)Cinema(

Simplesmente Charles Spencer Chaplin / Charles Chaplin

Everton Luís Sanches

Recentemente, precisamente há uma semana, fui surpreendido com a notícia de que a Folha de S. Paulo lançaria uma coleção com os filmes de Charles Chaplin em DVD acompanhados de libretos com comentários a respeito de sua obra. Logo em seguida, formulei algumas ideias – como pesquisador – a respeito do assunto, intencionando responder a uma questão que me foi feita: qual a importância da iniciativa da Folha em lançar obras de Chaplin? Achei a pergunta bastante apropriada, se considerarmos que muitas pessoas não conhecem em profundidade o trabalho de Charles Chaplin e por isso considerei pertinente me demorar um pouquinho mais nesta questão.

Outro motivador foi a campanha publicitária da coleção, que foi veiculada na TV e está disponível também para acesso via internet. Neste caso, chamou-me a atenção o fato de Chaplin ser comparado a Gandhi. A comparação tomou o humanismo como fator comum entre os dois, porém situando Chaplin no âmbito do cinema. Contudo, podemos considerar a atualidade do trabalho de Charles Chaplin, que vai muito além da questão meramente cinematográfica e da evolução tecnológica do cinema. Chaplin discutiu a sociedade de uma maneira muito profunda e tratou de temas humanos que até hoje estão em discussão – e hoje são até mais discutidos no Brasil que no momento em que os filmes foram lançados: o que a sociologia tem tratado por exclusão social, ou a pobreza vista por todos nós (por exemplo, em O vagabundo [The tramp – EUA, 1915; dir. Charles Chaplin] e Vida de cachorro [A dog’s life – EUA, 1918; dir. Charles Chaplin]; a deflagração dos conflitos armados, seu custo humano e as taras pessoais que o esforço bélico permite emergir (Ombro armas [Shoulder arms – EUA, 1918; dir. Charles Chaplin] ou O grande ditador [The great dictator – EUA, 1940; dir. Charles Chaplin], para citar apenas dois filmes.

Podemos relacionar ainda a atenção que hoje é dada para a qualidade de vida no trabalho (O circo [The circus – EUA, 1928; dir. Charles Chaplin] e Tempos modernos [Modern times – EUA, 1936; dir. Charles Chaplin] podem ser analisados sob essa perspectiva) e a necessidade de reconhecimento da humanidade enquanto indivisível e livre dos conflitos gerados pela concepção separatista de grupos, classes sociais, etnias etc. que pode ser identificada em quase toda a sua obra.

Enquanto fazia rir, Chaplin mostrava a miséria humana e as dificuldades enfrentadas pela contemporaneidade. Sua participação na história do cinema é indelével e extrapola os seus meandros ao dar voz aos principais problemas da humanidade.

Outro fator circunstancial que trouxe à memória coletiva a importância do cinema mudo foi o filme O artista (The artist – França/Bélgica, 2011; dir. Michel Hazanavicius; p&b – mudo), que venceu o Oscar 2012 e trouxe de volta a reflexão sobre o cinema mudo e preto e branco, ressaltando a sua importância para a construção daquilo que concebemos ainda hoje como cinema. O artista ressaltou que não ocorreu a superação e abandono do cinema mudo proporcionada pelo cinema sonoro, pelo soundround ou pelos efeitos visuais que se renovam constantemente e, sim, pelas conquistas narrativas do cinema que resultam do esforço cumulativo de diversos artistas desde os tempos de David Wark Griffith, Mack Sennett, Buster Keaton, Fritz Lang, Sergei Eisenstein e, é claro, Charles Chaplin.

Assim, podemos dizer que o lançamento da coleção da Folha se afina com a tendência atual de reconhecer o esforço desses artistas e a grandiosidade de seus trabalhos, especialmente Chaplin, cujas temáticas abordadas em seus filmes ainda revelam um ambiente sócio-cultural complexo, difuso e fragmentado. Tal universo mostrado em seus filmes pode facilmente ser inserido nas atuais discussões sobre a pós-modernidade, a falta de sentidos de existência do homem contemporâneo e a fragmentação de nosso pensamento científico. Ou ainda, para se debater a arte, seu papel social, suas tecnologias e o processo de esquecimento do clássico devido à supervalorização da novidade no cinema, à massificação da produção cultural como espécie de “copo descartável” (usou, jogue fora e pegue outro quando precisar novamente). Seu trabalho aponta, sobretudo, os rumos que a humanidade tomou e as possibilidades que ela ainda tem de escolher entre a humanização das práticas sociais e a secularização do materialismo cruel e insensato.

Tal qual Gandhi e tantos outros, Charles Chaplin participou da história à sua maneira, a partir de sua luta pessoal, sua criatividade, sua inventividade e seu exemplo. No cinema mudo, tornou-se praticamente inigualável. No sonoro, foi habilidoso e manteve as suas preocupações com o mundo. E para a história de seu tempo, foi simplesmente Charles Spencer Chaplin.

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Ilustração de Helton Souto.

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Everton Luís Sanches é natural de Franca; é casado, professor, ator e diretor de teatro amador há 20 anos. Fez estágio num canal de TV em Franca, produzindo comerciais e programas (1999-2000); roteirizou e dirigiu o vídeo Sociedade Alternativa (1999). Escreveu o livro A vida é sua, o mundo é nosso, editado pela Martin Claret em 2000; escreveu e dirigiu as peças Uma boa história para todos (2003) e Fuga das mulheres (2008). Possui graduação em História pela UNESP-Franca (1999), mestrado (2003) e doutorado (2008) em História e Cultura Social pela UNESP-Franca, tendo pesquisado a vida e obra de Charles Chaplin, destacando a importância de sua mensagem humanitária no contexto histórico da primeira metade do século 20. Atualmente é professor convidado da pós-graduação em Artes da Universidade de Franca, professor do ensino presencial e a distância do Centro Universitário Claretiano de Batatais, pesquisador da UNESP-Franca e vocalista da banda Livre Docente. Seus trabalhos teatrais podem ser vistos em evertonsanches.wordpress.com e os vídeos de sua banda em bandalivredocente.blogspot.com.

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

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30/09/2012