)Livros(

Tão longe & tão perto / Extremamente alto & incrivelmente perto; Jonathan Safran Foer;

Renato Alessandro dos Santos

É o último romance de Jonathan Safran Foer, autor que há poucos anos deixou de ser uma juvenil promessa da literatura norte-americana para se tornar uma referência entre os escritores de sua geração. O leitor que já havia dado o braço a torcer, encantado ou simplesmente satisfeito com o primeiro romance, Tudo se ilumina, com Extremamente alto & incrivelmente perto (Extremely loudy & incredibly close, tradução de Daniel Galera, Rocco, 2005) encontrará motivos de sobra para, mais uma vez, deixar que o talento de Safran Foer vença-o, novamente.

Originalidade é uma palavra desgastada para se referir ao trabalho de um romancista disposto a lidar singularmente com a linguagem literária. Safran Foer é autor competente, que não apenas sabe contar uma história, mas contá-la de um jeito diferente, pouco tradicional, e, com isso, consegue deixar o leitor estupefato diante das soluções encontradas para driblar lugares-comuns da literatura.

Inovações por todo o romance

Fotografias que ilustram a narrativa, oferecendo um modelo real para o leitor, como as palmas das mãos do avô que trazem escritas as palavras “sim” e “não”, únicas respostas esperadas dessa personagem que, numa atitude de coragem ou covardia, de acordo com o ponto de vista de cada leitor, deixara de falar, expressando-se apenas desta maneira, isto é, abrindo a palma da mão para cada pergunta que lhe é feita; ou então palavras que, buscando representar um momento de desespero, comprimem-se - confundindo o leitor, que até é capaz de julgar que o livro, como objeto, está com algum problema de impressão; ou, de repente, o narrador deixa a outro personagem sua função de narrar; em outra passagem, numa página repleta de nomes escritos a mão, destaca-se o nome do pai do narrador – este narrador, por sinal - aproximem-se, cavalheiros -, é um admirável & inesquecível menino de nove anos, mais interessante do que muita gente que se vê por aí.

Oskar perdeu o pai nos atentados de 11 de setembro e, a despeito disso, é um prodígio na altura de seus nove anos. Durante toda a trajetória desse garoto por Nova York, o leitor se lamenta por sua desventura: mais uma vez, como em muitos outros romances da literatura norte-americana, é a busca pela figura do pai que está em jogo aqui. No dia do maior atentado terrorista da história, o pai de Oskar estava lá, no alto de uma das torres do World Trade Center. Mas essa informação só será confirmada pela narrativa depois de muito tempo, culminando num clímax capaz de mostrar o sofrimento por que passa Oskar, sem que o leitor possa fazer alguma coisa; afinal, é possível perceber que alguma coisa está errada com esse rapazinho que mais parece um adulto. Por isso, quando a verdade chega, as lágrimas de Oskar escorrem por seu rosto, da mesma forma que a chuva cai, em momentos-chave de qualquer narrativa, para demarcar momentos de transição na vida dos personagens, transformando suas vidas da água para o vinho e vice-versa.

Não é de hoje que é preciso ficar de olho nesse escritor que nem bem galgou a casa toda dos trinta e poucos anos. Aos 25, publicou Tudo se ilumina (2002); depois, vieram Extremamente alto & incrivelmente perto, aos 28, e a não ficção Comer animais (2009), aos 32. Hoje, aos 35, Jonathan Safran Foer é um autor que, além de saber como contar uma história, mais do que isso, sabe contá-la de um jeito diferente, com a cara da pós-modernidade que ronda, noite após noite, a literatura. É uma promessa concretizada. Não vá perdê-lo por aí.

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Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em Estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e perspectivas das ciências humanas na atuação e na formação docente (Paco editorial). Sou professor e coordenador do curso de Letras no Centro Universitário Claretiano e apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Ubirajara Gonçalves Filho, vulgo Bira, foi parido em São Paulo (apesar do nome e da cara de índio), em 1984, esse ano estranho, xará da obra de Orwell. Formou-se em Letras em 2008. É cinéfilo. Lê e faz histórias em quadrinhos. Já tentou parar de desenhar, utilizando adesivos antifumo, mas não obteve sucesso. E a recaída vem sempre mais forte....
 

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09/09/2012