)Sarau(

Happy hour /

Paulino Júnior

Quando demos por nós, reparamos que todos na nossa mesa da choperia haviam dado baixa no happy hour de sexta. Ele estava louco para ver a TV Full HD de LCD que eu havia acabado de dividir no cartão para explorar todo o potencial do Blu-ray. Olhamos um pro outro e ficamos a fim de dar uma esticadinha no happy hour e tomar a saideira aqui em casa.

Astuto como o diabo, não me espanta sua posição na empresa. Gerencia conflitos como ninguém. Começou com brincadeirinhas bobas e eu demonstrei eficiência, agindo como um estagiário que tivesse recebido o encargo de entregar uma planilha de custos em cima da hora.

Maldito álcool! Talvez eu devesse ter ido embora mais cedo, mas o papo tava tão bom. Caí como um patinho diante daqueles olhos de serpente. Ele perguntou sobre minha noiva e eu devo ter reclamado de que ela anda ocupada se preparando para o concurso da Receita Federal. Seus olhos brilharam e acho que ouvi alguma coisa sobre chamar o suplente.

 

A boa pinta e todo aquele álcool me desarmaram. Ele colocou para fora e eu disse com naturalidade calculada: “quebro seu galho”. Foi aqui neste sofá, onde agora tomo café solúvel e, mesmo de ressaca em todos os níveis, a lembrança me faz acender um cigarro.

Estou me sentindo um pouco mal, fui tão influenciável. Quero dizer, estou trabalhando tanto, me esforçando para ter ideias criativas, que já não tenho nem mais tempo para saber direito quem eu sou. Não quero mais pensar no assunto. Até porque sei que vai morrer aqui, ele tem mulher e filho e é profissional o suficiente para não misturar as coisas. Foi mesmo “só uma brincadeira sem maldade”, como ele mesmo disse. Igual quando a gente é menino e se descobre brincando com outros meninos.

Não sei por que insisto em tomar a porra deste café depois de uma noite de bebedeira. Parece que é só para provocar o vômito. Aquelas coisas que a gente faz já sabendo que não vai dar certo. Vou soltar tudo na privada e mandar a lembrança na descarga. O que foi, foi. Depois vou tentar dormir um pouco mais ou curtir o meu Blu-ray com um lançamento da videolocadora, também tenho que acabar de ler O segredo é ser proativo. Talvez eu mande um e-mail para ele... Será?

A vida nos ensina a engolir tanta coisa!

<>_<>

Ilustrações de Helton Souto

<>_<>

Paulino Júnior é mestre em Teoria Literária pela UNESP e já viveu de literatura, lecionando em instituições de ensino, até que resolveu viver pela literatura e tornou-se ficcionista sem vínculo empregatício. Recentemente teve contos publicados na Coyote, na coletânea de artigos científicos Jovens, trabalho e educação: a conexão subalterna de formação para o capital (editora Mercado de Letras) e no jornal literário RelevO. Participa do blog Em Má Companhia. Vive em Florianópolis desde 2005.

<>_<>

Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook. 

  • 281_the_housemartins___happy_hour.play

28/10/2012