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Fantasmagoria edipiana / A estrada da noite; Joe Hill; Stephen King;

Renato Alessandro dos Santos

Joe Hill escondeu por dez anos que era filho de Stephen King, o escritor norte-americano que revitalizou o gênero horror. Queria escrever como o pai e imaginou que somente no anonimato poderia vir a ser um grande contador de histórias. Era melhor assim. Agindo dessa maneira, ele teria tempo necessário para curvar-se sobre sua escrita, especialmente, para aprender com seus erros. Por todo esse tempo, o sobrenome cedeu lugar ao pseudônimo. “(...) tive quase dez anos para cometer meus erros e afinar meu estilo”, disse Hill à Folha de S. Paulo de 14 de maio de 2007, “mas sabia que seria impossível manter o segredo”.

Dez anos depois, Joe Hill deixou a notoriedade e o sobrenome King para trás e hoje, tal pai tal filho, é celebrado na literatura de terror. É o que nos leva para A estrada da noite (Sextante, 2007), seu romance de estreia, que traz ingredientes novos à fórmula milenar de contar histórias de fantasmas. Nada de casa mal assombrada, flutuantes lençóis brancos que fazem “buuu” ou correntes arrastadas pelo chão. Os tempos são outros. Por que não uma lenda do rock, a internet e um fantasma numa caminhonete 4x4? A trama já parece pronta para o cinema e, por isso, como recorrente na literatura de entretenimento, ela não abusa da interpretação do leitor. O que não é bom. Quando as coisas dão certo na literatura, a imagem é sugerida pelo texto, enquanto ao leitor cabe contemplar e completar o sentido dessa sugestão. Se a imaginação não precisa trabalhar (tanto) é porque algo saiu errado. Na passagem a seguir, a narrativa é cinematográfica. Ela envolve um recurso muito utilizado em filmes de terror e que tem efeito perturbador no espectador: é quando a imagem acelera frações de segundos e, com isso, um morto-vivo, um fantasma, ou qualquer entidade mal intencionada, caminha com mais rapidez, de uma maneira totalmente sobrenatural.

Então o pai ficou de pé, o lençol escorregando pelo corpo. Ele se moveu mais depressa do que Jude esperava. Foi como um lagarto. Num instante congelado, no instante seguinte dando um bote para a frente, quase rápido demais para o olho acompanhar. Vestia apenas uma cueca samba-canção branca, que estava manchada. Seus peitos eram pequenos sacos trêmulos de carne flácida, forrados com pêlos crespos, brancos como a neve. Martin deu um passo à frente, plantou um pé na caixa em forma de coração, achatando-a completamente.

-- Vem cá, filho -- disse o pai com a voz de Craddock. -- O papai vai ensinar você a fazer a barba.

A pergunta é inevitável: Hill errou a mão?

A impressão que fica, ao final do romance, é que ele optou pela estrada mais fácil. Afinal, por que um escritor que não precisa de dinheiro, em vez de criar uma obra que o alçasse à condição de aspirante a mestre do horror, prefere deixar levar-se pelo caminho batido da literatura de entretenimento? Das duas, uma: ou o engenho não foi suficiente ou foi mais fácil ceder aos encantos de uma cinematografia hollywoodiana que, infelizmente, esbarra no lugar-comum na maioria das vezes. O cinema é merecedor da literatura, como aconteceu com O iluminado, apenas para ficarmos na família King, mas nem sempre é assim. E se o romance é sempre melhor que o filme, o que esperar de A estrada da noite quando chegar aos cinemas? Sim, os direitos para a adaptação já foram comprados pela Warner.

O fantasma da caminhonete responde pelo nome de Craddock McDermott. Bela e rítmica alcunha. Ele tem olhos rabiscados de preto e pode induzir pessoas a fazer sandices como cometer assassinatos ou até mesmo suicídio. Enquanto ainda era vivo, com o uso da hipnose, ele fazia as pessoas agirem de acordo com sua vontade. Esse hipnotismo é levado além-túmulo, literalmente, como se em vida ele já preparasse o terreno onde mais tarde iria pisar. McDermott foi oficial do exército americano; ele trabalhava numa divisão ligada ao uso da hipnose e aos estudos da mente. É por essa época que sua cuca já dá sinais de que é um pouco gira. Vivo, Craddock poderia ser confundido com um daqueles velhinhos magricelas do sul dos Estados Unidos, com sotaque caipira e pele macilenta, mas o problema é que ele era mau, mau por natureza, como cabe a um vilão desse tipo. McDermott morre e, como reza a fantasmagoria, volta para aterrorizar Jude Coyne, a lenda viva do rock.

O início

Tudo começa quando o roqueiro compra um terno pela internet. Claro que não era um terno qualquer. Por mil dólares, ele adquire o paletó de um fantasma. Mal sabe ele que tudo faz parte de um plano mirabolante. Quem coloca o anúncio na internet, como mais tarde o leitor e o personagem principal descobrem (e você já descobriu; desculpe), é a filha de McDermott. Jude nem imaginaria que, como bônus, mais do que o terno, o “afortunado” proprietário receberia também um fantasma. Num site de leilão, por mil dólares, Jude arremata o souvenir. O terno chega dentro de uma caixa de bombons e, com ele, o fantasma, que, logo, o bota para correr de casa, expulsando-o estrada afora. Com a ajuda de sua namorada Geórgia e de seus dois cachorros, que, sabe-se-lá-Deus-por-quê, podem enfrentar o fantasma, Jude ganha a estrada com seu mustang, fugindo de Craddock, que o persegue em sua caminhonete por toda parte, numa odisseia on the road pelo interior dos EUA.

Jude, o herói da história, ficou famoso mundialmente como guitarrista e vocalista da banda O Martelo de Judas. Trata-se de um cinquentão excêntrico que gosta de colecionar filmes snuff — rever 8mm, com Nicolas Cage —, livros com receitas de canibalismo e outros apetrechos de fazer corar nossas mães. O personagem chama a atenção: é o estereótipo daquele roqueiro grisalho que acabou de deixar sua Harley Davidson lá fora para tomar umas cervejas num clube de striptease. O guarda-roupa é conhecido: calças jeans puídas, cabelos desgrenhados, óculos escuros, barba displicente, jaquetas com tachinhas, camisetas de rock’n’roll, além das botas de couro e da indefectível pança de velhos astros dessa estirpe. A banda não existe mais. O baixista morreu de AIDS e o baterista, de overdose. Então, por que não comprar um fantasma pela internet, para matar o tempo? Para um sujeito que apelidava suas ‘garotas’ com nomes de estados americanos, como Flórida, Geórgia, Tennessee, num arremedo de conquistador nada elegante, um fantasma de estimação combinaria com seu estilo de vida.

Perto do clímax sensabor do romance, depois de sair da estrada com um dedo decepado, os dois cachorros mortos e a namorada com a mão infectada com alguma maldição-mistério, Jude chega à casa do pai, que está à beira da morte. Craddock os persegue e ali é travado o duelo final. A moça tem a garganta cortada, enquanto Coyne vê o próprio pai a quem odiava ser abandonado à própria sorte e morrer, depois de usado como uma marionete por MacDermott. Herr Freud explica. E chegamos ao fim.

Hill, como já se esperava, deve muito a seu pai; muitos leitores de Stephen King irão lê-lo especialmente pelo laço familiar (como eu). A despeito disso, Joe Hill tem talento para sozinho alcançar o respeito que deseja. As coisas já estão acontecendo. O livro já foi traduzido em mais de 20 países e é apenas o primeiro romance do autor. É torcer para que no próximo ele consiga fazer o que seu pai faz de melhor, isto é, contar com maestria uma história de terror, prendendo a atenção do leitor até o fim da narrativa, como se nada fosse mais importante que um bom livro de terror em uma noite qualquer. Porque, quando o livro é ruim, é sempre uma delícia ver um filme de terror embaixo do edredom, com o controle-remoto todo engordurado por causa da pipoca de microondas.

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Ilustrações de Helton Souto.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e Perspectivas das Ciências Humanas na Atuação e na Formação Docente (Paco editorial). Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Helton Souto nasceu em 76. Ribeirão Preto. Casado. Desenha e pinta desde sempre. Graduou-se em Ciências Sociais. Foi arte-educador. Foi professor de História. Trabalha em ONG, com educação e juventude. E não parou de desenhar e pintar. Blog: Andar na pedra; Flickr; Facebook.
 

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23/09/2012