)Música(

Eu sou Legião / Legião Urbana

Renato Alessandro dos Santos

Uma coisa é certa: em algum momento de sua vida você irá retornar à Legião Urbana. Isso é tão certo como é certo que ainda não será desta vez que irá parar de fumar. Estou me referindo àqueles que, hoje, têm 40 anos (!) e são da minha geração. Nasci em 1972 e, 20 anos depois, assisti a um show da Legião Urbana no Gigantão, em Araraquara, cidade que, 20 anos antes, me recebia de braços abertos, quando escapuli de dentro de minha mãe como uma espinha. Com pus. Não lembro nada do show. Mas foi demais. Os shows no Gigantão eram de gente como Titãs, Paralamas do Sucesso, Rádio-Táxi (Jesus!); mas foi lá que vi Sepultura, Overdose, Dorsal Atlântica, Korzus e Volcano num show antológico, "Thunder metal", onde conheci uma garota que gostava de ver estrelas caindo do mata-borrão do céu, enquanto tocava tambor pra ela.

Renato Russo, Dado Villa-Lobos, aquele rapaz loirinho e aquele rapaz que, depois, sumiu. Eis aí Legião Urbana. A cada álbum, mais e mais fãs. Renato Russo, na Bizz, declarou que gostava mesmo era de meninos, mas de meninas também. Mais tarde, numa época ingrata, o amor pelos meninos o fez perder o fôlego, infelizmente para sempre. O que teríamos ganhado se Renato estivesse vivo hoje? Puxa! (E Chico Science?!). Ninguém nunca será o maestro novamente: ao vivo, como num show dos Los Hermanos, cada música da Legião Urbana era entoada como se 107 dançarinas de Las Vegas levantassem a perna esquerda e a barra da saia ao mesmo tempo. Lado a lado. Era espetacular. Como o pôr de sol.

E qual sua música predileta da Legião Urbana? E precisa? “Daniel na cova dos leões” ou “Fábrica”? “Faroeste caboclo”, “Há tempos”, “Soldados”, “Pais e filhos”, “O teatro dos vampiros” ou “As flores do mal”? Como escolher uma única música da Legião Urbana?! Até porque essa é uma banda para todo mundo cantar junto. Ou é “toca Raul!” ou “Legião!”. Violão, fogueira, juventude e a velha tríade com rock & roll. Ou seja: velhos clichês que dão cor à nossa imaginação e vida. OK, OK, mas e quanto à Única Música? Que tal “1962 (duas tribos)”,”Será”, “Teorema”, “Música urbana”, “Música urbana 2”? Que tal?

A resposta é outro clichê. Não há uma única música: quando menos se espera, uma canção da Legião Urbana vem se pendurar no trapézio que há em nossa imaginação e, então, começamos a cantarolá-la. Comigo, toda vez que ouço “Há tempos”, instantaneamente, é réveillon de 1900 e 90 e alguma coisa, em Gavião Peixoto, no clube aonde meu amigo do peito Clodoaldo Pigatto, que viria a ser meu cunhado, me leva: “Há tempos” irradia pela pista. Também não seria capaz de escolher apenas um disco da Legião Urbana, mas, obrigado por piratas de um olho só, escolheria V. Sempre gostei desse disco. “Sereníssima”, “A montanha mágica” e “Vento no litoral” são uma lufada de ar a quem consegue vencer a preguiça e le-van-tar-se para abrir a janela.

Uma única referência musical? Os rapazes do Joy Division sempre ressurgem, regurgitando, nos discos da Legião, como aqui e ali uma leva de bandas punks, diretamente do fim do mundo. Uma referência literária? Que professor de literatura já não foi à Legião Urbana para levar seus alunos a “Monte Castelo”, onde, desvendando palavras cruzadas, Camões os esperava, enquanto anões rodopiavam no céu como abelhinhas grogues? E o resto é silêncio, como diria Erico Verissimo.

Talvez seja hora de ir até sua coleção de discos e resgatá-los da extinção ou recorrer às pastinhas amarelas do seu computador, onde a Legião Urbana está em formato mp3. Tenho a coleção toda no computador e velhos discos da Legião cheios de teias de aranha. Se meu toca-disco prestasse, e estivesse de volta da oficina aonde foi há três semanas, seria uma decisão difícil: qual disco ouvir?

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Ilustrações de Vanessa Lira.

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Meu nome é Renato Alessandro dos Santos. Tenho 40 anos, um filho de onze anos, Théo, e uma mulher que amo, Silvia. Sou doutorando em estudos literários na UNESP, de Araraquara, e autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. Sou, também, um dos autores de Literatura futebol clube (Multifoco), Crônico: crônicas brasileiras ilustradas (Multifoco) e de Desafios e Perspectivas das Ciências Humanas na Atuação e na Formação Docente (Paco editorial). Sou professor, apaixonado por música, cinema, literatura e pelo Santos Futebol Clube; e-mail: realess72@gmail.com; perfil no Facebook (Renato dos Santos Santos).

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Vanessa Lira é artista plástica e utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão. Escreve desde os dez anos. É mãe do Theo, de dois anos. Esposa, amiga e companheira de Anderson Lira, que lhe cedeu o nome, há quase oito anos. Trabalha com gestão educacional no terceiro setor. Blog: http://macroolhar.wordpress.com/

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12/08/2012