)Sarau(

Histórias de assombração /

Paulo Mendes Campos

Pois não é que eles vinham vindo pela estrada fria, Nhô Bê e Chico, dois homens. Vinham vindo pelo estradão sem fim, naquela noite amarga de escura, nem uma estrela no céu, nenhuma claridade, tudo negro, tudo medonho. Era quase meia-noite e eles vinham vindo, só com o facão na cintura, voltando pro rancho.

Nisso estavam chegando perto da casa do defunto Miguelangelo, uma tapera, abandonada, que de noite apareciam lá não sei quantas almas do outro mundo. Muita gente já tinha visto as tais almas cantando, tinha dado tiro nelas, mas a bala não pegava. Uma tocava viola, uma viola chorosa e bam afinada, mas ninguém via a viola. Coisa misteriosa. Era mesmo daquelas assombrações que a gente respeita e passa longe, evita elas, mas, Nhô Bê não acreditava “nessas bobagens não”.

— Isso de assombração é besteira, Chico.
— Se é, compadre.
— Pois eu não acredito nisso e acho que é até pecado acreditar. O pessoal lá em casa é meio besta, acredita, isto é, a mulherada que é meio besta.
— Em casa também compadre.
— Negadinha boba, Chico. Donde se viu?! Eu nunca tive medo dessas invenções.
— Nem eu, Nhô Bê, nem eu.

Eu estava orgulhoso de ver dois bravos com essa coragem formidável, isso sim, era gente pra pôr num conto, até dava gosto lidar com eles. Precisava ver quando, daí a pouco, desabou uma tempestade de acabar o mundo, daquelas mesmo de lavar a terra e a gente não se aguentar em pé debaixo dela. Chuáaa, e a aguaceira caía que não era vida! Então, os dois homens estavam bem pertinho da casa mal-assombrada, onde tinham matado o defunto Miguelangelo. Foi uma barbaridade aquela morte, quebraram os dentes dele, quebraram os dedos dos pés e das mãos e depois deixaram o velho ir morrendo devagarzinho, naquele sofrimento, que só aquilo merecia o céu.

Estava mesmo na frente da casa, e a chuva de não se aguentar embaixo. Nhô Bê falou para o companheiro:

— Acho que é melhor a gente entrar na casa e esperar passar a chuva, Chico.
— Mas é que essa casa tem uma fama desgraçada, compadre....
— O que tem isso, Chico? Pois a gente não tem medo de assombração.
— Ah! É mesmo compadre! Então vamos.

E foram. Entraram sem abrir a porta, porque não tinha porta mais, nem janela.

Mas entraram com muita precaução, espiaram pra dentro, foram andando de manso, chegaram no centro da casa, juntaram uns gravetos, e tal, e fizeram fogo.

O fogo eles disseram, lá entre eles, que era para esquentar o corpo, mas eu desconfio que era pra espantar as almas do outro mundo. Porque, francamente, eles não estavam muito firmes, não. Coragem eles tinham e bastante, mas, numa hora dessas, num lugar assim de má fama, meia-noite, aquela chuva torvando, aquela casa escangalhada, a gente fica mesmo meio esquerda. Mas eles estavam ali, firmes.

De repente, um barulhinho esquisito, que nem gente que pisa disfarçado. Os dois estavam agachados na frente do foguinho, nessa hora arregalaram os olhos, ficaram escutando pro lado do barulho, que era no vão da porta.

Pra dizer a verdade, estavam com os olhos deste tamanho, olhavam um pro outro e depois pra porta. Outro barulhinho mais perto e apareceu uma sombra se mexendo na porta. Nhô Bê puxou a faca da cintura. Chico segurou a “pernambucana” e ficou pronto pra enfrentar o bicho. Mas, porém, o bicho não era “aquele bicho”. Era um franguinho. O pobre vinha todo molhado, pingando chuva, querendo encontrar um cantinho para se esquentar. Aquilo foi um contentamento pros dois, um alívio pra eles, até para mim que não tinha nada com o caso. Não que eles tivessem medo, mas, numa hora daquelas, aquele barulho na porta, um negócio assim que vinha agachado pro lado deles, era mesmo pra gente arregalar os olhos e parar a respiração.

— Está vendo, Chico, se a gente tivesse medo podia até morrer de susto agora, pois é só um franguinho.
— Pois é, compadre, um franguinho, um franguinho, compadre...

O franguinho veio vindo, chegou perto do fogo, chacoalhou as asas, esticou o pescoço pra cima, fez assim uma carinha de gente e falou pros dois com voz de trovão:

— Puxa vida, como está chovendo, não?

<>_<>

Ilustrações de Vanessa Lira.

<>_<>


Paulo Mendes Campos
, escritor, como visto pelo Releituras e pelo Itaú Cultural.

<>_<>

Vanessa Lira é artista plástica e utiliza a fotografia e o desenho como linguagens de expressão. Escreve desde os dez anos. É mãe de Theo de dois anos. Esposa, amiga e companheira de Anderson Lira, que lhe cedeu o nome, há quase oito anos. Trabalha com gestão educacional no terceiro setor. Blog: http://macroolhar.wordpress.com/ 

 

 

  • 267_sua_casa_e_o_seu_paleto.play

16/07/2012