nós, mas, simplesmente, única e simplesmente, para dizer, baixinho no seu ouvido, um carinhoso obrigado.

Obrigado, Chaplin.

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Ilustração de Helton Souto

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André Carretoni nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Janeiro de 1971; formou-se em informática e, em 1998, partiu para a Europa, em direção ao desconhecido. Escritor expatriado, consciente do longo caminho que tem pela frente, segue em busca de sua verdadeira humanidade. É autor dos romances Piedade moderna (2005), Mais alto que o fundo do mar (2008) e outros. Escreve em carretoni.com e é colaborador de Tertúlia.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

 

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03/12/2012