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Crescendo como mato rasteiro / As aventuras de Tom Sawyer; Mark Twain

Renato Alessandro dos Santos

Durante muitos anos, a literatura norte-americana carregou a pecha de literatura infanto-juvenil por causa de romances como As aventuras de Tom Sawyer, Moby Dick e até mesmo A letra escarlate. Até D. H. Lawrence caiu nessa, como ele conta em Estudos sobre a literatura clássica americana (Jorge Zahar). Nada contra a literatura infantil, mas chamar A letra escarlate de literatura infanto-juvenil é coisa de gente gira.

O romance As aventuras de Tom Sawyer transita entre a literatura universal e a literatura infanto-juvenil sem nenhum problema. Não há nem mesmo necessidade de adaptação do texto, uma vez que a versão original flui como a correnteza de um rio capaz de carregar leitores para velejar, vadiar, viajar por aí, mas formando-os, como tem de ser.

Mark Twain, como J. D. Salinger, sabia das coisas e estava realmente inspirado quando criou essa história cheia de aventura com estes dois personagens, Tom Sawyer & Huckleberry Finn, tão cheios de vida, numa pré-adolescência arredia e livre: pés no chão, telúricos, brincando por aí e crescendo como mato rasteiro. Bem diferente de hoje, quando meu filho de 12 anos, em pleno domingo à tarde, como agora, está lá no quarto dele, no computador dele, na cadeira-giratória dele, enquanto o sol vai tostando a Terra, que gira como um queijo-coalho numa churrasqueira (aliás, o que estou fazendo aqui, na minha Caverna do Dragão, no meu computador, na minha cadeira giratória, quando deveria estar lá na churrasqueira, tomando cerveja enquanto a picanha, o pão-de-alho e o queijo-coalho não ficam prontos?!). Afinal, é domingo à tarde.

Mark Twain interrompe a narrativa de As aventuras de Tom Sawyer enquanto o personagem ainda é criança e diz que “tem de parar por aqui, pois, se continuasse, transformar-se-ia na história de um ‘homem’”. Será que Tom, depois que cresceu, também passou suas tardes de domingo em sua cadeira-giratória? Crescer – para muitos – é ocupar para sempre uma cadeira-giratória. Resignação é outra palavrinha das quais muitos não têm conhecimento dela, mas, basta crescer um pouquinho, e ela salta no horizonte, como a falta de tempo... Mas, enquanto isso, na caverna de Platão onde Tom Sawyer foi brincar...

Por que ler As aventuras de Tom Sawyer hoje? Por que não ler? É um romance que, como As aventuras de Huckleberry Finn, é repleto de aventura, sentido para a vida e que tem graça, muita graça. Escreve Twain:

Afinal, Tom já não achava que a vida fosse tão oca. Descobrira, sem o saber, uma grande lei que rege a humanidade e que é: para ser conseguir que um homem ou um menino cobice uma coisa, basta tornar essa coisa difícil de obter.

Tal descoberta ocorre no capítulo “O glorioso caiador”, dedicado às demãos de cal que uma cerca pode ter. Ah, quem não conhece a artimanha de Tom nessa hora, tem de conhecer sua astúcia e sabedoria. É um desses capítulos que valem por um romance inteiro. Dá-lhe conhecimento, e graça, de graça:

Se fosse um grande e sábio filósofo, como o autor desse livro, teria compreendido então que trabalho consiste em tudo que se é obrigado a fazer e que prazer consiste naquilo que não se é obrigado a fazer.

Não é engraçado ler Mark Twain referenciando-se, em tom de brincadeira? E, a nós, não é realmente fácil concordar com esse significado simples e cheio de razão a respeito da diferença entre trabalho e prazer?

Piratas, orgias, José Lins do Rego

O romance aborda Tom & Huck envoltos em peripécias mil: brincando de piratas; descalços por aí em cemitérios enterrando gatos pretos caolhos à meia-noite; sonhando em ser ladrões que têm quadrilhas que vivem fazendo orgias sem fim, mesmo que nem sequer imaginem o significado de orgias...

Há uma nostalgia perene no romance. Você sabe a diferença entre nostalgia e melancolia? Carlos Heitor Cony sabe; ele explica essa diferença no documentário O engenho de Zé Lins: “nostalgia é a saudade daquilo que vivemos, enquanto melancolia é saudade daquilo que queríamos ter vivido”. Pode não ser exatamente com essas mesmas palavras, mas o autor de Pessach: a travessia diz algo parecido.

Voltando a Sawyer, que Cony também adaptou, a história contada ali flagra momentos flamejantes na vida tanto do personagem principal quando de seu duplo, Huck, e juntos eles fazem toda a sorte de peraltice que só a dois estafermos do mato como eles cabem fazer: chegam a ser considerados mortos e, no velório deles, reaparecem; querem ser piratas, Hobin Hood, bandidos como Ali-Babá e et cetera. Et Cetera: Tom aprende a cuspir de um jeito diferente, sem um dente; ganha uma maçã (!) de sua tia, o que é comemorado como um acontecimento memorável; Tom apanha de seu professor, numa didática para lá de soterrada; ambos buscam tesouros em casas mal-assombradas; escapam para nadar rio abaixo, rio acima, rio afora; fumam escondido; crescem, enfim, enquanto a infância segue extraordinária...

Mas nada disso é maior do que a ojeriza que Huck Finn tem da civilização e do laço do qual ele e Tom tentam escapar. Huck é mais medroso do que Tom, que é um sonhador nato. São duas crianças que desejam viver como proscritos, foras-da-lei, como se dizia nos filmes de velho oeste que passavam na Sessão da tarde de minha infância. Não à toa, sobre eles, Peter B. High, autor de An outline of American literature escreve:

As aventuras de Tom Sawyer (1876) é uma história sobre ‘bad boys’, tema popular na literatura americana. Os dois jovens heróis, Tom e Huck Finn, são ‘maus’ somente porque lutam contra a estupidez do mundo adulto. Ao final, eles vencem. Twain criou um contexto altamente realista para sua história. Nós podemos conhecer o povoado muito bem, com seus muitos personagens, seu cemitério e a casa onde supostamente há um fantasma. Embora existam muitas semelhanças entre Tom e Huck, há também muita diferença entre eles. Twain estudou a psicologia de seus personagens cuidadosamente. Tom é muito romântico. Sua visão de vida vem de livros sobre cavaleiros da Idade Média. Um simples assobio de Huck, vindo debaixo da janela de Tom, chama-o para uma noite de aventuras. Mais tarde, Tom retornará para a casa de sua tia Polly. Huck não tem uma casa de verdade onde morar. Ao final do romance, nós podemos ver Tom crescendo. Logo, ele fará parte do mundo adulto também. Huck, entretanto, é um verdadeiro outsider. Ele tem uma vida difícil e nunca vê o mundo romanticamente como Tom.

Nós, que aqui nos encontramos agora, poderíamos dizer que gostamos muito de personagens arredios que nos animam o espírito, nesse embate rigoroso que é a vida, não é mesmo? Não sei por que você nunca se dispôs a ler As aventuras de Tom Sawyer. Sem contar que, àqueles que gostam do romance, ainda têm a sorte de praticamente contar com a sequência da história, que é As aventuras de Huckleberry Finn, romance que retoma a narrativa de As aventuras de Tom Sawyer. Cabe ainda lembrar que, para Ernest Hemingway, As aventuras de Huckleberry Finn são nada menos que o romance fundador da literatura norte-americana moderna. O quê?! Outro romance para crianças? Sim, mas também “o romance fundador da literatura norte-americana moderna”. Não é pouco.

Ah, você precisa ver Meia-noite em Paris. Já viu?

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Ilustrações de Vanessa Lira.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de doze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Vanessa Lira é artista plástica e utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão. Escreve desde os 10 anos. É mãe de Theo de 2 anos. Esposa, amiga e companheira de Anderson Lira, que lhe cedeu o nome, há quase 8 anos. Trabalha com gestão educacional no terceiro setor. Blog: http://macroolhar.wordpress.com/


 

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11/11/2012