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1 pen drive Wonka /

Renato Alessandro dos Santos

Não é fantástico chegar até uma pessoa de quem você gosta -- ou de qualquer pessoa (um amigo, uma amiga, alguém que você nunca viu etc.) -- e dizer a ela: se você me arrumar um pen drive de 30 Gb eu gravo um monte de coisas legais pra você. E então é a festa. Aliás, começaria por aí, Fiesta, CD que Gustavo Dudamel gravou. Já ouviu esse CD? Não à toa, todo mundo começou a apontar o dedo para esse regente cabeludo dizendo que ele sabia das coisas. E sabe mesmo. Aliás, a Venezuela está de parabéns em relação à música clássica. Faz sentido: Hugo, com sua visão gigantesca de sua própria imagem, ao menos legou aos venezuelanos um revival sinfônico de causar inveja aos hermanos vizinhos. Mas vamos deixar Dudamel ali, em cima daquele caixote, regendo aquela molecada inacredincrível, para perguntar se você já ouviu a voz vesuviana que Earl-Jean tinha em 1964, quando gravou "I´m into something good". Já ouviu? Não? Pois bem, um pen drive Wonka resolveria o problema.

E filmes Wonka?

Gravaria filmes. Aos montes. Pois os tenho sobejando em minha HD. Alguns, claro, já estão por lá há tempos e sempre voltam à tela do notebook, que, por sua vez, ganha um aliado importante: meu projetor que faz de minha Caverna do Dragão uma sala de cinema. Se Platão estivesse por aqui, ele nunca iria sair por aí pra saber o que está acontecendo lá fora. É o que faço: tão logo meus dois pés cruzam a soleira da porta, dificilmente, consigo me preocupar com a vida que acontece fora da Bat-caverna e, com isso, os filmes, a música e acima de tudo a literatura vêm se enredar em meus neurônios e a vida se amplia como o aroma de trufas da Toscana, que nunca senti, mas que, certamente, engrandecem o paladar que, num átimo, tem sua biblioteca de sabores elevada à altura que jamais será alcançada novamente. Até porque estamos falando de trufas: seis mil euros o quilo. Como tem gente gira nesse mundo, né? Como alguém pode gastar seis mil euros com tartufos toscanos?! Como?! Lembre-se de toda espécie de gente que não tem onde cair morta e que poderia ter uma refeição um pouco melhor da que é diariamente oferecida nesses imprescindíveis albergues que dão às pessoas uma réstia de sol que a ninguém mais interessa.

É esse mesmo sol que vislumbro quando a música vem invadir minha caverna e, lá, me deixo levar pela ópera de Verdi, pela música punk de Beethoven e pelo rock’n’roll de Mozart, sem contar os clássicos: The Who, Strokes & Bowie. Aqui, do lado de dentro, os livros encontram-se bem agasalhados. Estão todos ali, me observando, enquanto de um em um vou me inclinando sobre eles, como um cumprimento japonês que dura as horas que têm de durar a leitura de um livro. Por hora, como um Dean Moriarty correndo de uma amante a outra, estou com Poe, Freud, Clarice e Kerouac dividindo meu tempo. Como foi bom reencontrar Edgar e, pela primeira vez, encontrar-me com o doutor Freud equilibrando praticamente sozinho todos os pratos da psicanálise. É preciso sonhar e recorrer aos sonhos como uma chave para portas que não se abrem, ou seja: olhar pelo buraco da fechadura e ver o que o eu, sozinho, não é capaz de ver. "Eu é um outro." E se deixar levar por aí, como é a vida inconsciente.

E por que não falar um pouco mais de cinema? Woody não sai daqui. Para Roma com amor, Meia-noite em Paris, Noivo neurótico noiva nervosa e Manhattan, quatro filmes que devem estar em nossa moringa quando desta partirmos para outra celestial sala de cinema. Já viu? Não? Ah, como a vida nos toma o tempo que não sobra nunca. E pensar que há horas em que o tempo não passa e o desperdiçamos da mesma forma que, embaixo de um pé de mexerica, não temos vontade de roubar uma fruta sequer. Os filmes passam por aqui numa velocidade surpreendente. São tantos e a vida é tão rápida... Vale vê-los um a um, mesmo que você tenha de insistir no silêncio e chamar a atenção daqueles que, indiscretos, fazem questão de conversar durante a exibição feérica dos quadros que, juntos, formam a santa ceia cinematográfica. Eu, cá comigo, sou como o Woody de Annie Hall: se os primeiros segundos do filme já começaram a rodar, e você não estava ali, bem, deixe-o pra lá. Não é mais hora de assisti-lo: ou se volta ao início ou se arruma 1 pen drive Wonka.

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Ilustrações de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e Perspectivas das Ciências Humanas na Atuação e na Formação Docente (Paco editorial). Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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18/11/2012