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Inesquecível* / violões; Legião Urbana;, 2 irmãos; violão

Ricardo Dalla Vecchia

"O whisky é o melhor amigo do homem; o whisky é o cachorro engarrafado". Sábia analogia! Sábia, mas injusta. Pois não há sequer uma mágoa que a tampa do whisky segure, que as cordas de um violão não consigam libertar. Vinícius sabia disso. Eu, não. Mas mesmo assim pedi, com 14 anos, o meu primeiro violão. Estava motivado, decidido. Astro do Rock? Sucesso e dinheiro? Não. Eu vivia mesmo era a imitar tudo o que o meu irmão mais velho fazia. Já meu irmão não estava imitando ninguém. Surpreendeu a todos ao pedir de presente um violão elétrico vermelho. Mais vermelho que elétrico. Até hoje me lembro do som estridente das cordas novas e dos dois acordes de "Faroeste Caboclo" que nos separavam da Legião Urbana (aqueles que tocam podem estar pensando: "Mas não são só dois acordes!" Para nós, eram). Meu primeiro violão foi um Gianinni, modelo Estudante.

Havia um problema: eu era canhoto. Era não, sou. As opções eram duas: "aprender certo", isto é, como destro, ou inverter as cordas. Aos quatorze anos aquela era uma decisão tão difícil que meu pai precisou intervir. Meu pai não entendia de violões. Eu, tampouco. Meu pai entendia da vida. Eu, era só canhoto. "Nasceu canhoto tem que aprender como canhoto!" Até hoje sou grato a meu pai por esta decisão. Desde então nunca pude emprestar o violão de ninguém. Ninguém, em contrapartida, jamais pediu o meu violão emprestado. Além de canhoto, sou egoísta. Se o violão não é um cachorro engarrafado como o whisky, é como uma mulher, em madeira, verniz e saudade. Mulher, não se empresta. Violão, também não. Mulheres se vão. Violões, também. Infelizmente. O meu primeiro violão se foi num voo único do maleiro do guarda-roupas. A faxineira que o desencarnou sequer lembrou de contar para a minha mãe o ocorrido. Já eu, dele, não me esquecia. Violões são inesquecíveis. Acordes são inesquecíveis. Canções são inesquecíveis. Irmãos e Pais, também. 

* Para meu irmão, Raphael Bazilio Dalla Vecchia

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Ilustração de Helton Souto

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Ricardo Dalla Vecchia é orcedor fiel do time do Parque São Jorge e doutorando em filosofia pelo IFCH-UNICAMP. Em 2010/2011, realizou estágio de pesquisa na Ernst-Moritz-Arndt Universität, Alemanha.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.

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04/11/2012